Pressão demais

Como o stress e as crises nervosas, ilustradas
pelo caso Ronaldinho, derrubam as pessoas

Laurentino Gomes e Karina Pastore

A bomba pode estourar a qualquer momento e não escolhe vítimas. Um estudante vara as madrugadas o ano inteiro preparando-se para o vestibular. Vai tudo bem até que, a um mês do exame, tudo trava. Ele começa a ter tremedeiras, sua frio, não dorme à noite — e não tem mais cabeça para estudar. Um executivo, às voltas com um cargo acima de sua competência, vai recebendo sinais de que seu organismo está em pane até um dia em que as pernas bambeiam, o coração começa a galopar e ele chama o médico pensando que vai morrer na frente dos colegas. Recém-separada do marido, a mulher até então muito forte entra em crise de depressão, perde o interesse por tudo e não quer nem sair da cama pela manhã. Há gente que sente crises súbitas de pânico, nas quais um adulto pode ter medo de sair de casa. Outros experimentam a sensação de desmaiar. São todos sintomas clássicos do stress, um problema muito mais comum do que se imagina. Apontado como o mal do século, definido pela Organização Mundial de Saúde como uma "epidemia global", ele atinge nove em cada dez habitantes do planeta. Crises nervosas, em situações-limite que envolvem desafios inesperados ou pressão muito grande, podem ocorrer com qualquer pessoa. Algumas têm surtos passageiros que, muitas vezes, nunca mais se repetem. Outros sofrem um colapso nervoso devastador. Foi um caso de stress, um caso muito especial, que o Brasil presenciou, estarrecido, no domingo 12.

Horas antes de entrar em campo para disputar a final da Copa do Mundo, com a França, Ronaldo Luís Nazário de Lima, o Ronaldinho, astro principal da seleção brasileira, desabou. Milhões de torcedores que aguardavam o início do jogo pela televisão foram pegos de surpresa pela divulgação de uma lista de jogadores em que o reserva Edmundo aparecia no lugar de Ronaldinho. Passados alguns minutos, nova lista foi providenciada, desta vez com o nome do titular. Mas o que se viu em seguida foi chocante. Ronaldinho entrou em campo apático, de cabeça baixa. Participou de poucas jogadas, não driblou e deu só dois bons chutes a gol. Era apenas uma sombra do craque que costuma decidir os jogos em lances fulminantes. Sem a chama de seu principal atacante, toda a seleção afundou. E deu o resultado temido por todo o Brasil.

Durante a semana correram as mais diferentes versões sobre o que teria ocorrido com Ronaldinho antes da final da Copa do Mundo. Falou-se em ataque epilético, choque anafilático em conseqüência de aplicações de medicamentos no joelho e até, em duas teorias mais delirantes, envenenamento durante o almoço servido na concentração do Brasil e conspiração da Fifa com a CBF para entregar o título à França (veja quadro). Os depoimentos de outros jogadores e membros da comissão técnica, confrontados com a opinião de dezenas de médicos e especialistas ouvidos na semana passada, fornecem outra explicação. Aparentemente, Ronaldinho foi vítima de uma crise nervosa que deflagrou todos os sintomas apresentados pelo jogador no quarto da concentração. Desmaiou, teve contrações nos músculos, suou muito. Isso pode acontecer a qualquer um em situações nas quais a pessoa sofre exigências externas ou internas insuportáveis. Em alguns indivíduos, esses achaques podem ter contornos de uma crise de pânico. É a tragédia de sentir o corpo desabar quando o domínio sobre ele mais se faz necessário. Abate homens e mulheres, corajosos e medrosos, fortes e fracos. As vítimas, geralmente jovens de 17 a 25 anos, contam-se aos milhões. Estima-se que de 10% a 15% das pessoas serão acometidas por uma crise dessas em algum momento de suas vidas. Todas têm alguma predisposição genética ao surto. Mas nem todas estão necessariamente fadadas ao ataque. É preciso algo mais para deflagrar uma crise. Em meio a uma infinidade de fatores, o mais comum deles é o stress. É provável que tenha sido esse o caso de Ronaldinho. "Minha correria é muito cansativa", confessou o jogador a VEJA na última quinta-feira. "Eu só quero ter paz. Preciso muito descansar" (leia entrevista).

Cena assustadora — Para os que a testemunharam, a crise de Ronaldinho foi uma cena assustadora. Depois de almoçar um prato de macarrão e uma maçã de sobremesa no restaurante do Château de Grande Romaine, onde a seleção ficou hospedada, Ronaldinho foi ao seu quarto, raspou o cabelo com a ajuda do lateral Roberto Carlos, seu companheiro de alojamento, e deitou-se. Ficou assistindo à televisão enquanto, na cama ao lado, Roberto Carlos lia uma revista e ouvia música com fone de ouvido. O massagista Luisão entrou no quarto para entregar duas pílulas aos jogadores. Uma de vitamina B, para Roberto Carlos, e outra do antiinflamatório Voltaren, para Ronaldinho, que vinha tomando regularmente o medicamento para aliviar as dores que sentia no joelho. O craque, contudo, não chegou a tomar o remédio. "Fui comentar algo com Ronaldinho e vi que ele estava fazendo caretas", conta Roberto Carlos. "Pensei que fosse brincadeira, mas ele começou a babar e tremer. Achei melhor pedir ajuda."

Alertado por Roberto Carlos, o jogador Edmundo, que ocupava o apartamento vizinho, saiu gritando: "O Ronaldinho está morrendo! O Ronaldinho está morrendo!" Outro jogador, César Sampaio, despertou com os gritos e foi ver o que estava acontecendo. "Quando cheguei ao quarto, Ronaldinho tinha toda a musculatura contraída, tremia, babava e emitia grunhidos como quem está forçando a respiração", conta Sampaio. "Lembrei de um caso ocorrido oito anos atrás com meu pai, que sofreu uma convulsão e enrolou a língua após escorregar e bater a cabeça no chão da cozinha." Com a cena do pai na cabeça, Sampaio abriu a boca de Ronaldinho e, por precaução, segurou-lhe a língua para que não enrolasse. Lídio Toledo, o médico da seleção, chegou em seguida. "Estavam todos desesperados", ele conta. "Ronaldinho estava deitado de lado e havia saliva no canto da boca. Eu limpei seu rosto, tirei o pulso e vi que o batimento cardíaco era normal. Então, pedi que todos saíssem para que ele descansasse."

Até a semana passada os médicos da seleção não sabiam dizer exatamente o que tinha acontecido com o jogador. Eles cometeram uma série inacreditável de trapalhadas nas horas que se seguiram à crise. Em vez de levar o jogador imediatamente para o hospital, deixaram que ele dormisse durante uma hora e meia. Quando acordou, Ronaldinho não se lembrava do que tinha acontecido. "Só sentia muita dor nos músculos", contou mais tarde. Só então foi levado à clínica Lilas, nos arredores de Paris, onde passou por uma bateria de exames. "Foi uma cena insólita", contou a VEJA o médico francês Bernard Roger, que o atendeu. "A televisão mostrava ao vivo cenas do estádio em que seria disputada a final da Copa, enquanto a principal estrela do Brasil estava ali, sob os meus cuidados." Os exames não revelaram nenhum problema. Ronaldinho chegou ao estádio cinqüenta minutos antes da partida e foi escalado para jogar. Foi outro erro clamoroso da comissão técnica. Todos os médicos ouvidos na semana passada consideraram absurda a decisão de colocar em campo um jogador que, horas antes, havia passado por uma crise dessa natureza. "Foi uma atitude imprudente", diz o neurocirurgião Arthur Cukiert, chefe do Serviço de Neurocirurgia e Cirurgia de Epilepsia do Hospital Brigadeiro, em São Paulo. "Numa hora dessas, é preciso ser macho", explicou o técnico Zagallo na última quarta-feira. "É preciso ter peito para tomar a decisão. Eu decidi e pronto!"

Sistema em colapso — Crises como a sofrida por Ronaldinho são, no fundo, uma forma extrema de o corpo, exausto, se preservar de novas agressões. É como se ele pedisse trégua ao inimigo externo. Assim como a corrente elétrica que passa pelo fusível, o stress não é um mal em si. Também não é uma doença ou uma invenção do mundo moderno. Ao contrário, faz parte de um dos mais antigos mecanismos de sobrevivência da espécie. Tristeza, medo ou ansiedade são estados emocionais necessários. Imagine um ancestral humano da época em que a espécie ainda habitava cavernas. Sem que seu corpo tivesse a capacidade de experimentar reações orgânicas brutais e instantâneas, o homem não conseguiria escapar de ameaças terríveis como a perseguição de um carnívoro. O stress produz um estado de alerta físico necessário na natureza. Numa situação como a descrita acima, o cérebro ordena o imediato despejo do hormônio adrenalina na corrente sanguínea, em quantidades acima do normal. O ritmo cardíaco se acelera. Os músculos se tensionam. A pressão arterial sobe. As pupilas se dilatam. A própria química cerebral altera-se. Muda a concentração de três substâncias excitatórias do sistema nervoso — a serotonina, a dopamina e a noradrenalina. O pensamento fica mais ágil. Os reflexos, mais aguçados. A atenção e a concentração aumentam. Sob stress, as ações são mais rápidas e assertivas. Essas reações se processam nas camadas mais primitivas do cérebro. São portanto instintivas, animais.

"O stress é o estado de ativação do organismo diante de uma exigência física ou psicológica", explica o psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de Ansiedade da Universidade de São Paulo, USP. "É uma conseqüência inevitável da vida", escreve o médico Paul Rosch, presidente do The American Institute of Stress. "Não ter stress é estar morto." O problema surge quando o stress é permanente, crônico, intenso. Os efeitos variam de uma pessoa para outra. Algumas são mais tolerantes às tensões físicas ou psicológicas. Outras se rendem por bem menos. "O limite é imposto pela vulnerabilidade biológica de cada um", diz a psiquiatra Vera Tess, da USP. Ultrapassada a fronteira biológica, o corpo foge ao controle. Isso ocorre quando a pressão é tão prolongada e insuportável que não dá chance ao organismo de recuperar a tranqüilidade. "Um dia, uma situação de tensão pode ter o efeito de uma gota de água num copo já cheio: basta essa única gota para transbordar", compara o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto, também da USP. "Enquanto não chegam a seu limite de tolerância, as pessoas, em geral, acham que sempre podem suportar um pouco mais", afirma o neuropsiquiatra paulista Rubens Pitliuk.

Proibido de esquiar — Ronaldinho tinha motivos de sobra para estar estressado. Um menino que abandonou a escola na 7ª série para correr atrás da bola, o jogador teve a vida virada pelo avesso nos últimos quatro anos. Tinha 17 anos, estava em período de crescimento e ainda esquentava o banco de reservas da seleção brasileira na Copa de 94 quando lhe caíram no colo os 15% da venda de seu passe para o PSV da Holanda — mais precisamente 900.000 dólares. Para juntar esse dinheiro no Cruzeiro de Belo Horizonte, seu clube na época, teria de jogar 25 anos seguidos. Esse primeiro milhão foi só alegria. Dois anos mais tarde, antes ainda de atingir a maioridade completa, o craque já colecionava outros milhões, dois deles só em salários no Barcelona, da Espanha. Hoje, jogando na Internazionale de Milão, na Itália, é o atleta mais bem pago do futebol mundial. Ganha 10 milhões de dólares por ano, em salários e cachês de publicidade. Tem o patrocínio de quatro grandes empresas: Nike, Parmalat, Brahma e Pirelli. Junto com os rendimentos milionários vieram as proibições contratuais para proteger suas pernas, hoje seguradas em 58 milhões de dólares. Quando estava no Barcelona não podia andar de moto nem esquiar. Agora, é obrigado a raspar a cabeça a cada quinze dias para manter a mesma silhueta com que aparece nos anúncios de produtos. Mora sozinho em Milão e não tem tempo para nada.

Na Copa da França, as pressões foram muito além do que seria aceitável para um rapaz na idade dele. "Seu celular não parava de tocar", conta Fábio Koff, o chefe da delegação brasileira. Cada treino da seleção brasileira reunia cerca de 500 jornalistas do mundo inteiro. Metade estava lá para fotografar, filmar e tentar entrevistar Ronaldinho. "Quando eu estava de folga, teve até fotógrafo subindo no telhado da casa do vizinho para me espionar", queixou-se o jogador. Cada movimento seu era registrado e discutido. Um dia, apareceu para treinar sem aliança. Logo espalhou-se a versão de que tinha brigado com a noiva, Susana Werner. Também disseram que tinha engordado muito, que tinha problemas nos joelhos, que não conseguia jogar direito porque estava preocupado com suas aplicações financeiras durante a Copa. "O Ronaldinho é um garoto só e isolado que precisa de carinho", diz o técnico Zagallo. "Imagina o que é chegar em casa, um apartamento bem montado, e não ter com quem falar", diz o médico Lídio Toledo. "Ele não vive, não pode ir à praia, ao cinema, ao teatro. Abre a porta e tem cinqüenta pessoas esperando. Ele precisa urgentemente de um pára-raios."

Reação em cadeia — O stress crônico, como no caso de Ronaldinho, altera o funcionamento de uma das mais primitivas e profundas estruturas do cérebro, o sistema límbico, responsável pelo controle de quase todas as funções do corpo humano. A partir daí, deflagra-se uma reação em cadeia por todo o organismo. São hormônios e substâncias químicas circulando pelo sangue sem nenhum controle, em quantidades anormais. O estômago produz suco gástrico em excesso. Às vezes, aparecem as úlceras e gastrites. A pele, sem irrigação sanguínea em sua porção mais superficial, torna-se suscetível a eczemas e outras doenças dermatológicas. As artérias permanentemente contraídas podem acarretar uma hipertensão ou estourar num derrame. O coração estimulado a trabalhar mais corre o risco de enfartar. A tensão chega ao maxilar e durante a noite os dentes rangem — há casos graves de stress em que o paciente acaba perdendo todos os dentes. Entre os homens, um risco a mais: a impotência sexual. Em meio a tantos distúrbios, há ainda os transtornos psiquiátricos. Surgem a partir da junção de fatores externos, como o stress, com a genética (veja quadro).

As pessoas geralmente associam o stress a situações desagradáveis. Talvez porque só se fale nele para reclamar do excesso de trabalho, do trânsito infernal ou da discussão com o namorado ou namorada. Está errado. Stress, segundo os médicos, é toda e qualquer mudança na rotina de vida. Sejam elas boas ou ruins. O nascimento de um filho, uma promoção, a morte de um parente próximo ou uma demissão — tudo isso expõe o ser humano a tensão. Além disso, nenhuma situação é estressante por si só. Depende muito de como cada pessoa encara o fator em jogo. Para uns, andar de montanha-russa é um divertimento. Para outros, uma tortura. Também é errada a idéia de que algumas profissões são mais estressantes do que outras. "Obviamente, um piloto de Fórmula 1 está submetido a uma forte carga de tensão", diz Wagner Gattaz, chefe do departamento de psiquiatria da USP. Mas ele estaria muito pior se quisesse ser piloto e estivesse condenado a trabalhar em uma repartição pública para o resto da vida.

O problema, portanto, não é o tamanho do desafio que se tem pela frente, mas os recursos físicos e psicológicos de que se dispõe para enfrentá-los. Esse foi o grande problema de Ronaldinho. Ninguém discute que ele é um jogador extraordinário, dos melhores que o Brasil produziu até hoje. Faltou-lhe porém estrutura para enfrentar o dia mais importante de sua vida. O sucesso aconteceu-lhe muito rápido, e o Brasil ainda não está acostumado a lidar com fenômenos assim. Nos Estados Unidos, celebridades do esporte como Michael Jordan, do basquete, Tiger Woods, do golfe, e Pete Sampras, do tênis, têm um exército de assessores que cuidam de seus interesses. Eles organizam tudo. Cuidam dos negócios do atleta, de sua casa, de sua segurança, de seus compromissos e até dizem onde ele deve ir ou não. Com Ronaldinho é diferente. A equipe de apoio ao jogador é bastante modesta. Seus negócios são controlados por dois empresários do Rio de Janeiro que, apesar da dedicação quase integral ao seu pupilo, nunca tinham lidado com um atleta de primeiro time até descobrirem o craque. Além da dupla de agentes, Ronaldo tem a sua disposição um empregado particular, o baiano Antonio César de Souza, uma espécie de faz-tudo que o atacante adotou desde a época em que morou na Holanda.

Eleito melhor jogador do mundo em duas temporadas consecutivas, Ronaldo estava destinado a ser coroado rei do mundo na França. Sua consagração definitiva deveria se dar na Copa 98, em que aterrissou como a maior estrela entre os 704 jogadores que participaram da competição. Só precisaria fazer gols, muitos gols, os mais belos gols. Mas o roteiro estava errado. Aos 22 anos incompletos, perante um público de quase 2 bilhões de telespectadores ao redor do mundo, Ronaldinho descarrilou.

 


 

Freud explica...

Em um texto publicado em 1895, o austríaco Sigmund Freud, pai da psicanálise, descreveu os sintomas de uma perturbação nervosa que ele chamou de "neurose de angústia". Sua preocupação, naquele momento, era diferenciar esse tipo de afecção de outras como a neurastenia e a histeria, embora houvesse casos em que todas elas poderiam combinar-se. Segundo Freud, várias são as origens da "neurose de angústia", inclusive a abstinência sexual. É interessante notar como os sintomas de um ataque de angústia coincidem com o que supostamente aconteceu com Ronaldinho pouco antes da final da Copa do Mundo. Escreveu Freud, há mais de 100 anos:

"Eis aqui uma relação das formas do ataque de angústia até agora identificadas por mim:

a) com perturbações da atividade cardíaca: palpitações, arritmias breves, taquicardia duradoura e até graves estados de debilidade do coração, difíceis de diferenciar de uma doença orgânica;

b) com perturbações da respiração: diversas formas de dispnéia nervosa, ataques análogos aos de asma etc. É importante ressaltar que tais ataques nem sempre aparecem acompanhados de angústia perceptível;

c) ataques de suor, às vezes noturno;

d) ataques de tremores e convulsões, fáceis de confundir com os histéricos;

e) ataques de bulimia, acompanhados às vezes de vertigens;

f) diarréias;

g) ataques de tonturas locomotoras;

h) as chamadas congestões;

i) ataques de parestesia (raras vezes sem angústia ou um mal-estar análogo)".

Obscurecido por pílulas que prometem a felicidade instantânea e por terapias comportamentais que tratam os pacientes como se fossem cobaias, o velho Freud, ainda hoje, não hesitaria em receitar o divã de um bom psicanalista aos aflitos pela ansiedade, pelo pânico, pelo stress, não importa o nome moderninho que se dê a um mal tão antigo quanto o homem — a angústia.

Mario Sabino


Besteirol em campo

Na semana passada, a falta de esclarecimentos sobre o problema de Ronaldinho, por parte da comissão técnica da seleção, estimulou o surgimento das mais diversas versões sobre o que teria acontecido com o jogador. Algumas são fantasias delirantes. Veja alguns exemplos:

Complô internacional. Veiculada com uma velocidade impressionante pela Internet, é de longe a teoria mais elaborada e imaginosa. O Brasil teria vendido o resultado da Copa da França para a Fifa, em troca do direito de promover o Mundial de 2002. Rico nos detalhes, o boato diz que, às 13h do dia da final, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, teria avisado os jogadores sobre o acordo. A Nike, patrocinadora da seleção, daria a cada um deles um prêmio de 570.000 dólares em troca da derrota. O único que não teria topado participar da negociata foi Ronaldinho. Voltou atrás quando a Nike, mais uma vez, ameaçou retirar seu patrocínio vitalício ao jogador. O governo francês teria tomado parte do complô porque estava interessado em levantar a auto-estima do povo, às voltas com o desemprego.

Envenenamento. Uma colunista do Rio de Janeiro escreveu que a CBF investiga a possibilidade de Ronaldinho ter sido envenenado durante o almoço no dia da final. Após a crise, os médicos da seleção teriam feito uma lavagem estomacal no jogador e colhido amostras de sangue para comprovar essa hipótese. A CBF jura que isso nunca aconteceu.

Choque anafilático. Para aliviar as dores nos joelhos, Ronaldinho teria recebido uma injeção com um coquetel de anestésicos. A infiltração teria provocado um choque anafilático, o que explicaria a convulsão sofrida pelo jogador. Ronaldinho e os médicos desmentem.

Pressão da Nike: nem Ricardo Teixeira nem Zagallo. Quem teria escalado Ronaldinho para o jogo, mesmo sem condições, foi a Nike, assustada com o prejuízo resultante da ausência de sua principal estrela na final da Copa. A empresa divulgou uma nota negando qualquer tipo de pressão sobre o técnico brasileiro.


"Eu só quero paz!"

Depois do trágico dia da decisão da Copa, Ronaldinho quer descansar. Na terça-feira, desembarcou em Brasília, onde a seleção foi recebida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Em seguida, viajou para o Rio de Janeiro, onde tem um apartamento. Pretende passar os próximos trinta dias em companhia da namorada, Susana Werner, que também retorna ao Brasil nesta semana. Na quinta-feira, conversou com a repórter Roberta Paixão, de VEJA. Alguns trechos da entrevista:

Veja O que você teve antes da final da Copa?

Ronaldinho — Não sei direito. Eu estava no quarto, senti sono e dormi. Quando acordei, tudo já tinha acontecido. Os médicos disseram que foi uma convulsão.

Veja O Roberto Carlos falou que só ele e o doutor Lídio Toledo sabem o que aconteceu. Qual é o mistério?

Ronaldinho Não sei o que o Roberto quis dizer com isso. Naquele dia, depois do almoço, fui para o quarto descansar. Ele foi comigo e me ajudou a raspar o cabelo com a máquina que tenho. Depois, ligamos a televisão. Cada um deitou na sua cama e ficamos conversando, até que fiquei com sono. O Roberto foi ler uma revista, eu virei para o lado e dormi. É a última coisa de que me lembro.

Veja O que você fez até a hora em que passou mal?

Ronaldinho No sábado, fui dormir por volta da 1 da manhã. Acordei às 11h30 de domingo. Estava bem disposto. Tive uma noite maravilhosa, de sono tranqüilo. Não estava nem um pouco ansioso como muita gente disse. Por volta do meio-dia, fui almoçar. Comi macarrão com molho de tomate e uma maçã de sobremesa.

Veja De que você se lembra então?

Ronaldinho Acordei com o doutor Joaquim (da Matta, médico da seleção) ao meu lado, e o Roberto também. Eu estava com dores musculares nas costas. Quem me contou o que tinha acontecido foi o Roberto Carlos. Disse que fiquei muito agitado e me debati por cerca de quarenta segundos a um minuto. Para mim, eu tinha só dormido. Fiquei preocupado porque poderia ser alguma coisa séria e eu queria jogar.

Veja Alguém disse que você não iria jogar?

Ronaldinho — Depois que acordei, eu fui para o lanche. O doutor Lídio veio falar que eu precisava fazer os exames. O doutor Joaquim foi comigo até a Clínica Lilas. Estava meio confuso, mas não tive medo de ficar fora do jogo. Me sentia bem, estava louco para jogar e tinha tranqüilidade para isso.

Veja Quem decidiu que você jogaria?

Ronaldinho Quando cheguei ao vestiário estava todo mundo lá. A comissão técnica estava reunida em uma sala separada. Eles me chamaram para conversar. Eu trazia os exames da clínica, sabia que não tinha nada, queria jogar e ganhar. O Zagallo me perguntou como eu estava. Eu disse que estava bem e que iria jogar. Então o Zagallo falou que tudo bem.

Veja Os jogadores ficaram contra essa decisão?

Ronaldinho Não. Eles só queriam saber da minha saúde. Fiquei feliz porque me senti muito querido. Meu problema virou uma lição de vida. Para mim e para todo mundo.

Veja Você não ficou com medo de ter outra convulsão dentro de campo?

Ronaldinho Confiei nos médicos. Não seria idiota nem bobo de pedir para jogar e me arriscar a morrer se não estivesse me sentindo bem.

Veja Você estava cabisbaixo ao entrar em campo. Por quê?

Ronaldinho É o meu jeito. Faço o sinal-da-cruz e entro calado, de cabeça baixa.

Veja Você sentiu alguma dor durante o jogo?

Ronaldinho As costas continuavam doloridas, mas quando entro no campo esqueço tudo. No dia seguinte, meu corpo continuava dolorido.

Veja Você se sente responsável pela derrota?

Ronaldinho Estão querendo me responsabilizar por isso. O nosso time jogou mal, e eu faço parte desse time, mas nós demos o máximo. Não sei se o problema que eu tive atrapalhou a final. Pode ter influenciado. Mas a França jogou muito bem. Terminado o jogo, voltei para a concentração com os outros. Chorei, todo mundo chorou. Depois, dormi.

Veja Teve medo de ser crucificado na volta ao Brasil?

Ronaldinho Não. Quando paramos em Brasília, foi emocionante ver aquele pessoal todo esperando a gente. Esta seleção passou alguma coisa de positivo para o povo. Isso é gratificante.

Veja Como está sendo voltar para o dia-a-dia sem o troféu?

Ronaldinho Meus pais, meus irmãos e meus amigos estão me ajudando muito. Agora, eu quero descansar. Não quero fazer nada. Cheguei ao Brasil na terça-feira e dormi no meu apartamento, sozinho. No dia seguinte, fiquei na casa da minha mãe, com os meus amigos. Na quarta-feira à noite, jantei com minha família na churrascaria Tourão, na Barra. Estou tendo uma vida normal.

Veja Você fez novos exames? Está fazendo algum tratamento?

Ronaldinho Só vou fazer novos exames quando voltar à Itália. Estou bem e não preciso fazer nada agora. Apenas descansar. Não tenho tratamento.

Veja Seu pai deu declarações segundo as quais o Zagallo foi o culpado pela derrota. Disse que você não deveria ter jogado.

Ronaldinho Isso é mentira. Antes da Copa, eu falei para o meu pai e para a minha mãe não darem opinião sobre futebol porque eles não entendem do assunto.

Veja Você está estressado?

Ronaldinho O meu último ano foi muito estressante. Eu amo jogar. Mas no futebol tem coisas que eu não gosto, como viajar o tempo todo e a pressão da imprensa, fora os outros compromissos que eu tenho. A correria é cansativa. Eu só quero paz! No ano passado, tive vinte dias de férias em julho, quando fui para a Disney com a Susana, mas foi rapidinho. Agora, só quero esquecer de tudo.

Veja Durante a Copa, você se desentendeu com a Susana?

Ronaldinho — Não brigamos durante a Copa. Eu tirei a aliança porque machuquei a mão no treino. Fiquei com medo de inchar o dedo e ela não sair. Não contei para o doutor Lídio nem para o Zagallo porque era besteira. Futebol não é jogado com as mãos. Mesmo se tivéssemos tido um desentendimento, seria normal porque somos namorados.

Veja Vocês ainda estão namorando?

Ronaldinho Estamos namorando há um ano e oito meses. Estamos bem. Vamos nos casar um dia. Mas não temos data marcada. A Susana chega na segunda-feira dia 20, do Caribe. Tenho trinta dias de férias, mas ainda não sei o que vou fazer. Quando ela chegar, a gente planeja. Depois das férias, volto com ela para a Itália e à vida normal.

Veja Você só tem 21 anos. O que planeja para o futuro?

Ronaldinho Meu objetivo é ganhar uma Copa. O penta virou uma obsessão na minha vida.


O primeiro milhão é o mais fácil

Seu ofício é danado. Ao contrário das megaestrelas da música popular — igualmente jovens e soterradas em dinheiro, alvos também fáceis dessa máquina de moer gente que é a exposição contínua na mídia —, Ronaldinho tem uma profissão que só existe ao vivo e em cores, sem retoques de estúdio. Tudo se passa ali, no gramado. No seu ramo de negócios, nada é virtual. No mundo do esporte-espetáculo, um popstar recluso e instável como o cantor Michael Jackson, acondicionado em videoclipes e CDs, não teria durado uma temporada. Esporte de massa é outra coisa. Quando há combustão física ou emocional do atleta, ela é aferida na hora. E custa caro a todos os envolvidos.

É por isso que a NBA (a liga profissional americana de basquete), a mais eficiente fábrica de fama e fortuna do esporte mundial, toma precauções específicas em relação ao seleto grupo de calouros contratados a cada ano. Ao todo, são apenas 29, ou seja, um por time. Ninguém entra em quadra, nem como reserva, sem antes passar por cinco meses de preparo intensivo para a nova vida sob holofotes. Psicólogos, especialistas em finanças, médicos e orientadores de toda espécie dissecam as armadilhas com as quais o atleta inevitavelmente cruzará. Assédio de mulheres, com paternidade indesejada, é um dos capítulos mais trabalhados. Os efeitos colaterais do primeiro milhão de dólares, o ingresso no mundo da fama, no qual os fatos contam menos do que as interpretações, o controle da ansiedade, o convívio com a pressão, o abandono voluntário de um naco de privacidade, a construção de uma imagem pública, nada fica de fora. Na outra ponta da carreira, um ano antes de o jogador se aposentar da NBA, ele recebe tratamento inverso: como sobreviver emocionalmente ao término do estrelato e aprender, por volta dos 35 anos de idade, a se tornar um cidadão mais comum. Detalhe: o calouro-padrão do basquete americano é recrutado nas universidades e só acede aos quadros profissionais da NBA aos 21, 22 anos, em média — idade com a qual Ronaldinho, nesta Copa, já tinha sido escalado para se sagrar rei pela primeira vez.

Em condições semelhantes, é possível que até Michael Jordan descarrilasse, muito antes de poder aperfeiçoar a arte de ser o maior, melhor, mais caro, mais pressionado e mais idolatrado atleta em atividade. Em seus treze anos de exposição quase letal nas quadras e na vida, Jordan jamais reclamou do assédio ou da pressão. Teve tempo de compreender a engrenagem e dominá-la. Ronaldinho, ainda não. Nem poderia. Chegou à França embrulhado num cipoal de contratos, com prazo marcado para brilhar, mas sem os joelhos em ordem para a arrancada. Ganhar o primeiro milhão de dólares aos 18 anos talvez tenha sido a etapa mais fácil. "Quando revejo os videoteipes do meu início de carreira", observa hoje o hexacampeão Jordan, aos 35 anos, "vejo alguém em busca de identidade. Reconheço pedaços desse alguém em mim e às vezes sinto saudade do fogo que turbinava aquele jovem. Tive de mudar. Aprendi a fazer da quadra de basquete o lugar onde tenho o maior grau de privacidade — ali ninguém consegue perturbar-me. Uma partida decisiva, com pressão máxima, é o meu refúgio. Ali alcanço um estado de controle total sobre mim". No esporte-espetáculo, a maturidade de um astro tem essa cara.


A quantas andam seus nervos?

O teste abaixo foi elaborado pelos médicos americanos Thomas Holmes e Richard Rahe para medir a carga de stress imposta a uma pessoa por mudanças em sua vida. O questionário não pretende substituir o diagnóstico médico. Serve apenas de referência para a identificação de uma tendência. Assinale as situações vividas no último ano e some os valores correspondentes. Confira o resultado no gabarito abaixo

Morte do cônjuge e de filhos
Divórcio
Menopausa
Separação
Prisão
Morte de um parente próximo
Demissão
Acidente ou doença
Casamento
Reconciliação amorosa
Aposentadoria
Doença de parente próximo
Trabalhar mais de quarenta horas por semana
Gravidez
Dificuldades sexuais
Nascimento de um filho ou parente próximo
Promoção no trabalho
Mudanças no status financeiro
Morte de um amigo próximo
Desavenças freqüentes com o cônjuge
Hipoteca ou empréstimo de dinheiro
Dormir menos de oito horas por noite
Mudança de responsabilidade no trabalho
Problemas com filhos
Cônjuge começa ou pára de trabalhar
Começo ou término do ano letivo
Mudanças na condição de vida (hóspedes, reforma na casa, empregada nova, entre outros)
Mudanças nos hábitos pessoais (dietas, exercício, tabagismo, entre outros)
Alergia crônica
Problema com o chefe
Mudança na jornada e nas condições de trabalho
Mudar de casa
Tensão pré-menstrual
Mudanças no ambiente escolar
Mudanças na atividade religiosa
Mudanças na intensidade das atividades sociais
Mudanças na frequência dos encontros familiares
Férias
Pequenas violações da lei

Pontuação Instantânea:

Resultado:

Se a soma foi superior a 250 pontos, você está propenso a sofrer um stress profundo. É bom procurar o médico para uma orientação adequada

Com reportagem de Maurício Cardoso, Sérgio Ruiz Luz,
Ricardo Villela e Eduardo Junqueira, de São Paulo,
Ronaldo França, do Rio de Janeiro, Eduardo Salgado,
de Porto Alegre, e Fernando Valeika de Barros, de Paris




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