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Pressão demais
Como o
stress e as crises nervosas, ilustradas
pelo caso Ronaldinho, derrubam as pessoas
Laurentino
Gomes e Karina Pastore
A bomba pode
estourar a qualquer momento e não escolhe vítimas. Um
estudante vara as madrugadas o ano inteiro preparando-se
para o vestibular. Vai tudo bem até que, a um mês do
exame, tudo trava. Ele começa a ter tremedeiras, sua
frio, não dorme à noite e não tem mais cabeça
para estudar. Um executivo, às voltas com um cargo acima
de sua competência, vai recebendo sinais de que seu
organismo está em pane até um dia em que as pernas
bambeiam, o coração começa a galopar e ele chama o
médico pensando que vai morrer na frente dos colegas.
Recém-separada do marido, a mulher até então muito
forte entra em crise de depressão, perde o interesse por
tudo e não quer nem sair da cama pela manhã. Há gente
que sente crises súbitas de pânico, nas quais um adulto
pode ter medo de sair de casa. Outros experimentam a
sensação de desmaiar. São todos sintomas clássicos do
stress, um problema muito mais comum do que se imagina.
Apontado como o mal do século, definido pela
Organização Mundial de Saúde como uma "epidemia
global", ele atinge nove em cada dez habitantes do
planeta. Crises nervosas, em situações-limite que
envolvem desafios inesperados ou pressão muito grande,
podem ocorrer com qualquer pessoa. Algumas têm surtos
passageiros que, muitas vezes, nunca mais se repetem.
Outros sofrem um colapso nervoso devastador. Foi um caso
de stress, um caso muito especial, que o Brasil
presenciou, estarrecido, no domingo 12.
Horas antes de
entrar em campo para disputar a final da Copa do Mundo,
com a França, Ronaldo Luís Nazário de Lima, o
Ronaldinho, astro principal da seleção brasileira,
desabou. Milhões de torcedores que aguardavam o início
do jogo pela televisão foram pegos de surpresa pela
divulgação de uma lista de jogadores em que o reserva
Edmundo aparecia no lugar de Ronaldinho. Passados alguns
minutos, nova lista foi providenciada, desta vez com o
nome do titular. Mas o que se viu em seguida foi
chocante. Ronaldinho entrou em campo apático, de cabeça
baixa. Participou de poucas jogadas, não driblou e deu
só dois bons chutes a gol. Era apenas uma sombra do
craque que costuma decidir os jogos em lances
fulminantes. Sem a chama de seu principal atacante, toda
a seleção afundou. E deu o resultado temido por todo o
Brasil.
Durante a semana correram as mais
diferentes versões sobre o que teria ocorrido com Ronaldinho antes da
final da Copa do Mundo. Falou-se em ataque epilético, choque anafilático
em conseqüência de aplicações de medicamentos no joelho e até, em duas
teorias mais delirantes, envenenamento durante o almoço servido na concentração
do Brasil e conspiração da Fifa com a CBF para entregar o título à França
(veja quadro).
Os depoimentos de outros jogadores e membros da comissão técnica, confrontados
com a opinião de dezenas de médicos e especialistas ouvidos na semana
passada, fornecem outra explicação. Aparentemente, Ronaldinho foi vítima
de uma crise nervosa que deflagrou todos os sintomas apresentados pelo
jogador no quarto da concentração. Desmaiou, teve contrações nos músculos,
suou muito. Isso pode acontecer a qualquer um em situações nas quais a
pessoa sofre exigências externas ou internas insuportáveis. Em alguns
indivíduos, esses achaques podem ter contornos de uma crise de pânico.
É a tragédia de sentir o corpo desabar quando o domínio sobre ele mais
se faz necessário. Abate homens e mulheres, corajosos e medrosos, fortes
e fracos. As vítimas, geralmente jovens de 17 a 25 anos, contam-se aos
milhões. Estima-se que de 10% a 15% das pessoas serão acometidas por uma
crise dessas em algum momento de suas vidas. Todas têm alguma predisposição
genética ao surto. Mas nem todas estão necessariamente fadadas ao ataque.
É preciso algo mais para deflagrar uma crise. Em meio a uma infinidade
de fatores, o mais comum deles é o stress. É provável que tenha sido esse
o caso de Ronaldinho. "Minha correria é muito cansativa", confessou
o jogador a VEJA na última quinta-feira. "Eu só quero ter paz. Preciso
muito descansar" (leia entrevista).

Cena
assustadora Para os que a testemunharam,
a crise de Ronaldinho foi uma cena assustadora. Depois de
almoçar um prato de macarrão e uma maçã de sobremesa
no restaurante do Château de Grande Romaine, onde a
seleção ficou hospedada, Ronaldinho foi ao seu quarto,
raspou o cabelo com a ajuda do lateral Roberto Carlos,
seu companheiro de alojamento, e deitou-se. Ficou
assistindo à televisão enquanto, na cama ao lado,
Roberto Carlos lia uma revista e ouvia música com fone
de ouvido. O massagista Luisão entrou no quarto para
entregar duas pílulas aos jogadores. Uma de vitamina B,
para Roberto Carlos, e outra do antiinflamatório
Voltaren, para Ronaldinho, que vinha tomando regularmente
o medicamento para aliviar as dores que sentia no joelho.
O craque, contudo, não chegou a tomar o remédio.
"Fui comentar algo com Ronaldinho e vi que ele
estava fazendo caretas", conta Roberto Carlos.
"Pensei que fosse brincadeira, mas ele começou a
babar e tremer. Achei melhor pedir ajuda."
Alertado por
Roberto Carlos, o jogador Edmundo, que ocupava o
apartamento vizinho, saiu gritando: "O Ronaldinho
está morrendo! O Ronaldinho está morrendo!" Outro
jogador, César Sampaio, despertou com os gritos e foi
ver o que estava acontecendo. "Quando cheguei ao
quarto, Ronaldinho tinha toda a musculatura contraída,
tremia, babava e emitia grunhidos como quem está
forçando a respiração", conta Sampaio.
"Lembrei de um caso ocorrido oito anos atrás com
meu pai, que sofreu uma convulsão e enrolou a língua
após escorregar e bater a cabeça no chão da
cozinha." Com a cena do pai na cabeça, Sampaio
abriu a boca de Ronaldinho e, por precaução,
segurou-lhe a língua para que não enrolasse. Lídio
Toledo, o médico da seleção, chegou em seguida.
"Estavam todos desesperados", ele conta.
"Ronaldinho estava deitado de lado e havia saliva no
canto da boca. Eu limpei seu rosto, tirei o pulso e vi
que o batimento cardíaco era normal. Então, pedi que
todos saíssem para que ele descansasse."
Até a semana
passada os médicos da seleção não sabiam dizer
exatamente o que tinha acontecido com o jogador. Eles
cometeram uma série inacreditável de trapalhadas nas
horas que se seguiram à crise. Em vez de levar o jogador
imediatamente para o hospital, deixaram que ele dormisse
durante uma hora e meia. Quando acordou, Ronaldinho não
se lembrava do que tinha acontecido. "Só sentia
muita dor nos músculos", contou mais tarde. Só
então foi levado à clínica Lilas, nos arredores de
Paris, onde passou por uma bateria de exames. "Foi
uma cena insólita", contou a VEJA o médico
francês Bernard Roger, que o atendeu. "A televisão
mostrava ao vivo cenas do estádio em que seria disputada
a final da Copa, enquanto a principal estrela do Brasil
estava ali, sob os meus cuidados." Os exames não
revelaram nenhum problema. Ronaldinho chegou ao estádio
cinqüenta minutos antes da partida e foi escalado para
jogar. Foi outro erro clamoroso da comissão técnica.
Todos os médicos ouvidos na semana passada consideraram
absurda a decisão de colocar em campo um jogador que,
horas antes, havia passado por uma crise dessa natureza.
"Foi uma atitude imprudente", diz o
neurocirurgião Arthur Cukiert, chefe do Serviço de
Neurocirurgia e Cirurgia de Epilepsia do Hospital
Brigadeiro, em São Paulo. "Numa hora dessas, é
preciso ser macho", explicou o técnico Zagallo na
última quarta-feira. "É preciso ter peito para
tomar a decisão. Eu decidi e pronto!"
Sistema em
colapso Crises como a sofrida por
Ronaldinho são, no fundo, uma forma extrema de o corpo,
exausto, se preservar de novas agressões. É como se ele
pedisse trégua ao inimigo externo. Assim como a corrente
elétrica que passa pelo fusível, o stress não é um
mal em si. Também não é uma doença ou uma invenção
do mundo moderno. Ao contrário, faz parte de um dos mais
antigos mecanismos de sobrevivência da espécie.
Tristeza, medo ou ansiedade são estados emocionais
necessários. Imagine um ancestral humano da época em
que a espécie ainda habitava cavernas. Sem que seu corpo
tivesse a capacidade de experimentar reações orgânicas
brutais e instantâneas, o homem não conseguiria escapar
de ameaças terríveis como a perseguição de um
carnívoro. O stress produz um estado de alerta físico
necessário na natureza. Numa situação como a descrita
acima, o cérebro ordena o imediato despejo do hormônio
adrenalina na corrente sanguínea, em quantidades acima
do normal. O ritmo cardíaco se acelera. Os músculos se
tensionam. A pressão arterial sobe. As pupilas se
dilatam. A própria química cerebral altera-se. Muda a
concentração de três substâncias excitatórias do
sistema nervoso a serotonina, a dopamina e a
noradrenalina. O pensamento fica mais ágil. Os reflexos,
mais aguçados. A atenção e a concentração aumentam.
Sob stress, as ações são mais rápidas e assertivas.
Essas reações se processam nas camadas mais primitivas
do cérebro. São portanto instintivas, animais.
"O stress é o
estado de ativação do organismo diante de uma
exigência física ou psicológica", explica o
psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de
Ansiedade da Universidade de São Paulo, USP. "É
uma conseqüência inevitável da vida", escreve o
médico Paul Rosch, presidente do The American Institute
of Stress. "Não ter stress é estar morto." O
problema surge quando o stress é permanente, crônico,
intenso. Os efeitos variam de uma pessoa para outra.
Algumas são mais tolerantes às tensões físicas ou
psicológicas. Outras se rendem por bem menos. "O
limite é imposto pela vulnerabilidade biológica de cada
um", diz a psiquiatra Vera Tess, da USP.
Ultrapassada a fronteira biológica, o corpo foge ao
controle. Isso ocorre quando a pressão é tão
prolongada e insuportável que não dá chance ao
organismo de recuperar a tranqüilidade. "Um dia,
uma situação de tensão pode ter o efeito de uma gota
de água num copo já cheio: basta essa única gota para
transbordar", compara o psiquiatra Tito Paes de
Barros Neto, também da USP. "Enquanto não chegam a
seu limite de tolerância, as pessoas, em geral, acham
que sempre podem suportar um pouco mais", afirma o
neuropsiquiatra paulista Rubens Pitliuk.
Proibido de
esquiar Ronaldinho tinha motivos de sobra
para estar estressado. Um menino que abandonou a escola
na 7ª série para correr atrás da bola, o jogador teve
a vida virada pelo avesso nos últimos quatro anos. Tinha
17 anos, estava em período de crescimento e ainda
esquentava o banco de reservas da seleção brasileira na
Copa de 94 quando lhe caíram no colo os 15% da venda de
seu passe para o PSV da Holanda mais precisamente
900.000 dólares. Para juntar esse dinheiro no Cruzeiro
de Belo Horizonte, seu clube na época, teria de jogar 25
anos seguidos. Esse primeiro milhão foi só alegria.
Dois anos mais tarde, antes ainda de atingir a maioridade
completa, o craque já colecionava outros milhões, dois
deles só em salários no Barcelona, da Espanha. Hoje,
jogando na Internazionale de Milão, na Itália, é o
atleta mais bem pago do futebol mundial. Ganha 10
milhões de dólares por ano, em salários e cachês de
publicidade. Tem o patrocínio de quatro grandes
empresas: Nike, Parmalat, Brahma e Pirelli. Junto com os
rendimentos milionários vieram as proibições
contratuais para proteger suas pernas, hoje seguradas em
58 milhões de dólares. Quando estava no Barcelona não
podia andar de moto nem esquiar. Agora, é obrigado a
raspar a cabeça a cada quinze dias para manter a mesma
silhueta com que aparece nos anúncios de produtos. Mora
sozinho em Milão e não tem tempo para nada.
Na Copa da França,
as pressões foram muito além do que seria aceitável
para um rapaz na idade dele. "Seu celular não
parava de tocar", conta Fábio Koff, o chefe da
delegação brasileira. Cada treino da seleção
brasileira reunia cerca de 500 jornalistas do mundo
inteiro. Metade estava lá para fotografar, filmar e
tentar entrevistar Ronaldinho. "Quando eu estava de
folga, teve até fotógrafo subindo no telhado da casa do
vizinho para me espionar", queixou-se o jogador.
Cada movimento seu era registrado e discutido. Um dia,
apareceu para treinar sem aliança. Logo espalhou-se a
versão de que tinha brigado com a noiva, Susana Werner.
Também disseram que tinha engordado muito, que tinha
problemas nos joelhos, que não conseguia jogar direito
porque estava preocupado com suas aplicações
financeiras durante a Copa. "O Ronaldinho é um
garoto só e isolado que precisa de carinho", diz o
técnico Zagallo. "Imagina o que é chegar em casa,
um apartamento bem montado, e não ter com quem
falar", diz o médico Lídio Toledo. "Ele não
vive, não pode ir à praia, ao cinema, ao teatro. Abre a
porta e tem cinqüenta pessoas esperando. Ele precisa
urgentemente de um pára-raios."
Reação em cadeia
O stress crônico, como no caso de Ronaldinho, altera o funcionamento de
uma das mais primitivas e profundas estruturas do cérebro, o sistema límbico,
responsável pelo controle de quase todas as funções do corpo humano. A
partir daí, deflagra-se uma reação em cadeia por todo o organismo. São
hormônios e substâncias químicas circulando pelo sangue sem nenhum controle,
em quantidades anormais. O estômago produz suco gástrico em excesso. Às
vezes, aparecem as úlceras e gastrites. A pele, sem irrigação sanguínea
em sua porção mais superficial, torna-se suscetível a eczemas e outras
doenças dermatológicas. As artérias permanentemente contraídas podem acarretar
uma hipertensão ou estourar num derrame. O coração estimulado a trabalhar
mais corre o risco de enfartar. A tensão chega ao maxilar e durante a
noite os dentes rangem há casos graves de stress em que o paciente
acaba perdendo todos os dentes. Entre os homens, um risco a mais: a impotência
sexual. Em meio a tantos distúrbios, há ainda os transtornos psiquiátricos.
Surgem a partir da junção de fatores externos, como o stress, com a genética
(veja quadro).
As pessoas
geralmente associam o stress a situações
desagradáveis. Talvez porque só se fale nele para
reclamar do excesso de trabalho, do trânsito infernal ou
da discussão com o namorado ou namorada. Está errado.
Stress, segundo os médicos, é toda e qualquer mudança
na rotina de vida. Sejam elas boas ou ruins. O nascimento
de um filho, uma promoção, a morte de um parente
próximo ou uma demissão tudo isso expõe o ser
humano a tensão. Além disso, nenhuma situação é
estressante por si só. Depende muito de como cada pessoa
encara o fator em jogo. Para uns, andar de montanha-russa
é um divertimento. Para outros, uma tortura. Também é
errada a idéia de que algumas profissões são mais
estressantes do que outras. "Obviamente, um piloto
de Fórmula 1 está submetido a uma forte carga de
tensão", diz Wagner Gattaz, chefe do departamento
de psiquiatria da USP. Mas ele estaria muito pior se
quisesse ser piloto e estivesse condenado a trabalhar em
uma repartição pública para o resto da vida.
O problema,
portanto, não é o tamanho do desafio que se tem pela
frente, mas os recursos físicos e psicológicos de que
se dispõe para enfrentá-los. Esse foi o grande problema
de Ronaldinho. Ninguém discute que ele é um jogador
extraordinário, dos melhores que o Brasil produziu até
hoje. Faltou-lhe porém estrutura para enfrentar o dia
mais importante de sua vida. O sucesso aconteceu-lhe
muito rápido, e o Brasil ainda não está acostumado a
lidar com fenômenos assim. Nos Estados Unidos,
celebridades do esporte como Michael Jordan, do basquete,
Tiger Woods, do golfe, e Pete Sampras, do tênis, têm um
exército de assessores que cuidam de seus interesses.
Eles organizam tudo. Cuidam dos negócios do atleta, de
sua casa, de sua segurança, de seus compromissos e até
dizem onde ele deve ir ou não. Com Ronaldinho é
diferente. A equipe de apoio ao jogador é bastante
modesta. Seus negócios são controlados por dois
empresários do Rio de Janeiro que, apesar da dedicação
quase integral ao seu pupilo, nunca tinham lidado com um
atleta de primeiro time até descobrirem o craque. Além
da dupla de agentes, Ronaldo tem a sua disposição um
empregado particular, o baiano Antonio César de Souza,
uma espécie de faz-tudo que o atacante adotou desde a
época em que morou na Holanda.
Eleito melhor
jogador do mundo em duas temporadas consecutivas, Ronaldo
estava destinado a ser coroado rei do mundo na França.
Sua consagração definitiva deveria se dar na Copa 98,
em que aterrissou como a maior estrela entre os 704
jogadores que participaram da competição. Só
precisaria fazer gols, muitos gols, os mais belos gols.
Mas o roteiro estava errado. Aos 22 anos incompletos,
perante um público de quase 2 bilhões de
telespectadores ao redor do mundo, Ronaldinho
descarrilou.
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