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Uma das fábricas da Boeing: 238.000 empregados em todo o mundo |
| Foto: Rich Frishman |
O gigante do ar
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Como um passageiro dentro de um avião voando em meio à turbulência, a Boeing não se pode dar ao luxo de afrouxar o cinto e relaxar na poltrona. No ano passado, atrapalhada com reformas na linha de montagem da empresa nos Estados Unidos, o maior fabricante mundial de aviões comerciais de grande porte viu-se naquela situação desconfortável de estar incapaz de entregar as mercadorias encomendadas pela freguesia. O resultado foi um prejuízo de 178 milhões de dólares em 1997, o pior nos cinqüenta anos da empresa. Na semana passada, para vergonha da diretoria em Seattle, a companhia precisou admitir que as dificuldades continuam, complicando a produção do 747, o Jumbo, modelo mais conhecido da Boeing. O que pode dar tão errado numa empresa que praticamente inventou a era da aviação a jato? Como seria de esperar num negócio que fatura mais de 45 bilhões de dólares por ano, o problema não decorre de um fator isolado, mas de uma série de adversidades que conspiram para detonar seus lucros.
O primeiro problema: o excesso de encomendas provocou falta de peças e congestionou a linha de montagem. Segundo problema: a companhia decidiu reformular o sistema de montagem dos aparelhos, com resultados desastrosos. Terceiro problema: o tempo da fartura de pedidos está chegando ao fim devido à crise financeira asiática. Dos 550 aviões que a Boeing planejava montar neste ano, pelo menos noventa foram cancelados, com efeitos devastadores sobre o caixa da empresa. Tudo isso forma um quadro ruim, mas não desastroso para a companhia. Nem seria possível numa marca que está em 55% de todos os aviões a jato atualmente em operação no mundo. A conta chega a 77% quando se consideram os aparelhos da McDonnell Douglas, que a Boeing comprou por 16,3 bilhões de dólares no ano passado.
Donos do ar O negócio criou uma situação nova no mundo da aviação, que passou a ser dominado por dois megafabricantes, a própria Boeing e o consórcio europeu Airbus. A concorrente traçou como meta ocupar metade do mercado total de aviões novos, um negócio de 65 bilhões de dólares por ano. Em parte foi para conter a expansão da Airbus que a Boeing aceitou pedidos além da conta. A companhia também errou o pé oferecendo aviões feitos sob medida para cada cliente. O imenso 747, capaz de levar até 568 passageiros, é um conjunto de mais de 6 milhões de peças e componentes. A Boeing permite ao comprador complicar ainda mais a montagem escolhendo, por exemplo, entre 38 modelos diferentes de cabine para piloto e nada menos que 109 tons de branco para a fuselagem.
O teste de fogo dos dois megafabricantes é a crise que assola a Ásia. Depois de crescer mais de 10% ao ano na última década, o dobro do índice global, o tráfego aéreo no Oriente vai encolher pelo menos 10% em 1998. Foram as encomendas asiáticas, feitas às dúzias num momento de euforia, que congestionaram a linha de produção da Boeing. Não chega a ser uma notícia animadora, mas a empresa pode contar com o cancelamento maciço dos pedidos asiáticos para pôr ordem na casa.
Tudo de que o gigante precisa é tempo. No início deste ano, para debelar a crise, a Boeing eliminou 8.200 postos de trabalho, reduzindo para 238.000 o total de seus empregados no mundo. Também podou as opções de personalização de seus aviões e transferiu todos os projetos do carga-pesada 777 para o computador, eliminando no processo toneladas de desenhos e maquetes. O plano estratégico é melhorar os modelos existentes em lugar de criar novos aviões. É uma decisão na contramão da concorrência. A Airbus aposta tudo no crescimento do mercado aéreo e está investindo 9 bilhões de dólares no novo A3XX, um mastodonte voador com capacidade para transportar entre 550 e 1.000 passageiros por vôo.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |