Socorro no último instante

Com uma ajuda de 22 bilhões de dólares do
FMI, a Rússia ganha fôlego para sair da crise

João Sorima Neto

A Rússia deu as costas ao mundo por mais de setenta anos. Tinha um poder bélico temido, produzia seus próprios carros, foguetes e atletas e seus dirigentes cultivavam o orgulho de ter transformado um território feudal na segunda potência do planeta. Na semana passada, esse país estava quebrado e só ficou de pé graças a um socorro internacional. Para pagar suas dívidas, tomar fôlego e arrumar a casa, a Rússia vai receber uma ajuda de 22,6 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional, FMI, do Banco Mundial e do Japão. A notícia foi um alívio para a comunidade financeira internacional. Depois da turbulência asiática, a crise russa era o fantasma que assombrava a vida dos países chamados emergentes, nações que estão consertando suas economias, entre elas o Brasil. Os investidores estão desconfiados dos emergentes. Só da Rússia, 18 bilhões de dólares evaporaram desde outubro passado, quando a crise da Ásia piorou. Com o socorro, a euforia voltou ao pregão de Moscou e as ações valorizaram-se 17% um dia depois do anúncio do acordo, um recorde no ano.

O dinheiro para tirar o país da UTI será liberado em doses homeopáticas até o final de 1999, diz o FMI, e esse remédio tem um gosto amargo. Em troca do empréstimo, o Fundo exige a aprovação de uma série de medidas que mexem diretamente com a vida dos 148 milhões de russos. Para começar, haverá uma avalanche de impostos. Rico vai pagar muito, empresas que tiverem lucro e sonegarem vão ser fechadas e uma taxa sobre o consumo (entre 5% e 10%) será criada. O pacotão de exigências tem mais medidas duras. Um grupo de 200.000 funcionários públicos deve perder o emprego, os subsídios destinados pelo governo à agricultura — que já anda produzindo pouco — diminuirão e benefícios dos tempos do comunismo, como cesta básica, só vão ser dados para quem estiver em miséria comprovada. Na ponta do lápis, o FMI exige que o presidente Boris Ieltsin aperte o cinto e gaste menos. Outros países já tomaram essas medidas drásticas quando estavam com o caixa no vermelho. Mas na Rússia elas são uma novidade e chegam num momento em que a maior parte das pessoas já não está nada contente com a vida que leva.

Fome — Há passeatas pipocando pelos quatro cantos do país. Os trabalhadores em minas não recebem salário há seis meses e fizeram greve. Os militares da reserva saíram às ruas para marchar em razão dos soldos atrasados. Há soldados do Exército Vermelho passando fome e fugindo dos quartéis. Os aposentados complementam a pensão vendendo flores, peixe defumado, cigarros e uísque nas ruas e estações de metrô. O desemprego está na casa dos 9%, e a economia russa não se mexe para abrir novas vagas. No ano passado, cresceu perto de 1%. Para este ano se espera que volte a encolher, como acontece desde o início da década. Muita gente até sente saudade dos tempos do comunismo. No Parlamento, os comunistas e nacionalistas ganharam a maioria das cadeiras nas últimas eleições.

O pesadelo que a Rússia vive hoje é resultado da atrofia econômica produzida por quase oito décadas de burocracia estatal sob o regime comunista. A abertura do país ao resto do mundo a partir de 1991, com a dissolução da União Soviética e o fim do comunismo, serviu para expor o tamanho do buraco. Além disso, os russos não souberam administrar direito sua economia depois das mudanças. Os anos de comunismo trouxeram algumas vantagens que eram mesmo invejadas pelos países ocidentais. Bom nível de educação, moradia e acesso à saúde são as principais. O que não se conhecia era a dimensão dos problemas que se acumularam na barriga russa, e percebe-se hoje que levará muito tempo para consertá-los. Na Rússia, por exemplo, o governo não consegue arrecadar muito dinheiro com impostos e não tem como consertar buracos nas estradas, melhorar os hospitais ou investir em tecnologia. Há mais de 200 taxas que as empresas e as pessoas devem pagar, mas como nada acontece com os sonegadores a sonegação é geral.

Sucateadas Outros problemas parecem mais graves. As empresas estatais russas, que sob regime comunista nunca tiveram de enfrentar a concorrência estrangeira, tomaram um choque quando foram expostas à competição. Descobriu-se que eram improdutivas, fabricavam carros e roupas ruins e não havia mercado para seus produtos no exterior. Sem dinheiro para modernizá-las, o governo vendeu em massa. Entre 1991 e 1994 mais de 120.000 empresas foram privatizadas, mas o programa não deu certo. Como elas já estavam sucateadas, os investidores estrangeiros não se interessaram muito. As estatais acabaram sendo vendidas aos próprios russos, que também não têm dinheiro nem interesse para modernizá-las. No campo das exportações, a Rússia de hoje continua como no passado: vende basicamente petróleo e gás natural, bens cujos preços despencaram nos últimos tempos no mercado internacional.

Para manter as contas em dia, investir e fazer o país crescer, a Rússia depende agora do dinheiro estrangeiro. Desde 1917, ano da revolução que levou os comunistas ao poder, a economia soviética era totalmente planejada. Estabelecia-se uma meta e gastava-se o necessário para atingi-la. Nos anos 50, o país cresceu 10% por ano. Na década de 60, o PIB engordou 7% a cada doze meses. Parecia um milagre. O governo também gastava uma fortuna com armas para manter o status de potência nuclear e a inflação não existia nas estatísticas oficiais. "A inflação estava nas ruas, em forma de filas, porque havia escassez de produtos", diz a economista Lenina Pomeranz, especialista em países do leste europeu em transição. O modelo soviético entrou em colapso porque a economia planejada por burocratas não foi capaz de suprir os russos dos produtos de que eles precisavam. O dinheiro para a produção de manteiga era transferido arbitrariamente para a fabricação de mísseis, ou de arame farpado para prender os dissidentes. A insatisfação cresceu, produziu uma pressão interna para modificações políticas e todo o sistema ruiu em 1991, quando Ieltsin assumiu.

Ajudar esse país a sair do caos é uma tarefa difícil e custa caro, mas o FMI e os outros países têm motivos para evitar uma crise maior ou uma moratória do governo russo. Se isso acontecesse, os efeitos seriam imprevisíveis. A conseqüência mais provável seria uma nova turbulência mundial como a que ocorreu na Ásia. Há problemas políticos dentro da própria Rússia que poderiam agravar-se, como a queda de Ieltsin e a eleição de algum aventureiro extremista para seu lugar. A Rússia ainda tem pencas e pencas de armas nucleares. Mas há razões para otimismo. No posto-chave do governo russo está um político brilhante, o primeiro-ministro Serguei Kirienko, e, apesar das máfias, da queda do PIB e do aumento do desemprego, existem números bons, como a queda da inflação, que baixou de 2.500% em 1992 para 14% no ano passado. A Rússia está entrando a duras penas no sistema capitalista e não sabe bem como as coisas funcionam. Mas não há empecilho mais grave para que esse povo com ótimo nível de escolaridade aprenda bem rápido.

 

 



 

Rússia enterra o último czar

A família real foi acordada pelos bolcheviques às 2 da manhã, levada para o porão e fuzilada. O czar morreu na hora. As princesas adolescentes (Anastácia, Olga, Tatiana e Maria) resistiram algum tempo, e foi preciso matá-las a golpes de baioneta, pois as balas ricocheteavam estranhamente no peito delas. Só quando despiram os corpos descobriram que estavam protegidas por 8 quilos de diamantes escondidos nos corpetes. Entre os mortos estavam também o príncipe herdeiro, Alexi, um menino frágil de 13 anos, o médico e os criados da família. Os cadáveres foram jogados numa vala comum, queimados e desfigurados a coronhadas. No que restou, o pelotão de fuzilamento lançou ácido sulfúrico e jogou terra por cima.

Na sexta-feira passada, exatos oitenta anos depois do crime, as ossadas de Nicolau II, o último czar da Rússia, da czarina Alexandra, de três de suas filhas e de quatro empregados foram sepultadas num mausoléu em São Petersburgo, a antiga capital imperial, com direito a guarda de honra e discurso do presidente Boris Ieltsin. Planejado para encerrar um capítulo sangrento da História do país, o enterro se transformou numa grande controvérsia, longe da sonhada reconciliação dos russos com sua História. Por duvidar da autenticidade dos despojos, o patriarca Alexei, da Igreja Ortodoxa, preferiu oficiar uma cerimônia particular, com a presença de parte dos descendentes da família real. Ieltsin só confirmou presença na última hora. Os comunistas protestaram, evidentemente, contra o sepultamento oficial, sob o argumento de que Nicolau II foi um autocrata.

Escavadas nos arredores de Ekaterinburgo, onde ocorreu o fuzilamento, depois do fim da União Soviética, as ossadas se tornaram objeto de disputa entre especialistas, até que o exame de DNA garantiu com 99,9% de segurança que são mesmo os restos do czar e de sua família. Para a pequena chusma de monarquistas, o enterro exorciza o fantasma do comunismo e promove a devida reconciliação entre a Rússia e a dinastia Romanov, que governou o país por 800 anos. Para a maior parte dos russos, entretanto, o enterro chamou pouca atenção.




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