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"Não
seria legal votar em alguém que a gente goste, que a gente ame? Eu, pelo menos, acho" |
| Foto: Frederic Jean |
Oscar Schmidt, de 40 anos, descobriu que a política pode ser mais cansativa que uma partida de basquete, esporte no qual brilha há mais de vinte anos. Candidato ao Senado em São Paulo pelo PPB, partido capitaneado pelo ex-prefeito Paulo Maluf, o jogador enfrentou seu primeiro comício na semana passada e saiu impressionado com o esforço físico despendido no corpo-a-corpo com o eleitorado. "Foi um sufoco", desabafou. A palavra exprime com exatidão o que será a disputa em que ele se está metendo. Sufocar a candidatura do adversário Eduardo Matarazzo Suplicy, do PT, até há pouco imbatível nas pesquisas de opinião, é o que pretende o PPB com Oscar. Popularíssimo entre a moçada que acompanha a sua trajetória nas quadras, com um jeito simpaticão e "bem família", do tipo que toda mãe gostaria de ter como genro, ele é uma espécie de Suplicy da direita, com um curioso pendor para professor de educação moral e cívica. "As três coisas mais importantes da vida são a família, a religião e o país", resumiu Oscar nesta entrevista a VEJA, durante a qual devorou nove pães de queijo. Dos grandes.
Veja Por que o senhor está querendo deixar de ser uma unanimidade nacional para entrar numa categoria tão mal vista pelos brasileiros: a dos políticos?
Oscar Não seria legal votar em alguém que a gente goste, que a gente ame? Eu, pelo menos, sempre procurei candidatos assim. Muitos me dizem que o Brasil precisa de pessoas como eu, para que as coisas mudem de verdade. Na minha infância, quando me perguntavam o que eu seria quando crescesse, respondia: "Quero ser presidente do Brasil". Esse foi o meu primeiro sonho. Depois, quis ser engenheiro eletrônico e, em seguida, jogador de basquete, profissão que abracei com paixão.
Veja Então a sua candidatura ao Senado, pelo PPB de Paulo Maluf, significa uma preparação para um vôo político ainda mais alto?
Oscar Claro que não. Ser presidente da República era apenas um sonho de criança. Para mim, não existe figura mais bonita do que a de senador. Sabe, sempre gostei de ver aqueles filmes históricos que mostram imagens do Senado da Roma antiga, aquelas fitas que têm senadores americanos como personagens...
Veja O Senado romano não era exatamente um modelo de instituição democrática.
Oscar É evidente que não estou dizendo que é a mesma coisa. Só estou lembrando de uma imagem infantil, que me marcou desde cedo. Acho que, como senador, servirei bem ao meu país. Se eu continuasse atuando apenas no basquete, meu futuro seria ter uma escolinha para uns cinqüenta alunos. Ou seja, faria um trabalho restrito. Já com o mandato de senador, tenho certeza de que poderei fazer mais por muito mais gente.
Veja Qual é sua plataforma?
Oscar O meu objetivo, basicamente, é defender os interesses do Estado de São Paulo, sem perder de vista as necessidades do resto do país. Sou um sujeito que honra a camisa que veste. Se estou jogando pelo Corinthians, o Corinthians passa a ser o melhor time do mundo para mim. Assim vai ser com São Paulo. Vou defender também o plano de governo do doutor Paulo (Maluf, candidato a governador paulista) e cobrar dele a execução desse plano.
Veja E além disso?
Oscar Bem, gostaria de lutar por uma lei de incentivo fiscal para o esporte, nos moldes da que já existe para a cultura. Veja o meu caso: sou um atleta de alto nível e, ainda assim, é enorme a dificuldade para conseguir um patrocinador para o meu time. Se é difícil para mim, dá para imaginar os obstáculos enfrentados por quem faz ciclismo, boxe ou pólo aquático. O empresário só quer investir em esportes que gozam de alguma popularidade, porque só desse modo ele tem um retorno seguro em termos de imagem. Com a lei de incentivo fiscal, tal estado de coisas poderia mudar, já que o empresário também teria uma compensação do ponto de vista financeiro. Gostaria, ainda, de encampar uma briga pelas nossas crianças e jovens. Vou combater a droga e o alcoolismo.
Veja Como?
Oscar Além do incremento do esporte, por meio do apoio à família, da religião e do patriotismo. Quanto a este último, tenho pequenas idéias que gostaria de ver implantadas. Acho que todos os dias, em toda sala de aula do país, os alunos deveriam cantar o Hino Nacional. Não basta fazer isso uma vez por semana, não. Seria ótimo também que toda classe tivesse uma bandeira do Brasil na parede.
Veja Falta patriotismo ao brasileiro?
Oscar Acho que o patriotismo não pode se manifestar apenas de quatro em quatro anos, quando há Copa do Mundo. Devemos ser patriotas todo dia, cantar o hino diariamente, com a mão no peito. Andamos muito esculhambados nesse sentido. Antes da Copa, por exemplo, quando o Brasil jogou contra a Argentina no Rio, fiquei espantado e triste ao ver o público do estádio pulando enquanto cantava o Hino Nacional. O que é isso, meu Deus?! Assim não dá, é preciso ter mais respeito. Falta educação cívica ao brasileiro. Ela nos faz ver a importância dos símbolos nacionais e a necessidade de defendê-los. Uma vez, fui jogar uma final na Argentina e, na hora em que soaram os primeiros acordes do hino do Brasil, um grupo de torcedores argentinos começou a fazer bagunça. Não tive dúvida: pulei para a arquibancada e mandei calar a boca. Tem de ser assim. As três coisas mais importantes da vida são a família, a religião e o país.
Veja O senhor pratica alguma religião?
Oscar Sou cristão. Acredito em Jesus e Deus acima de todas as coisas. Cresci católico, mas hoje vou a qualquer igreja, seja ela católica ou evangélica, para rezar. Esporte e religião são as duas coisas mais fortes para tirar as crianças do lado ruim da vida. Criam objetivo, fé, sonho. Quem não tem sonho, descamba para o mau caminho. Vou lutar para que o ensino religioso seja implantado em todas as escolas do Brasil.
Veja O senhor não acha isso uma imposição descabida, já que no Brasil não existe religião oficial?
Oscar Mas não estou falando em impor uma determinada fé. A escola escolheria a religião que quisesse, e os pais da criança decidiriam em que estabelecimento matriculá-la, de acordo com suas próprias convicções. Haveria, assim, liberdade de escolha.
Veja Seus adversários políticos o vêem como uma pessoa um tanto ingênua para ocupar o cargo de senador. O que o senhor pensa disso?
Oscar Estão confundindo ingenuidade com idealismo. Sou um idealista, e não tenho medo de afirmar isso em alto e bom som. Só entro numa coisa quando acho que posso fazê-la bem. Nunca montei restaurante, nunca tive posto de gasolina não acredito nisso. Sei que não tenho experiência política, apesar de ter ocupado durante quase um ano e meio o cargo de secretário municipal dos Esportes, Lazer e Recreação da cidade de São Paulo. Mas não terei dificuldade em entender o funcionamento do Senado só porque sou um esportista. Acho que há preconceito em relação a isso. Nos Estados Unidos, existe um senador, Ben Campbell, que foi judoca, medalha de ouro no Pan-Americano de 1963. Um dos maiores presidentes da história dos Estados Unidos, Ronald Reagan, era ator de cinema. Minha falta de experiência é compensada por outras qualidades. Como já disse, sou patriota, acredito em Deus e sigo os princípios da vida direitinho. Além disso, defendi o Brasil na única guerra que temos hoje, o esporte uma guerra positiva, mas dura de lutar. Por isso tudo, posso ser uma boa opção para quem deseja renovar a política brasileira. No futuro, lá em Brasília, teremos vinte como eu.
Veja A despeito de tanto idealismo, o senhor não tem medo de ser engolido pelas raposas da política?
Oscar Não, porque sou muito obstinado. Quando quero fazer algo, ninguém me desvia dessa rota. Prefiro errar tentando do que pecar pela omissão. Todo mundo que acompanhou minha vida de esportista sabe: eu sempre pedia a bola, sempre queria decidir o jogo. Essa minha característica levou a que, muitas vezes, eu precipitasse um arremesso. Mas o que valia era a vontade de fazer. Aprendi em todos esses anos que a grande virtude não está no acerto, mas em não ter medo de chamar para si a responsabilidade de decidir. No final das contas, penso que a experiência nas quadras será útil na minha nova carreira. Treinei para ser o melhor jogador de basquete do mundo, ninguém treinou mais do que eu. No início, completava os coletivos com 1.000 arremessos por dia, na solidão dos ginásios. Não foi por falta de dedicação que não consegui ser o melhor do mundo. E não será por falta de dedicação que deixarei de ser um bom senador.
Veja O senhor nutre uma admiração especial pelo ex-prefeito Paulo Maluf, político que dificilmente poderia ser considerado um sopro de renovação. De onde vem essa admiração?
Oscar De dentro de casa. Sou religioso, esportista, santista "viúva do Pelé" e malufista. Desde moleque ouvia meu pai dizer: "Oscar, os políticos falam muito, mas quem faz é o Maluf. Quando toma uma decisão, ele a cumpre". Com o passar do tempo, verifiquei que isso era realidade. Quem fez as maiores obras de São Paulo? Ele, Maluf.
Veja Como foi seu primeiro encontro com Maluf?
Oscar Inesquecível. Encontrei o doutor Paulo pela primeira vez há dois anos, na mesma época em que tive a oportunidade de conhecer o Pelé. Ele me chamou para conversar, para dar parabéns pela minha carreira no basquete. Quando entrei na sua sala, passei a entender o que as pessoas normais sentem em relação a mim. Chegar perto de um ídolo deixa a gente nervoso. Foi a mesma coisa com o doutor Paulo e com o Pelé: quando os vi, juro por Deus, minhas mãos e pernas tremiam, o meu coração disparou... Ave Maria!
Veja Se eleito, o senhor terá de opinar sobre temas espinhosos. O seu patriotismo, por exemplo, é do tipo que se traduz em estatismo econômico ou algo do gênero? O que o senhor acha do programa de privatizações do governo federal?
Oscar Não acho correto o Estado vender seu patrimônio, mas sou favorável a uma política de concessões que permita à iniciativa privada gerir determinadas empresas ou serviços públicos durante um período previsto em contrato. Por experiência própria, sei que dinheiro vai embora, mas o patrimônio fica.
Veja O basquete o deixou rico?
Oscar Não, mas levo uma vida confortável graças aos treze anos e meio em que joguei na Europa. Certamente minha situação seria outra se tivesse ficado todo esse tempo no Brasil. Joguei durante vinte anos na seleção, quase sempre de graça. Você sabe quanto os jogadores da equipe brasileira receberam pela conquista do Pan-Americano de 1987, nos Estados Unidos, a maior proeza do nosso basquete?
Veja Quanto?
Oscar Quinhentos dólares cada um. Eu abri mão desse dinheiro porque achei que a vitória ficaria ainda mais bonita desse jeito. Minha paixão pelo basquete impôs sacrifícios dos quais me orgulho. Quando comecei a jogar, aos 13 anos, em Brasília, um colega me disse que, para ser da seleção brasileira, eu deveria dormir com a bola. Dormi seis meses com a bola. Só depois fui entender que isso significava treinar muito para ser alguém. Quando cheguei ao Palmeiras, aos 16 anos, me prometeram escola, casa, comida, roupa lavada e um dinheirinho para tomar um sorvete, ir ao cinema, essas coisas. Eu treinava seis horas seguidas e, quando chegava tarde da noite na república onde morava, não tinha mais comida. Em república, na hora de comer, todo mundo vira inimigo, é cada um por si. Era comum eu passar a pudim de pão, já que o dinheiro prometido não chegava. Fiquei seis meses sem ganhar nada. Um dia, me viram chorando no vestiário. O técnico Cláudio Mortari perguntou o que estava acontecendo e, quando soube que eu estava passando fome, me levou para conversar com o doutor João Marino, o patrocinador do time do Palmeiras. A partir desse momento, o doutor João se tornou meu segundo pai. Começar assim é bonito, bem diferente da moçada de hoje, que tem tênis bacana e uniformes vistosos.
Veja Seu filho, Felipe, joga basquete?
Oscar Está começando.
Veja Quanto ele mede?
Oscar 1,55 metro. Para um menino de 12 anos, ele não é muito alto.
Veja Sua altura espichou com que idade?
Oscar Dos 13 para os 15 anos. Nesse período, cresci 15 centímetros.
Veja Afinal de contas, o senhor tem 2,04 ou 2,05 metros?
Oscar 2,05 metros. Mas quando estou jogando minha altura chega a 2,08 metros, 2,09. Hoje em dia, além de os tênis terem solas mais grossas, uso palmilhas de 2 centímetros, para relaxar os tendões de Aquiles. Tenho tendinite crônica nos dois pés. Aliás, não agüento essa molecada que fica com frescura por causa de contusão. Num jogo na Itália, pelo time do Caserta, marquei 34 pontos com a mão direita fraturada. É o que sempre digo: dor e cansaço fazem parte do uniforme do atleta.
Veja O seu ídolo no basquete é Larry Bird, um dos únicos brancos a ter destaque na liga profissional americana de basquete. Por quê?
Oscar Porque uma coisa é ser Michael Jordan, sem limitação técnica, capaz de voar e de colocar a bola dentro da cesta. Outra coisa é você ser um branquinho desengonçado, como o Larry Bird, que pula pouco, corre feito um pato e, ainda assim, joga com os bons. Me identifico com ele. O branco é um intruso no basquete. Esse é um esporte feito sob medida para os negros.
Veja Se eleito, o senhor pretende continuar jogando?
Oscar Claro, vou jogar até os 50 anos.
Veja Um de seus apelidos é "Bebê Chorão". O senhor chorará se não for eleito?
Oscar Provavelmente.
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