Japão

Sayonara, Ryutaro

Em voto de protesto, japoneses forçam
a renúncia do primeiro-ministro

- 5,3%
é a previsão
de queda do
PIB japonês
neste ano

Lá se vai mais um. Depois de dois anos e meio no poder, o então primeiro-ministro japonês, Ryutaro Hashimoto, se tornou, na segunda-feira passada, o mais recente de uma série de políticos engolidos pela crise econômica asiática. No dia anterior, nas eleições que renovaram metade da Câmara Alta da Dieta, o Parlamento japonês, a bancada de seu Partido Liberal Democrático, PLD, tinha encolhido em dezessete senadores. Hashimoto renunciou porque ficou claro que os eleitores estavam fartos das indecisões de seu governo e não perdoavam o primeiro-ministro por ter administrado o período em que uma situação ruim (a estagnação econômica) se transformou numa pior ainda (a recessão). A previsão para este ano é de crescimento negativo em torno de 5% — e Hashimoto pagou com o cargo pelo pecado de não ter feito o que a maioria sabe ser necessário para recolocar as coisas nos eixos, como limpar o sistema bancário e acabar com o relacionamento de compadrio entre a indústria e o governo.

A pendenga nipônica interessa a todos. O mundo se apavorou com os problemas financeiros nos Tigres Asiáticos e agora está percebendo que eles são fichinha diante das marolas geradas pelo Japão. Se a maior economia da região vier abaixo, o maremoto poderá causar sofrimento pesado até mesmo aos grandes centros desenvolvidos. No Brasil, então, nem se fala. Do ponto de vista mais otimista, se o Japão voltar a crescer, o planeta vai respirar aliviado. Os japoneses preferiram trocar Hashimoto porque estão cansados da inércia e da corrupção do PLD, que governou nos últimos 43 anos, com exceção de um breve período, entre 1993 e 1994. A derrota do primeiro-ministro é sobretudo a expressão do desejo dos japoneses de viver seguros na segunda maior economia do mundo, com renda per capita de 39.000 dólares (quase um terço maior que a americana) e PIB de 5 trilhões de dólares (mais de seis vezes o brasileiro). Até sexta-feira passada o PLD não tinha indicado o substituto. De qualquer forma, uma onda de pessimismo cercava a caciqueria nipônica. Segundo uma pesquisa do jornal Asahi, dos cinco nomes que lideram a corrida, a maioria dos japoneses escolhe "nenhuma das alternativas".

Como sempre acontece, vista de fora a crise de um país é sempre fácil de identificar e solucionar. Os analistas internacionais já disseram mais de uma vez que o Brasil poderia ser um país muito mais moderno. Bastaria aprovar as reformas constitucionais, como a tributária, a política e a da Previdência, que ficou pela metade. Só quem está dentro sabe como as estruturas são resistentes às mudanças. É o que acontece no Japão. O país reage com lentidão aos desafios que envolvem mexidas em estruturas tradicionais, por mais evidentes que sejam seus vícios. O iene até se valorizou um pouquinho depois que o país reagiu com tranqüilidade à renúncia, o que deixou os investidores um pouco mais seguros. Ainda assim, o que se tem são más notícias. O cenário desastroso provocou fuga de capitais. Daí a catástrofe recente: declínio nos níveis de consumo, epidemia de falências e aumento do desemprego (4,1%, um recorde histórico). Ao contrário do Brasil, que carrega no rol das dificuldades a falta de poupança interna, os japoneses poupam exageradamente, acentuando os índices recessivos com a falta de consumo. A estabilidade de quatro décadas se baseou na associação entre empresas e bancos, para que não lhes faltasse crédito, com o governo regulando tudo, para evitar a concorrência interna. Hoje as empresas não pagam as dívidas, os bancos estão na bancarrota e a falta de concorrência jogou os preços já altos dos bens de consumo para a estratosfera.

Descalabro bancário — Como se pode sair de um esquema que deu certo durante tanto tempo? Já se conhecia a corrupção provocada pela promiscuidade entre empresas, bancos e governo. Era mais fácil, contudo, tolerar esses pecadilhos enquanto a economia só colecionava vitórias. O grande choque veio no ano passado, quando se tornou impossível camuflar o estado lamentável do sistema bancário japonês. O rombo aberto no sistema financeiro pelos empréstimos podres é estimado em 700 bilhões de dólares, dinheirama quase equivalente ao PIB brasileiro. A receita para enfrentar um colapso que certamente produziria estragos na economia planetária é simples e já foi experimentada em outros lugares: cortar impostos, desregulamentar o sistema financeiro e reformar radicalmente o setor bancário. Que político terá coragem de tomar medidas que fatalmente vão resultar em mais desemprego e podem provocar, horror dos horrores no império do sol nascente, inflação?

O paradoxo é que, de todos os primeiros-ministros japoneses da década, Hashimoto foi o que mais perto chegou de tomar essas providências. Lentamente, ele vinha se cercando de uma equipe de jovens reformistas, ganhando terreno dentro das estruturas do PLD e parecia prestes a arregaçar as mangas. Sua renúncia abre um vácuo de poder que os caciques da política tentam preencher com conchavos de bastidores entre os lendários "fazedores de reis", os líderes de facções que detêm poderes de shogun dentro do partido. A boa notícia nesta crise vem de uma pesquisa realizada pelo jornal Asahi: 52% dos entrevistados disseram acreditar que podem mudar os rumos da política por meio do voto individual. Há três anos, só 35% tinham essa convicção. As próximas eleições gerais serão dentro de dois anos. Então, veremos.

Com jeitinho

No Ocidente, acredita-se que os remédios para a crise na Ásia devam ser ministrados em doses maciças e imediatas. Os países da região têm de se submeter ao receituário habitual do FMI para obter os empréstimos indispensáveis à sobrevivência: manter os juros altos, restringir a circulação da moeda, reduzir a interferência do Estado na economia e sanear o sistema bancário endividado. Mas só na Tailândia e Coréia do Sul a prescrição está sendo seguida à risca. Na Indonésia e Malásia, que têm em comum superpopulação aliada a enormes desigualdades sociais, os governantes adotaram posturas flexíveis em relação às diretrizes do organismo internacional. O comando do FMI torceu o nariz, mas acabou aceitando as modificações como inevitáveis.

Ninguém quer correr o risco de provocar explosões sociais como a que, em maio, derrubou o ditador Suharto, depois de 32 anos à frente do governo da Indonésia. Assim, a Malásia reduziu as reservas obrigatórias dos bancos e os juros. Bacharuddin Jusuf Habibie, sucessor de Suharto, começou a fechar bancos com problemas de caixa, mas parou, porque havia provocado uma corrida que esvaziou contas correntes e poupanças. Preferiu então emitir mais moeda. São novas receitas, que ninguém sabe se vão funcionar.




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