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Bancos O Aloysio zangadoO
presidente do Itaú critica o dono do Real, David Friedlander
Nos últimos tempos, empresas brasileiras têm sido vendidas aos magotes a companhias estrangeiras. A fábrica de peças automotivas Cofap agora é de alemães e italianos. A indústria de geladeiras Prosdócimo é de suecos. A fabricante Dako, de fogões, foi parar no colo da GE americana. Bancos estrangeiros também vieram beliscar os nacionais. Os ingleses do HSBC compraram o Bamerindus, os espanhóis do Bilbao Viscaya levaram o Excel Econômico e os suíços do CS First Boston engoliram o Garantia. A banca nacional não se incomodou. Eram bancos em dificuldades, que devem demorar a entrar na praça para uma competição aguerrida. Há duas semanas ocorreu um negócio que feriu interesses. Pela primeira vez um banco grande e em excelentes condições associou-se a um superbanco estrangeiro. O banqueiro Aloysio Faria, dono do Banco Real, quarta maior instituição financeira privada do país, vendeu 40% de suas ações ao gigantesco banco holandês ABN-Amro, oitavo maior do mundo, presente em 71 países. Entre outras coisas, esse holandês é o maior banco estrangeiro a operar nos Estados Unidos. Pela venda, Aloysio Faria recebeu 2 bilhões de reais. A operação ardeu no coração da banca local e deu início a uma discussão entre banqueiros como raramente se vê. Quando a junção foi anunciada no último dia 8, o presidente do Banco Itaú e da Febraban, Roberto Setúbal, fez duas reclamações. Em nome da Febraban, sugeriu que se deveria discutir limites à entrada de bancos estrangeiros no país. Em nome do banco que comanda, disse que havia compradores brasileiros para as ações de Aloysio Faria e que ele mesmo não teve oportunidade de fazer uma proposta. Mais tarde, o Bradesco endossou as críticas de Setúbal. Esses são os dois interesses feridos pelo novo transatlântico financeiro Real ABN-Amro. Pelo nome: Banco Itaú e Bradesco. A história teria parado aí se não fosse por um surto de cólera do banqueiro Aloysio, que, no acordo com os holandeses, cedeu-lhes o comando do banco.
No dia 9, ao saber das críticas do colega Setúbal, Aloysio Faria mandou um fax aos principais banqueiros do país. Nele, diz que o chefe do Itaú faltou com a verdade pois o Real lhe foi oferecido. Aumentou a temperatura da resposta ao acusar o outro banqueiro de ganancioso, já que Setúbal lhe teria oferecido muito pouco. Aloysio atribuiu a Setúbal dois outros defeitos. O da arrogância e o da tolice. No dia em que ofereceu uma pechincha pelo Real, Setúbal teria dito também que não havia margem para aumentar significativamente o preço. A sugestão de Setúbal, de limitar o ingresso de estrangeiros na seara dos bancos, diz Aloysio, "parece-me uma tolice imprópria para quem dirige a Febraban e o Banco Itaú. Todos sabem que as autoridades monetárias brasileiras sempre zelaram pelo que é importante para o país e sabem fazê-lo". É assim que termina o seu manifesto. Setúbal respondeu no dia 11, de Paris, também num fax dirigido aos banqueiros. Reafirma que não teve chance de negociar a compra do Real e encerra avisando que não responderia às "lamentáveis agressões pessoais que sofri". Pelo tom dos documentos, essa guerra pelo fax é inédita no mercado financeiro. Ainda mais em se tratando de Aloysio Faria e Roberto Setúbal. Aloysio é um homem muito discreto, quase recluso, e Setúbal é um homem de temperamento inglês, calmo, elegante, capaz de medir cada sílaba que pronuncia. Banqueiros brigam, como todo mundo, mas normalmente seus duelos não aparecem em público. Na semana passada, no entanto, contínuos dos bancos xerocavam os dois fax para espalhá-los pela comunidade. O que provocou a briga é mais do que uma simples venda de ações. A praça acha que é o início, de fato, de uma guerra entre bancos estrangeiros e brasileiros. Nessa guerra o Banco Real é uma peça-chave. Quem o comprasse Bradesco, Itaú ou Unibanco teria cacife para enfrentar com mais potência os alienígenas. O problema é que ele foi parar no colo do adversário. E, se já era um banco grande e bem administrado, cresceu tremendamente de tamanho associando-se ao ABN-Amro. Os holandeses do ABN estão no Brasil há 81 anos. Portanto, conhecem bem o mercado brasileiro, o hábito dos clientes, o defeito da concorrência. Mas se concentraram até agora em grandes negócios. O comando do Real é tudo o que queriam para também entrar no campo do varejo bancário, como a administração de contas correntes, caderneta de poupança, cheque especial. Na Europa são mestres nisso, donos de uma tecnologia mais apurada do que a da maioria dos bancos brasileiros. O ABN-Amro queria o Real desde fevereiro. O Bradesco o cobiçava desde janeiro. Três semanas antes de fechar o negócio, Aloysio Faria foi a Brasília avisar o Banco Central. Lá, pediram-lhe para oferecer o banco também a instituições nacionais. Bradesco e Unibanco fizeram propostas por escrito. A proposta dos dois bancos foi de mais de 1 bilhão de reais, mas inferior à dos holandeses. No Bradesco, no entanto, se critica a atitude do Real. "Eles não nos diziam claramente o que queriam vender. Por isso tivemos de fazer uma proposta no escuro, apenas pelo banco e pela empresa de crédito imobiliário", diz um alto executivo do Bradesco. Os holandeses compraram participação no banco e em outras cinco empresas do grupo Real. No Itaú conta-se história semelhante. Roberto Setúbal jantou em maio com um negociador do Real e chegou a rascunhar uma proposta vaga, pois também não sabia quais empresas do grupo estavam à venda. "Era uma idéia inicial, para ser levada ao doutor Aloysio e depois ser negociada, mas eles nem nos responderam", conta um alto executivo do Itaú. No Banco Central, assim como no Real, há uma terceira versão. Os bancos brasileiros teriam esperado que o preço do Real fosse caindo para comprá-lo na bacia das almas. Acabaram atropelados pela trupe holandesa. Com reportagem de Cintia Valentini e Felipe Patury
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