|
|
![]() |
Adriana
(de blusa listada), 33 anos, no almoço em família: "Hotel cinco estrelas" |
| Foto: Ana Araujo |
As acomodações são confortáveis. O serviço, de primeiríssima. A liberdade, total ou quase, porque, afinal de contas, mãe é mãe. Por esses e outros motivos, jovens não tão jovens, na faixa acima dos 25 anos, estão cada vez mais trocando o sonho de escapar o quanto antes das garras da família pela plácida comodidade da casa dos pais. "Sair para quê, se tenho de graça um hotel cinco estrelas?", brinca a administradora de empresas Adriana Urnau, que tem 33 anos, um bom emprego e mora com os pais, em Brasília. Adriana é legítima representante de um contingente em expansão que os sociólogos batizaram de "geração-canguru", mas que em geral costuma ser enquadrado, com alguma inveja de quem o faz, na felliniana categoria dos boas-vidas.
Trata-se de um fenômeno mundial, especialmente forte na Europa. Na Espanha, por exemplo, eles formam 60% da turma entre 25 e 30 anos. A falta de um bom emprego é, disparado, o motivo mais citado em todas as latitudes. Mas casa, comida, roupa lavada, horário livre e território independente atraem mesmo quem conta com um trabalho bem remunerado. "Que justificativa eu tenho para largar essa comodidade? Dificilmente vou conseguir comprar uma casa tão boa como a de meus pais", diz o administrador de empresas paulista Alexandre Jannoni. Aos 27 anos, Jannoni está mais do que satisfeito em deixar aos cuidados da mãe, Igacy, os ternos sempre bem passados de seu guarda-roupa de executivo. Ela, por sua vez, faz a tarefa com gosto. "Vale tudo para ter a companhia do meu filho", declara, em um rasgo de supermãe.
| Jannoni,
27 anos: conforto e a mamãe, Igacy, para supervisionar o seu guarda-roupa de executivo |
![]() |
| Foto: Antonio Milena |
Outra que se realiza na paparicação tardia é Irinea Marques, mãe da goiana Glaucia, bibliotecária de 33 anos que desfruta inclusive o privilégio, ainda raro na geração-canguru brasileira, de poder dormir com o namorado em casa. "Até os sobrinhos respeitam meu espaço, porque sabem que a casa não é só da vovó, é da titia também", conta Glaucia. Nem tudo, claro, é uma maravilha. Pai e mãe, como sabe qualquer um, acham que filho é sempre criança e que eles, adultos, sabem melhor das coisas. "Mantenho uma política de boa vizinhança", explica a administradora Adriana. "Às vezes, preferiria estar lendo um livro no meu quarto do que jantando com toda a família, mas não é isso que vai me fazer sair de casa." Ela, aliás, não é a única. Também vivem com os pais o irmão, Júlio, de 29 anos, e a irmã, Viviane, de 27. Há situações em que, além de sustentar casa e comida do filhão, papai também providencia o salário no fim do mês. Rogério Ferreira, 26 anos, mora e trabalha com a família. "Às vezes, à vontade em casa, de bermuda e chinelo, discutimos melhor os assuntos da empresa", garante. Com uma boquinha dessas, Rogério aceita certos contratempos. "Não me incomoda, por exemplo, não poder levar minha namorada para casa", diz. Para isso, achou uma saída típica destes tempos modernos: namora moças que moram sozinhas.
Aida Veiga
Copyright © 1998, Abril
S.A. |