Escolha seu animal
de estimação

É bom conhecer o bicho que você terá em casa.
Saiba como ele se comporta e que cuidados exige

Rachel Verano

Saiu o mais recente e confiável levantamento sobre animais de estimação no Brasil. Conforme esse estudo, preparado pelo Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal, o interesse das pessoas por criar um bicho em casa só faz aumentar. O número de cães e gatos domésticos no Brasil aumentou 41% nesta década. Em 1990 havia 22 milhões desses animais. Hoje são 31 milhões. Em 1994, as empresas do ramo venderam 250.000 toneladas de ração para esses animais. A produção prevista para este ano é de 660.000 toneladas. Os brasileiros estão criando de tudo. É evidente que os cães e gatos predominam, mas há coelhos, chinchilas, pássaros e outros bichos que podem ser mantidos em casa sem problemas. Recebendo os cuidados adequados, esses animais não transmitirão doenças às pessoas e poderão ser uma ótima companhia. Não há criança que não queira ter um.

A procura pelos animais mudou o status dos criadores e vendedores. As lojas especializadas, antes localizadas em endereços menos nobres, mudaram para shopping centers e outros pontos comerciais de prestígio nas grandes cidades. Nunca foi tão fácil comprar um animal de raça apurada, mas antes de ceder aos impulsos e escolher o seu é bom saber que sua vida mudará a partir do momento em que levar para casa aquele filhotinho lindo. Qualquer animal, por menor que seja, exige algum tipo de cuidado e uma boa dose de paciência. A rotina de quem deseja um cão ou um gato deve prever tempo para alimentação, cuidados com o pêlo, os dentes e, de vez em quando, uma ida ao veterinário. Quem preferir os cães também deve reservar alguns minutos do dia para levá-los a passear. Isso é importante para a saúde do bicho e evita sujeira. (Um cachorro pode demorar até dois meses para aprender o lugar da casa onde pode urinar.) "O animal não é um robô que você desliga e deixa num canto se não quiser mais brincar com ele", diz a veterinária Hannelore Fuchs, de São Paulo. "Ele é completamente dependente e sempre precisará dos cuidados do dono." A especialidade de Hannelore, que além de ser veterinária tem o título de doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, é o comportamento dos animais.

As características de cada raça de cão, como agressividade, agitação e reação diante das ordens, são transmitidas de geração para geração tanto quanto o formato das orelhas ou a cor do pêlo. É bom não se deixar levar pela aparência inofensiva dos filhotes. Compre apenas animais com pedigree

Seguro-saúde — Levar o cachorro ao psicólogo pode parecer um luxo excessivo mesmo para quem adora bichos. Mas a criação de qualquer animal, com os cuidados recomendados para sua espécie, sempre tem um preço. Uma consulta ao veterinário, em São Paulo e na maioria das grandes cidades, custa por volta de 40 reais. Os banhos em lojas especializadas variam de 15 a 40 reais, dependendo do tipo de pêlo do animal e dos cuidados que ele exigir. De vez em quando é preciso estar preparado para despesas extras. Se uma fêmea precisar de uma cesariana na hora do parto, por exemplo, o dono terá de pagar 350 reais. Em São Paulo, existe um seguro-saúde para animais, o Vet-Saúde, com 1100 clientes e uma rede de 180 clínicas e oitenta lojas credenciadas. A mensalidade varia de 30 a 70 reais. Para outros animais, como gatos e coelhos, os gastos são menores. Lembre-se: a pior falta de uma pessoa que leva um animal para casa é maltratá-lo. E isso inclui não dar o que ele precisa para viver da melhor forma possível.

Se você acha que pode cuidar bem de um animal e está disposto a gastar para mantê-lo em sua casa, o passo seguinte é escolher entre as dezenas de opções existentes a que mais combina com o seu temperamento. O futuro dono precisa saber o que realmente espera do animal. Quem prefere os cães e deseja um animal calmo e dócil, por exemplo, deve evitar o beagle, a raça do Snoopy das histórias em quadrinhos. O beagle tem a aparência simpática, mas é agitado e não costuma acatar ordens (confira fichário). Quem fica fora de casa a maior parte do tempo pode querer dar preferência a animais independentes, como os gatos, que enterram as próprias fezes e não se incomodam em passar o dia sozinhos. Saber se o animal que você escolheu terá o comportamento que se espera dele é fácil. No caso dos cães e dos gatos, basta comprar apenas animais com linhagem conhecida, o que pode ser feito através do pedigree.

Cuidado com as feras — O pedigree é um atestado de procedência e garante mais do que as características físicas da raça. No caso dos cães, ele pode ser uma garantia de tranqüilidade. A agressividade, a agitação e a reação do animal diante das ordens são transmitidas de geração para geração tanto quanto o formato das orelhas ou a cor do pêlo. Quem quiser mais segurança sobre o comportamento de seu bicho deve procurar, além de conhecer a linhagem, saber detalhes a respeito dos pais e avós. (Filhos de animais agressivos tendem a ser mais agressivos ainda.) Procurar conhecer com antecedência as reações típicas da raça de sua preferência é importante. Ninguém compra um cão ou um gato adulto para ser seu animal de estimação. De um modo geral, compra-se o filhote. E todo filhote, até mesmo os dos leões e dos tigres, é gracioso. É preciso saber que, com a provável exceção do labrador, a mais dócil de todas as raças, todo cachorro pode morder. "Os cães já nascem com sua arma de defesa", diz Bruno Tausz, diretor da Confederação Brasileira de Cinofilia. "Sempre que se sentir acuado, usará os dentes para reagir." O que varia entre os cães é a freqüência com que a agressividade se manifesta e o grau de provocação que ele suporta antes de partir para o ataque. Quem prefere os gatos também precisa observar alguns detalhes. Algumas raças soltam mais pêlos do que as outras e devem ser evitadas por pessoas com tendências a alergia. Outras miam mais. "A certeza de que um animal não é descendente de cruzamentos que misturam raças é uma garantia de suas características", diz Inar Meirelles Pessoa, bióloga e presidente da Federação Felina Sul-Americana.

Certas raças de cães são extremamente perigosas, por mais que os criadores defendam sua boa índole. Além disso, alguns são grandes, fortes e ágeis. Cães como o dobermann ou o rottweiler, por exemplo, podem ferir gravemente ou até matar suas vítimas. Fuja deles. A mordida de um mastim napolitano chega a ter mais de 2 toneladas de pressão por centímetro quadrado, segundo o veterinário Bruno Tausz, da Confederação Brasileira de Cinofilia. Alguns amedrontam apenas pela aparência. Na semana passada, o jogador Romário não se importou com as testemunhas e escondeu-se num carro para fugir de um pit bull que passeava sem coleira diante do campo de treinos do Flamengo, no Rio de Janeiro. Romário já foi mordido por cachorros e sabe como isso dói. Ataques de cães ferozes acontecem com freqüência. Não se sabe qual das raças foi responsável por mais ataques entre os 114.000 casos de agressão registrados no ano passado pelo Departamento de Controle de Zoonoses da Secretaria da Saúde de São Paulo. A maioria dos ataques partiu de cães sem pedigree. Mas, para evitar surpresas, o mais recomendável é fugir dos que são considerados perigosos ainda que tenham o pedigree.

De olho na lei — Outros animais não exigem o mesmo tipo de cuidado. Os gatos de raça, por exemplo, raramente atacam uma pessoa e quando fazem isso não causam mais do que arranhões. Além disso, não têm de ser levados para passear e só precisam de um ou dois banhos por mês. Os roedores dão menos trabalho ainda. Ao contrário dos gatos, que devem ser criados soltos, é recomendado que os coelhos, o hamster e a chinchila fiquem em gaiolas (do contrário, poderão roer os fios dos eletrodomésticos, os pés dos móveis e as plantas, ou mesmo fugir). O que o dono desses bichos não deve esperar é que eles retribuam o carinho recebido da forma como fazem os cães. Ainda assim, pode ser divertido criá-los. O hamster, aquele ratinho que se reproduz com rapidez impressionante (a fêmea tem uma gestação de apenas dezesseis dias e, em média, oito filhotes em cada ninhada), pode ser adestrado para fazer malabarismos na gaiola. Ele aprende, por exemplo, a brincar em roda-gigante e em escorregador. Também pode ser adestrado para andar num carrinho e tirar sua própria comida de um balcão colocado dentro da gaiola.

Existe um limite legal para a criação de animais dentro de casa. Alguns anos atrás, ameaçou ser moda a criação de iguanas, salamandras, serpentes e outros répteis. Muita gente ainda tem esses bichos repugnantes dentro de suas casas. Embora seja relativamente fácil encontrá-los em lojas de animais, a criação foi proibida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, o Ibama, em junho deste ano. Outra restrição é com relação às aves. Espécies originárias de outros países podem ser criadas no país. Mas as aves brasileiras, não. Também não é permitida a criação em cativeiro de nenhum animal silvestre brasileiro. A lei é severa. Quem criar espécies proibidas pode pegar de seis meses a um ano de cadeia e ainda pagar uma multa que variará de acordo com a quantidade de animais mantidos em cativeiro. Com tanto animal permitido no mercado, o melhor é não arriscar.


Kit básico para o animal

Quem compra um animal de estimação deve considerar que as despesas não se limitarão ao dinheiro gasto com a compra, a alimentação e a saúde. As lojas especializadas dispõem de uma grande quantidade de produtos e alguns acessórios são indispensáveis para garantir o conforto do bicho e do criador. Outros são absolutamente supérfluos. As novidades nesse campo não param de surgir e para os criadores mais apaixonados podem ser uma tentação.

Os acessórios básicos para os cães custam, em média, 120 reais nas melhores lojas especializadas. Eles são a cama, a coleira, os potes para comida, a escova para o pêlo e ração para um mês. A lista dos supérfluos inclui roupas e até jaquetas de couro, que chegam a custar 130 reais. Nas prateleiras das lojas ainda é possível encontrar chocolates, chicletes e, para completar, escova e pasta de dentes.

O gato precisa, além das vasilhas para alimentos, de uma bandeja com areia especial, na qual enterrará as fezes. Os gastos iniciais com os bichanos ficam em 50 reais. Com as aves e os roedores, a principal despesa é a gaiola. O preço depende do tamanho e varia entre 30 e 200 reais. Se o bicho for um hamster, com mais 100 reais é possível instalar na gaiola um parque de diversões com roda- gigante, labirintos e carros de corrida. Para quem cria pássaros e roedores, é bom ter sempre jornais em casa para forrar o fundo da gaiola. Isso facilita a limpeza.

Fotos: Arthur Cavalieri/Strana/Fernando Torres/Julio Bernardes



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