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Vida após a morte
Americana
é fecundada com sêmen
retirado de seu marido morto

Fecundação in
vitro, inseminação artificial, barrigas de aluguel. Há
vinte anos, a medicina dispõe de diferentes técnicas
para ajudar os casais que encontram dificuldade em ter
filhos por causa de algum tipo de problema orgânico. Só
no Brasil são feitas a cada ano 3.500 tentativas de
conseguir um bebê de proveta. Na semana passada,
soube-se que a fertilização artificial transpôs a
barreira da morte, com a notícia de que uma americana
está gerando um filho concebido depois que o coração
do pai já havia parado. A identidade dos envolvidos não
foi revelada pela revista New Scientist, que
divulgou a informação. A mulher está no primeiro mês
de gestação. Logo depois da morte súbita de seu
marido, ela recorreu ao urologista Cappy Rothman, de Los
Angeles, para que uma amostra do sêmen fosse extraída
rapidamente. A operação, relativamente descomplicada,
teve de ser realizada nos minutos seguintes ao óbito. O
médico removeu e espremeu os epidídimos (cápsulas nos
testículos que armazenam os espermatozóides maduros) do
doador. Em seguida, ele seguiu os passos rotineiros da
fecundação in vitro. O esperma retirado foi submetido a
congelamento, para preservação, e depois injetado em
óvulos fora do útero da mulher. Um dos óvulos,
fertilizado, voltou a seu lugar de origem, e uma vida
começou a ser gerada da mesma forma que acontece desde o
início dos tempos.
O caso relatado
pela New Scientist é o primeiro conhecido de uma
gravidez resultante de fecundação por esperma colhido
após a morte, mas a estocagem de sêmen retirado de
cadáveres não é novidade. Dois americanos
especializados em ética da ciência fizeram, em 1996, um
levantamento em 273 clínicas de fertilidade nos Estados
Unidos e no Canadá. Catorze delas já haviam guardado
esperma extraído depois da morte. Quase todos os pedidos
de coleta tinham sido feitos por parentes ou parceiras
dos doadores involuntários. Mas, em dois casos pelo
menos, a solicitação partiu de pessoas que se diziam
representantes de terceiros. Mais grave: um dos
pesquisadores detectou duas ocorrências de roubo de
sêmen. Abre-se, assim, a possibilidade de que aconteçam
manipulações criminosas do material reprodutivo de
mortos, tais como experiências genéticas espúrias.
A experiência
levada a cabo em Los Angeles abre um novo capítulo na
ciência da reprodução e realimenta a discussão sobre
a ética que deve orientar seus procedimentos. Seu autor,
é claro, a defende fervorosamente, apelando para um
aspecto estritamente emocional. "Essa possibilidade
traz esperança às pessoas e diminui a dor da perda
repentina de um ente querido", disse Cappy Rothman.
Mas outros cientistas alertam para o problema da falta de
consentimento do pai morto. A retirada de material
reprodutivo dos corpos de pessoas falecidas ou em estado
de inconsciência envolve, evidentemente, sérias
implicações do ponto de vista jurídico. Por isso,
agora se propõe nos Estados Unidos uma medida já em
vigor na Inglaterra, que exige a autorização por
escrito do doador de sêmen para uma eventual
fertilização em laboratório. "A experiência
mostra que muitas vezes o motivo real das pessoas que
recorrem a esse tipo de procedimento é assegurar o
patrimônio futuro da criança", diz o médico
paulista Paulo Eduardo Olmos, especialista em
reprodução humana. Trocando em miúdos, a criança
corre o risco de ser usada como instrumento para
reivindicação de herança.

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