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| Pepe Casals |
Com suas pernas curtas a mentira é capaz de dribles desconcertantes. Iludiu centenas de jornalistas, que cobriam as peladas entre o time laranja e o time amarelo, que escoltavam de helicóptero o passeio da seleção até os estádios, que perderam a respiração nas montanhas-russas na cola de jogadores. A infantaria da imprensa sabia de tudo, mas passou-lhe entre as pernas a crise de Ronaldinho. Quando desembarcou aqui, a mentira passou a fazer aparições monstruosas. Na boca do médico Lídio Toledo, dizia a cada dia uma coisa. Na dos jogadores, multiplicava suspeitas. "Algum dia vocês vão saber toda a verdade", insinua Bebeto. Daí para insuflar teorias conspiratórias foi um pulo. Circula na Internet a mais espantosa e infamante delas. Os jogadores ganharam um bom dinheiro para perder da França, e, em troca, a Copa de 2002 seria no Brasil. "Mentira é carne verde do demônio, abundante e de graça", disse numa crônica Machado de Assis.
No país em que a censura já proibiu a publicação de notícias sobre fila para compra de carne e epidemia de meningite, a liberdade ainda é recente. Talvez por isso tantas vezes a versão se impôs ao fato. Em geral no prólogo de um boato há um complô para esconder a verdade. Com metade do corpo inerte, por causa de um derrame, dizia-se que o marechal Costa e Silva tinha apenas uma gripe. Camuflou-se tanto o tumor de Tancredo Neves que se espalhou a fantasia de que ele, na verdade, levara um tiro.
À luz do sol as
coisas mudaram, mas nem tanto assim. Por toda parte há
um desprestígio da informação em favor dos
penduricalhos das crônicas de costumes, da bisbilhotice
em torno da banalidade, da vulgarização de denúncias.
Acaba de levar uma reprimenda pública o experimentado
repórter Peter Arnett, da rede de TV americana CNN, que
com indícios débeis acusou o Pentágono de usar gases
tóxicos contra desertores do Exército americano no
Laos. Na crítica que faz à imprensa em seu último
livro, Cinco Escritos Morais (Editora Record), o
pensador e escritor italiano Umberto Eco desfere golpes
contra as firulas que esmagam a informação, mas também
mostra como a pletora de informações produz
nebulosidade. Uma única informação essencial a
de que Richard Nixon mentia no caso Watergate foi
suficiente para derrubá-lo. "O que torna a campanha
contra Clinton extremamente mais fraca e tênue é que
hoje temos um furo por dia, e, mesmo assim, não se
hesita em atribuir a Clinton e Hillary qualquer tipo de
incorreção: da especulação imobiliária à
alimentação do gato com dinheiro do Estado."
A frase é premonitória antecede
os escândalos sexuais envolvendo o presidente americano
e sábia. Pode-se embaralhar o distinto público
também com uma maçaroca de informações, sem
distinguir o que é mais relevante. A imprensa perdeu de
vista que seu alvo, o detentor de informações, é presa
arisca e difícil. "Quem sabe demais acha difícil
não ter de mentir", ensinou o filósofo austríaco
Ludwig Wittgenstein, que, torturado por suas angústias,
jamais pôs o pé numa redação e planava muito acima da
vã realidade cotidiana.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |