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| Fotos: Janduari Simões | |
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| Pedro dos Santos, hoje e
na época do incêndio: "Pensei em abandonar tudo" |
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No final de março, o agricultor Pedro Barbosa dos Santos foi fotografado com a mulher, Maria de Jesus, junto de sua casa de madeira e seu Corcel II branco, no sítio do casal, no município de Mucajaí, Roraima. Ao redor, o céu era uma fumaça só, branco-amarelada, sobre as árvores ressequidas e o chão cinzento. Santos foi um dos muitos personagens de uma das piores tragédias ecológicas da Amazônia, o incêndio que durou meses, destruiu 15% do Estado de Roraima e foi notícia no mundo todo. "Quando vi o fogo comendo toda a minha plantação e o pasto do gado, pensei em abandonar a casa e ir embora para bem longe", lembra o agricultor de 55 anos. Na semana retrasada, quatro meses depois de ter a terra ilhada pelas cinzas, suas esperanças estavam de volta. Santos já plantou acerola, goiaba, limão, manga e mandioca e aguarda, otimista, a colheita. O verde cerca a propriedade e torna inacreditável a idéia de que há tão pouco tempo tudo não passava de sobras de uma fogueira descomunal. "Eu vivia chorando, desolado", diz. "Hoje, graças a Deus, a plantação está linda e o gado, robusto."
O cenário na região de Mucajaí, uma das mais afetadas pelo incêndio, transformou-se tão rapidamente por obra das chuvas, abundantes em Roraima desde abril. Das labaredas que engoliram cerrado, lavoura e floresta, resta a triste lembrança nas histórias contadas pelos moradores e os esqueletos de algumas árvores e animais espalhados pelo campo. As margens da BR-174, que liga Manaus a Caracas, na Venezuela, refletem perfeitamente essa mudança. A paisagem é verde e os animais, que na época da queimada haviam desaparecido, estão de volta. No mesmo local em que colunas fumegantes lambiam a vegetação e deixavam um rastro de terror, agora observam-se tamanduás, cervos e outros bichos. Em muitos trechos, a chuva formou grandes lagos, onde hoje nadam marrecos, patos e garças.
Aumento da safra De abril ao final de junho, choveu em Roraima mais do que em todo o ano passado. Foram 1.119 milímetros em apenas três meses, contra 1.083 milímetros em 1997. Nem os especialistas esperavam tanto. Os cálculos dos meteorologistas indicavam que as chuvas de junho chegariam a 350 milímetros. Curiosamente, a explicação para tanta água tem parentesco com a usada para a tragédia do início do ano. O incêndio teria sido provocado pelo El Niño, aquela corrente de água quente do Oceano Pacífico que alterou o clima em todo o planeta e produziu secas no norte do Brasil. O aguaceiro atual seria fruto de outro evento climático, já batizado pelos meteorologistas de La Niña. "É um outro fenômeno natural, espécie de irmã do El Niño, em que as águas do mar, que estavam muito aquecidas, se esfriam rapidamente e produzem efeitos exatamente opostos", explica o chefe do Serviço de Meteorologia de Roraima, João Manoel Coimbra. "O resultado são chuvas contínuas e em grandes volumes", conclui.
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A
pastagem depois das chuvas: garças e lagos |
A chuvarada ressuscitou o Rio Branco, que corta o Estado de Roraima no sentido nortesul. As temperaturas recordes provocadas pelo El Niño e a estiagem de mais de três meses tinham reduzido o rio a algumas poças d'água em meio a um gigantesco banco de areia. Em vários trechos, podia ser atravessado a pé. Desde o final de maio, o Rio Branco voltou a sua profundidade normal, de 8 metros. Na região onde mora o agricultor Pedro Barbosa dos Santos, os riachos e igarapés, antes totalmente secos, agora têm água em abundância. A 15 quilômetros da casa de Santos, outro agricultor, Antônio Gonçalves de Souza, de 56 anos, recebeu duas sacas de sementes do governo de Roraima, que diz ter distribuído 380 toneladas de milho e arroz após a queimada, e já colhe bons resultados. Além das sementes doadas, ele plantou mandioca, feijão e abóbora. A plantação está se desenvolvendo rápido. "Parece mentira", surpreende-se Antônio. "A gente olha para a lavoura toda verdinha e custa a acreditar que o fogo passou por aqui."
Como muitos de seus vizinhos, Antônio de Souza já estava se preparando para vender a terra a preço de banana quando as chuvas chegaram. "Eu fui criado no mato e é aqui que sei viver, mas já tinha perdido as esperanças", diz. Acompanhado pelos filhos, ele fez da primeira colheita uma grande festa. "Há poucos meses, não tínhamos nada e agora podemos tirar nosso sustento da terra, como sempre fizemos." Ele vende parte da produção, e o restante divide com a vizinhança. Atualmente, a maior preocupação de Souza e de todos os agricultores de Roraima é o preparo do solo para a próxima safra. Sem equipamentos ou técnicas modernas, eles terão de queimar a terra mais uma vez, tão logo a colheita atual seja concluída e a chuva pare. Foi esse tipo de queimada nas lavouras que provocou o incêndio do começo do ano. "É a única forma que temos para preparar a terra", justifica.
| Antônio
de Souza: festa na colheita |
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Enquanto chove torrencialmente em Roraima, técnicos do Ibama e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe, continuam estudando fotos de satélites e gráficos para determinar a área real que foi consumida pelas chamas. O Ibama diz aguardar os dados do Inpe, que só deve concluir os trabalhos em meados de agosto. "Divulgar qualquer informação agora seria puro chute", afirma a coordenadora do Programa de Monitoramento por Satélite do Inpe, Thelma Krug. Baseado em pesquisas de campo e fotos de satélites, o especialista em agroecossistemas tropicais Reinaldo Barbosa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Inpa, chegou à conclusão que foram devastados 31.000 quilômetros quadrados de cerrado, 4.200 de florestas e 1.800 de mata virgem. O total, 37.000 quilômetros quadrados, representa 15% do Estado de Roraima, área maior que a da Bélgica.
Sem preparo À época do incêndio, o país tomou consciência de que não estava preparado para enfrentar catástrofes desse tipo. Além da falta de equipamento e pessoal treinado para detectar e apagar o fogo, o governo demorou demais para admitir que algo grave acontecia. Agora, a Secretaria de Agricultura de Roraima e o Ibama estão realizando cursos de educação ambiental para os lavradores. É um primeiro passo, mas a idéia de equipar os agricultores com outros recursos que lhes permitam abrir mão da queimada como preparo da terra nem sequer foi cogitada. "Só o que podemos fazer é ensinar maneiras de queimar que diminuam os riscos de o fogo sair do controle e provocar grandes danos ambientais", admite o secretário estadual de Agricultura Pedro Estevão.
Empolgado com as chuvas, o governo estadual espera que a safra de 1998 seja uma das maiores dos últimos dez anos. Os principais produtos agrícolas do Estado, o milho e o arroz, devem superar em 77% a colheita do ano passado. Isso significa aumento de mais de 16.000 toneladas de grãos, ou cerca de 3 milhões de reais. A safra poderia ser ainda melhor, não fosse o excesso de chuvas. A mudança drástica de clima no período de poucos meses aumentou o ataque de pragas agrícolas, como as lagartas, que se multiplicaram e destruíram lavouras inteiras. Só de arroz e milho, a praga varreu 552 toneladas. "Infelizmente, essa tal de La Niña pegou todo mundo de surpresa", diz o secretário de Agricultura. "Se soubéssemos que iria chover tanto, teríamos esperado o aguaceiro passar para, só depois, distribuir as sementes." Ainda assim, é infinitamente melhor para os moradores de Roraima sofrer alguns prejuízos com o excesso de água e lagartas do que ver o fogo acabando com tudo.
Depois do fogo, o dilúvio
A mesma chuva que apagou os incêndios do início do ano e trouxe o verde de volta a Roraima está provocando outro tipo de transtorno agora. Em algumas áreas, o aguaceiro constante fez transbordar rios, riachos e igarapés. No mês passado, as águas chegaram a níveis jamais alcançados e invadiram casas e lavouras. Ironicamente, as partes mais atingidas estão nos municípios de Mucajaí e Alto Alegre, justamente os mais prejudicados pelo fogo. Às margens dos rios Mucajaí e Apiaú, que transbordaram e não param de encher, só se avistam os telhados das casas ribeirinhas. Cerca de 350 famílias estão desabrigadas. Apesar dos problemas, o governo de Roraima não providenciou alojamento para os desabrigados em prédios públicos. Em vez disso, apelou para a solidariedade da população. Para ajudar os vizinhos mais prejudicados, algumas famílias estão improvisando acampamentos coletivos em suas próprias casas. Por enquanto, o governo estadual distribuiu 1.600 cestas básicas para os desabrigados de Mucajaí. Em Alto Alegre, a enchente impossibilita a entrega de alimentos. Numa das regiões do município, cerca de vinte famílias estão totalmente isoladas. |
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S.A. |