Itália

As mãos sujas

Berlusconi é condenado três vezes seguidas

O primeiro-ministro Romano Prodi é um recordista em permanência no poder. Há mais de dois anos no cargo, ele já durou mais que 52 de seus 54 antecessores desde a II Guerra. Se a política italiana mudou tanto e o país tem hoje prestígio internacional condizente com o peso da sexta maior economia do mundo, isso se deve, em grande parte, à campanha anticorrupção conhecida como Operação Mãos Limpas, que saneou seu sistema político nesta década. Mas tudo tem um limite. Na segunda-feira passada, o homem mais rico do país, Silvio Berlusconi, foi condenado à prisão por suborno. Foi sua segunda condenação em seis dias, a terceira em sete meses (por suborno e fraude fiscal, respectivamente). Ele ainda responde a seis processos (corrupção e sonegação de impostos). Seria mais simples se ele fosse apenas um ricaço encrenqueiro. A coisa se torna mais complicada porque Berlusconi, além de dono de rede de comunicações, foi primeiro-ministro em 1994 e é o líder da oposição no Parlamento.

É natural que, nessas circunstâncias, o réu se declare vítima de perseguições políticas. O que está ocorrendo na Itália, contudo, vai muito além. A situação do magnata, transformado em réu eterno, serve para esquentar a discussão sobre o poder dos magistrados e do próprio sistema judicial italiano. O país está farto dos processos intermináveis, das acusações sem provas e das perseguições implacáveis por pecados menores. Por mais que seja condenado, Berlusconi é protegido pela imunidade parlamentar. De qualquer forma, o eleitorado separa o réu do homem público. Dois meses atrás, seu partido, Força Itália, conquistou uma série de prefeituras importantes.

Há duas semanas, logo depois de uma das condenações de Berlusconi, a Força Itália propôs a criação de uma comissão parlamentar para investigar a Operação Mãos Limpas. A simples sugestão causou furor. É, contudo, o que tem sido feito na prática. Iniciadas em Milão em 1992, as investigações revelaram a existência de uma complexa rede de corrupção, implodiram os partidos tradicionais e colocaram mais de 2.500 empresários atrás das grades. No auge, os juízes investigadores eram vistos como heróis. Hoje, muitos estão no banco dos réus, acusados de abuso de poder. O mais famoso deles, Antonio Di Pietro, foi absolvido num desses processos e se elegeu senador no ano passado, com espetacular votação. A ironia é que a cadeira parlamentar na bancada governista o colocou novamente em confronto com Silvio Berlusconi, seu arquiinimigo durante a Operação Mãos Limpas.




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