Quero meus sais!

Frufrus e alta tecnologia ajudam a transformar
banheiros em recintos de altíssimo luxo

Dagmar Serpa

Foto: Dercilio
Dois exemplos de requinte nas "salas de banho":
ao lado, mosaico, flores e jogo de espelhos. Acima,
visual mais clean, com frigobar
(no detalhe abaixo)


Foto: Luis Roberto Pereira

Está tudo lá: pia, vaso sanitário, chuveiro. Mesmo assim, a decoração pouco lembra o ambiente frio e asséptico de um banheiro comum. Em parte por causa da onipresente falta de tempo para relaxar, em parte pela busca incessante de novos espaços onde desaguar a fúria decorativa que assola os domicílios modernos, nas casas chiques o bom e velho banheiro, rebatizado de sala de banho, está virando um cômodo renovado por requintes de luxo, tecnologia e toda a sorte de comodidades. Lá, pedras de mármore e mosaicos de fazer inveja a Roma antiga, espelhos com sistema antiembaçante, toalheiros térmicos, piso sempre aquecido, tampos de vaso sanitário que só faltam falar e torneiras banhadas a ouro se aliam ao aparato completo de uma sala íntima: sistema de som e TV, poltrona, tapete, telefone e, para quem não dispensa um champanhe geladinho, o prático e bem disfarçado frigobar. Sem falar nas flores, plantas e outros adereços. O preço varia de alto a altíssimo: em um espaço de, em média, 15 metros quadrados (três vezes um banheiro "normal"), investe-se entre 12.000 e 50.000 reais.

"Capricha-se hoje no banheiro tanto quanto no resto da casa, às vezes até mais", diz a decoradora paulista Maria Ruth Brauen, que trabalha exclusivamente em projetos para banheiros. "A tendência é o visual ultramoderno ou o extraluxo." Essa extravagância se justifica pelo fato de que o banheiro, por excelência o lugar mais íntimo da casa, passou a ser visto como recinto ideal para relaxar depois de um dia estressante, no qual as pessoas cuidam do corpo e da mente. Uma espécie de spa doméstico, onde ninguém entra e sai esbaforido. Ao contrário: "As pessoas estão ficando mais tempo no banheiro, curtindo o espaço sem a mínima pressa", avalia a decoradora Bya Barros, que atualmente quebra a cabeça em um curioso projeto de criação de encosto e braços para vaso sanitário. Como a permanência é maior, na sala de banho as exigências de conforto se multiplicam. "Muitos pedem para colocar TV, som, poltrona e tudo que for possível", observa a decoradora Brunete Fraccaroli.

O banheiro da consultora de recursos humanos Lucia Wolff, 41 anos, é um desses paraísos de mármore. Na prática, preservada a intimidade de alguns usos mais prosaicos, o espaço funciona como ponto de encontro da família. Aboletada na confortável cadeira estofada que enfeita seu banheiro (um dos quatro da casa), Lucia costuma conversar com o marido enquanto ele faz a barba. Às vezes, também instala sentadinha a filha de 4 anos. Lucia calcula que passa no mínimo quarenta minutos diários em seu recanto, onde não faltam mordomias. Duas pias, espelho com lente de aumento, aparelho de som com rádio e toca-CD, televisão, porta-revistas ("sempre reabastecido"), massageador elétrico e a tal cadeira, essencial para o diálogo familiar, reforçam a decoração. "Para quem trabalha, a permanência no banheiro é muitas vezes o único momento livre", justifica Lucia. "É preciso desfrutar, estar lá com prazer", completa.

A empresária paulista Franziska Hübener, 32 anos, também bate papo nos domínios do chuveiro. Só que por telefone, uma das peças mais indispensáveis quando encomendou a decoração de seu banheiro. "Assim, posso conversar e resolver coisas enquanto seco o cabelo ou faço a maquiagem", diz. "Sem isso, talvez atrasasse trinta minutos todo dia." Além do providencial telefone, a empresária encomendou outros luxos: banheira suspensa por degraus, janelão "para entrar a luz do sol", plantas e espelhos em profusão. Acaba de comprar em Nova York caixas de som sem fio, capazes de levar a música da sala para o banho. De olho nesse consumidor fascinado por banheiros de marajá, fábricas nacionais e estrangeiras não param de inventar mimos úteis e fúteis (veja quadro abaixo). Com tanto aconchego, conforto e boniteza, o único risco é tornar o banheiro aprazível demais — e esquecer de usar o resto da casa.

Ah, que delícia de higiene...

Cabine de banho
do futuro: sauna,
som estéreo e
TV
(no detalhe)

Ninguém com conta bancária reforçada precisa invejar Sasha, a tão aguardada filha da apresentadora Xuxa, que vai ter até piscininha no seu equipadíssimo banheiro. Está chegando ao alcance dos consumidores mais vorazes uma série de acessórios que podem fazer do banheiro a atração principal na obrigatória via-sacra das visitas a uma casa recém-construída ou reformada. Certeza de pôr os amigos para babar de inveja é o vaso sanitário com controle remoto. Aperta-se um botão e o assento se aquece. Outro lança desodorante e aciona, primeiro, um jato d'água interno e, depois, ar quente para secagem. O mimo é japonês, faz sucesso nos Estados Unidos e está chegando ao Brasil pelas mãos dos decoradores, ao preço de cerca de 500 dólares.

Tecnologia japonesa:
vaso com controle remoto


Foto: Alan Brugier
Chuveiro inglês:
diâmetro maior

Quer mais? Que tal uma massagem nas costas, na hora que bem entender, em uma banheira (7.600 reais) com jatos dirigidos exatamente aos pontos do corpo estimulados no shiatsu, a mais tradicional das técnicas orientais de massagem? O modelo traz 32 microjatos e a promessa de massagear "todos os pontos" da espinha dorsal com "a mesma pressão graduada dos dedos de um massagista". Os loucos por tecnologia podem dar um passo à frente e entrar de cabeça na cabine de banho computadorizada (ainda sem preço definido) que a Jacuzzi planeja instalar em banheiros pós-modernos a partir de agosto. O espaço é pequeno, mas hiperequipado: reúne hidromassagem, sauna, som estéreo com rádio e toca-CD e televisão colorida. Quem só exige música no chuveiro pode se dar de presente o rádio automático resistente a vapor, que dispõe de um sensor que o liga toda vez que alguém entra no banheiro. Custa 50 reais, quantia insignificante se comparada a um legítimo chuveirão inglês, com 30 centímetros de diâmetro, ducha de mão e termostato, que não sai por menos de 7.600 reais em São Paulo.

Rádio que liga
sozinho e massagem
oriental na banheira
incrementada: está
difícil sair do banheiro
  Foto: Luis Roberto Pereira




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