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Fotos: Nélio
Rodrigues![]() |
![]() Festa ao estilo gaúcho e Gobbi no trator: um quinto da população produz 90% da safra |
O município de Chapada Gaúcha, localizado 740 quilômetros ao norte de Belo Horizonte, é uma ilha do Rio Grande do Sul desgarrada de seu território original. Fica em pleno cerrado mineiro, mas parte de seus habitantes fala com o sotaque carregado dos descendentes de italianos e alemães do sul do país. Suas festas são regadas a rodas de chimarrão, danças ao som do fole dos gaiteiros e churrascos de fogo-de-chão. A prosperidade do município também destoa da paisagem. Embora esteja situado numa das regiões mais pobres de Minas Gerais, dentro do chamado Polígono da Seca, suas terras são um celeiro de produção de alimentos. Tudo isso é resultado da presença de 300 famílias de migrantes gaúchos que, nos últimos vinte anos, desembarcaram lá, atraídos por um projeto de colonização em terras devolutas do governo.
As primeiras famílias chegaram ao local em 1978, quando tudo ali era mata virgem de cerrado. A terra era tão barata que, na época, com o preço de 50 hectares no Rio Grande do Sul compravam-se 1.000 hectares na chapada mineira. "Nosso trabalho mais difícil foi amansar a terra, que não era de boa qualidade", conta Altemir Alves de Souza, cuja família foi uma das pioneiras no projeto de colonização. "Alguns técnicos do governo chegaram a dizer que, para produzir alguma coisa aqui, só se chovesse adubo", lembra. Os gaúchos insistiram, organizaram-se numa cooperativa e transformaram o local. No ano passado, foram cultivados 18.000 hectares de soja, milho, cana-de-açúcar, mandioca, feijão e arroz. Mesmo sem irrigação, a produção foi de 50.000 toneladas e gerou uma renda de 8 milhões de reais. Os gaúchos representam apenas 20% da população do município, mas foram responsáveis por cerca de 90% de toda a safra. Evandro Gobbi, 23 anos, produz 1.000 toneladas anuais de soja e milho. Seu pai, morto há dois anos, foi um dos primeiros a chegar. "Viemos só com a roupa do corpo e quase passamos fome", diz Evandro. "Hoje, vejo que meu pai estava certo em acreditar naquele sonho."
Pão e ração Os
Gobbi e os demais agricultores da cidade fazem parte de
uma onda migratória que levou mais de 1 milhão de
gaúchos a deixar a terra natal para tentar a vida fora
nas décadas de 70 e 80. A cidade mineira é a segunda
parada do agricultor gaúcho Nerciso Rohte, de 33 anos.
Há seis anos, ele pegou as economias da família, que
morava em Mato Grosso do Sul, e comprou uma gleba de 50
hectares na Chapada. "Vi que no Centro-Oeste só os
grandes produtores tinham vez", justifica. Hoje, a
área de sua propriedade está triplicada. Rohte é um
dos 365 pequenos produtores que trabalham integrados em
associações e compõem a Cooperativa Agropecuária
Mista de Chapada Gaúcha, Cooami.
A organização dos gaúchos seduziu o Banco do Nordeste. Nos últimos dois anos, a instituição liberou cerca de 10 milhões de reais para financiamento de um distrito agroindustrial na região. Galpões foram equipados para funcionar como panificadora, alambique, abatedouro de suínos, beneficiadora de arroz, fábricas de laticínios, ração, confecções e açúcar mascavo. A contribuição dos gaúchos para o desenvolvimento da região foi reconhecida há dois anos, quando a então vila se emancipou de São Francisco. Agora, a tarefa dos imigrantes é construir a sede do novo município. "É um desafio tão grande quanto aquele de vinte anos atrás", diz o gaúcho Narciso Baron, o primeiro prefeito, eleito em 1996. Nos últimos dois anos, o total de residências na zona urbana saltou de 300 para mais de 800.
José Edward, de Chapada Gaúcha
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S.A. |