Terra grisalha

Com natalidade em queda, a Europa está
se tornando um continente de idosos

Fotos: Marcos de Bari  
Aposentados na Espanha: mais pessoas acima de 60 anos
que abaixo de 20

O velho continente está cada vez mais velho. Com expectativa média de vida que atinge 77 anos e índices de natalidade em queda livre, a Europa está se transformando rapidamente numa espécie de clube da terceira idade. Nunca o índice de fertilidade dos europeus foi tão baixo, exceto, talvez, em tempos de guerra, ou durante a peste negra. A maioria dos países europeus tem crescimento populacional próximo a zero ou mesmo negativo. Em praticamente nenhum deles o número de nascimentos por mulher supera o valor mínimo necessário para repor a população que morre. Na Itália, o número de pessoas com mais de 60 anos já ultrapassa o de jovens com menos de 20. Estima-se que até o final do ano o fenômeno se repita na Alemanha, Espanha e Grécia. "O que assegura a estabilidade numérica de uma população é a fertilidade média de dois filhos por mulher", explica Luiz Antônio Pinto de Oliveira, chefe do Departamento de Indicadores Sociais do IBGE. "É como se os filhos repusessem os pais. Com menos que isso, a população começa a diminuir, num prazo de duas ou três gerações." É o que está acontecendo na Europa.

O fenômeno tem bastante a ver com a prosperidade econômica, a urbanização e, sobretudo, com a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho. As mulheres dedicam mais tempo à escola e à carreira e deixam em segundo plano os papéis tradicionais do casamento e da maternidade. Tornou-se comum adiar o nascimento do primeiro filho para depois dos 30, e a decisão de não ter crianças já é socialmente aceitável. Até alguns anos atrás, a queda nas taxas de natalidade era um objetivo universal, tanto nos países ricos como nos pobres. Hoje é um problema que causa alarme e acende luzes vermelhas entre os mais abastados. Como se vai sustentar uma sociedade em que uma minoria de jovens precisa garantir a existência de uma maioria de idosos? A mudança afeta cada aspecto do cuidadoso edifício previdenciário que garante o bem-estar social dos países ricos. O envelhecimento da população mexe, por exemplo, com o sistema público de saúde, já que as doenças da velhice são crônicas e degenerativas, de tratamento mais caro.

Foto: Orlando Brito

Quem paga a conta — A lógica do sistema de aposentadoria reside igualmente na existência de um número de trabalhadores maior que o de pensionistas. Se ocorre o contrário, vai tudo para o buraco, como já está acontecendo em alguns países. No passado, quando a expectativa de vida era curta e o trabalho pesado arruinava rapidamente a saúde dos operários, abriam-se vagas de trabalho com maior rapidez. Os países tinham um custo baixo com os mais velhos, já que boa parte morria ainda em idade produtiva, sem ocasionar despesas extras. Muitos governos europeus estimulam a aposentadoria voluntária como um meio de liberar postos para os desempregados mais jovens.

Nenhum país está preparado para uma população majoritariamente madura. Afinal, isso nunca ocorreu na história da humanidade. Que mundo se pode esperar quando os velhos forem maioria? Os idosos têm menor pendor para mudanças, inovação e criatividade. Como o dinheiro de que dispõem normalmente é contado, também são consumidores austeros. Incentivos nos impostos ou no salário para famílias com filhos tornaram-se uma prática comum em quase todo o continente — mas com resultados pífios. Na Suécia, a taxa de fertilidade caiu tão rapidamente nesta década (de 2,12 nascimentos por mulher em 1990 para 1,6 em 1995) que o governo criou uma série de benefícios para as famílias com filhos. O resultado foi nenhum. O índice sueco desceu para 1,42, o mesmo patamar baixíssimo do Japão. Dentro de três anos, segundo previsões oficiais, o número de estudantes ingressando no 1º ano primário terá caído para quase a metade do contingente atual.

A Itália é uma espécie de campeã invertida no quesito fertilidade: apenas 1,2 filho por mulher. O fenômeno é surpreendente para um país católico em que as famílias costumavam ser grandes e que, até há pouco tempo, devido à pobreza e à superpopulação, exportava emigrantes. É o mesmo índice da Espanha, com as mesmas características católicas e tradição familiar que um dia foram sinônimo de prole numerosa. Com índice de 1,4, Portugal joga no mesmo time. A França, com 1,7, vive em surto com a idéia de que os imigrantes norte-africanos, muito mais prolíficos, vão terminar superando numericamente os franceses da gema. A exceção é a Albânia, o país mais pobre da Europa, com três nascimentos por mulher.

Por que tanta gente simplesmente prefere não ter filhos? Entende-se que haja muitos motivos nos países miseráveis, onde as condições de sobrevivência castigam a população. Difícil é compreender o pouco gosto pela perpetuação da espécie num lugar como a Suécia, em que a lei garante proteção ao novo rebento do berço ao túmulo. O declínio da fertilidade tem razões culturais, mas deriva, em grande parte, da lógica econômica. Antes da Revolução Industrial, os filhos eram o sustentáculo da economia familiar e rural e, quando crescidos, funcionavam como uma espécie de previdência para os pais. Com os atuais patamares de desemprego na Europa, família numerosa se tornou custo e não mais fonte de sustento. "Depois dos anos 60, a emancipação da mulher e a pílula anticoncepcional facilitaram o planejamento familiar e mudaram para sempre os padrões de comportamento populacional", explica o demógrafo Luiz Antônio Pinto de Oliveira.

A queda da natalidade é uma realidade mundial. Em todos os continentes a população tem crescido cada vez menos. Tome-se o caso do Brasil, nação notadamente jovem. Há trinta anos a taxa de fertilidade era de 5,8 filhos por mulher. Hoje estamos com 2,3, menos da metade. Desde 1965, segundo dados da ONU, a fertilidade caiu pela metade no Terceiro Mundo: de seis filhos por mulher para três. Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos são uma exceção, com índice de pequena variação em torno de 2,1, garantido sobretudo pelos novos imigrantes. A boa notícia é que não se confirmaram as previsões alarmistas sobre a devastação do planeta apinhado de gente neste fim de século. No caso da Europa, o envelhecimento da população é tão espantoso que já há quem tema que no continente as crianças possam tornar-se uma nova espécie de minoria.




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