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Edição 1 752 - 22 de maio de 2002
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Sucessão: O efeito Lula
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Empresários na
agenda de Lula

Alexandre Secco e Maurício Lima

 

Joedson Alves/AE
Lula em palestra na Confederação Nacional das Indústrias: "O PT e os empresários mudaram"


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A agenda de Lula para os próximos meses registra compromissos com banqueiros, industriais e fazendeiros. Por falta de tempo do candidato, estão na fila de espera por um encontro os investidores estrangeiros do Citibank, do Deutsche Bank, do Bank of America e da corretora Merrill Lynch. Para dar conta dos pedidos que vêm dos industriais, os assessores do candidato petista estão pedindo aos empresários que se organizem em grupos por setor econômico. Em junho, Lula deverá falar aos banqueiros brasileiros, num evento que está sendo organizado pela Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban). As principais câmaras de comércio exterior, como a Brasil-Estados Unidos, a Brasil-França e a Brasil-Alemanha, estão preparando uma reunião conjunta para ouvir as propostas de Lula. Trata-se de uma mudança notável. Seus assessores mais próximos não conseguem lembrar-se sequer de uma reunião importante com grupos empresariais quando ele disputou a Presidência em 1989. Em 1994 e 1998, a agenda do candidato foi tomada por viagens para o interior, encontros com movimentos populares e muita distância dos donos de empresas.

Esse interesse se explica por alguns fatores objetivos. Primeiro, Lula se apresenta com chances reais de eleger-se presidente. Em maio de 1994, a cinco meses da eleição presidencial daquele ano, o petista Luís Inácio Lula da Silva tinha 42% das intenções de voto. Mantinha folgada dianteira sobre o segundo colocado, o tucano Fernando Henrique Cardoso, que patinava nos 16%. A liderança nas pesquisas, como se sabe, dissolveu-se até a eleição, e Fernando Henrique acabou levando a faixa presidencial. Agora, também faltando cinco meses para o pleito, Lula volta a exibir o mesmo desempenho vistoso. De acordo com pesquisa do Instituto Vox Populi divulgada na semana passada, o petista está com 42% do eleitorado, enquanto José Serra, seu rival tucano, ocupa o segundo lugar, com 17%. A aritmética de agora, portanto, é caprichosamente idêntica à da eleição presidencial de 1994. Medidas apenas pelos números, as chances de Lula chegar à Presidência são hoje do mesmo tamanho que eram oito anos atrás. Mas, analisadas num contexto mais amplo, pode-se afirmar que o petista nunca esteve tão perto do Palácio do Planalto quanto agora.

Em 1994, o então candidato Fernando Henrique dispunha de trunfos que José Serra não tem. Em sua primeira campanha, Fernando Henrique colocou na praça o Plano Real, o primeiro projeto de reforma monetária que funcionou depois das várias tentativas fracassadas empreendidas por José Sarney e Fernando Collor de Mello. O Plano Real matou a hiperinflação brasileira, melhorou repentinamente a renda de uma multidão de deserdados, deu ao Brasil o orgulho havia muito inexistente de que, como outros países, também se podia ter por aqui a estabilidade econômica. O Plano Real foi também o maior torpedo eleitoral da década, que desequilibrou a disputa em favor de Fernando Henrique. O candidato tucano de 1994 contava, ainda, com uma aliança eleitoral sólida, que incluía o apoio disciplinado do PFL e a adesão unânime do PSDB. Agora, José Serra não tem nada de impacto para apresentar aos eleitores e ainda vacila no terreno das alianças políticas. Não tem o PFL, ainda não formalizou o pacto com seu parceiro preferencial, o PMDB, e não dispõe sequer da unanimidade em seu próprio partido, no qual ainda se ouvem sussurros de críticas ao candidato. Para piorar, Serra tem sido forçado, nos últimos dias, a dar explicações sobre a contabilidade de sua campanha ao Senado, em 1994, sobre as suspeitas em torno de seu ex-tesoureiro eleitoral, Ricardo Sérgio de Oliveira, e sobre estripulias bancárias de seu contraparente Gregorio Marin Preciado.

Nas primeiras eleições que disputou, Luís Inácio Lula da Silva se encontrava no bloco dos candidatos com a maior taxa de rejeição. Em 1989 e 1994, metade dos eleitores afirmava que jamais votaria nele. A última pesquisa Vox Populi o apresenta em uma posição muito mais favorável. Sua taxa de rejeição está caindo, e isso é tão significativo quanto o aumento das preferências por seu nome. Hoje, Lula tem 23% de rejeição na pesquisa do Instituto Vox Populi, contra 22% de Garotinho, 20% de Serra e 16% de Ciro.

Nada disso significa que Lula esteja eleito ou Serra fora do páreo, mesmo porque a campanha não chegou ao momento de maior calor. A percepção de que as coisas não vão bem para o tucanato, no entanto, tem produzido um clima de tensão entre uma elite que certamente não se inclui na massa dos 42% de eleitores que estão com Lula. São empresários, banqueiros, investidores – o chamado "mercado", cujos nervos se abalam a cada subida do petista nas pesquisas. Outro levantamento, este do Datafolha, traz dados suplementares que explicam a apreensão dessa faixa. Um exemplo: 69% dos consultados acreditam que há corrupção no governo, sinal desalentador para o candidato oficial, que precisa pedir votos a um eleitor cada vez mais sensível à questão ética. Outro exemplo: 59% dos brasileiros nem tomaram conhecimento da posição dos bancos estrangeiros que, diante da ascensão de Lula, aconselharam investidores a diminuir as aplicações no Brasil. Ou seja: a maioria do eleitorado ignora o "risco Lula". Para o tucanato, seria preferível que o eleitor soubesse do risco – e o temesse.

Na semana passada, VEJA ouviu 26 entidades que representam empresários e 21 organizações de trabalhadores a respeito do grau de temor que o PT produz. Entre o empresariado, a maioria se diz preocupada em como o PT vai tratar da dívida externa, da taxa de juros e do equilíbrio das contas públicas. Os trabalhadores demonstraram-se mais tranqüilos em relação aos rumos da economia em um eventual governo PT. Só um aspecto preocupa igualmente os trabalhadores e os empresários que foram ouvidos: diz respeito ao temor de que um governo do PT tenha dificuldade para formar uma maioria no Congresso, a fim de aprovar projetos de interesse do país.

Nesse campo, o governo Fernando Henrique oferece uma lição que merece ser observada com atenção. Para governar, o presidente contou durante a maior parte de seus dois mandatos com uma bancada de 332 deputados num total de 513 e 56 senadores entre os 81 que preenchem as cadeiras da Casa. A conta inclui os cinco partidos que apoiaram sistematicamente o governo: PFL, PMDB, PSDB, PPB e PTB. Com esse grupo, FHC mantinha sob seu comando uma força política capaz de aprovar qualquer projeto de lei – e estava perto de obter o quorum necessário para emplacar uma emenda constitucional. Bastaria conquistar mais dez votos. E, mesmo assim, o governo tinha de se esforçar nas principais votações, recorrendo ao fisiologismo do toma-lá-dá-cá em muitas ocasiões. Observe o que aconteceria com Lula, imaginando, a exemplo do que fazem as pesquisas de intenção de voto, que a eleição fosse hoje. Se o petista conseguisse reunir em torno de si todos os senadores que fazem oposição sistemática a FHC, contaria com vinte parlamentares. Na Câmara dos Deputados, seriam 140 votos. Se tivesse planos de mexer na Constituição, como fez FHC, precisaria cabalar 236 votos. Para isso, teria de cooptar dois dos três partidos governistas de maior expressão: PMDB, PFL e PSDB. Detalhe: o PT vai ter de negociar com uma oposição formada por raposas da trama política, como José Sarney e Antonio Carlos Magalhães, o primeiro colocado nas pesquisas para o Senado na Bahia.

A soma de dados favoráveis ao petista despertou, pela primeira vez na atual campanha, especulações de que Lula pode até ganhar a eleição no primeiro turno. Entre os tucanos, ninguém admite essa hipótese publicamente, mas o alarme disparou. Até então, o plano tático do PSDB era voltar as baterias contra o candidato do PSB, Anthony Garotinho, que disputa com Serra o segundo lugar nas pesquisas. Agora, o alvo é o PT. Na semana passada, afinados como numa orquestra, todos os principais cardeais tucanos, com exceção de FHC, que quer preservar-se, fizeram críticas públicas ao petista e a seu partido. O PSDB tem pesquisas qualitativas para orientar os ataques. Os levantamentos mostram que os eleitores de Lula ficam inseguros quando defrontados com o colapso da Argentina. Temem que, em caso de turbulência no Brasil, Lula não tenha capacidade de administrar a crise. As pesquisas mostram também que o eleitor acha que Lula tem um patrimônio moral inatacável. Conhecendo os pontos fracos, os tucanos planejam começar a falar mais no "risco Argentina" e fomentar denúncias de irregularidades nas gestões do PT. Na semana passada, José Serra já falou que, mal administrado, o Brasil pode virar uma Argentina. É só o começo.

No campo das denúncias, Lula, pessoalmente, não é um terreno fértil. Disputando sua quarta eleição presidencial, a maioria do eleitorado está convencida de que é um político honesto e decente. Mas, no campo das definições econômicas, o candidato é de uma vulnerabilidade ímpar. Seu grande desafio será provar que toda a mudança de discurso – habilidosamente trabalhada nos programas concebidos pelo publicitário Duda Mendonça – não é mera maquiagem eleitoral. Em sua história, o PT sempre exibiu comportamento ambíguo. Antes, sua ambigüidade se dava no terreno ideológico. O que era o PT? Bem, não era comunista, nem socialista, nem social-democrata, embora fosse um pouquinho de tudo isso ao mesmo tempo – mas nem os petistas sabiam direito, divididos que estavam numa colorida algaravia de correntes ideológicas distintas. Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, as discussões ideológicas perderam o viço, a multiplicidade de correntes internas no PT reduziu-se e, simultaneamente, tornou-se mais evidente a ambigüidade do partido em matéria de política econômica. Nesse campo, as idéias do petismo e de Lula continuam com a esplêndida nitidez de uma nebulosa.

Não é uma questão irrelevante. O economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, explica que a preocupação dos empresários e de uma parte da sociedade com uma possível vitória de Lula não se baseia no preconceito, embora ele não seja desprezível. Loyola recorre a uma metáfora aérea para explicar o que diz. "Se fossem um avião, os Estados Unidos seriam um Boeing. Ninguém se importa em conhecer o piloto quando entra numa aeronave dessas", compara. "Somos um teco-teco de uma daquelas firmas que transportam garimpeiros na Amazônia. Qualquer pessoa responsável quer saber, antes de decolar, quem vai pilotar esse avião."

Com reportagem de Sandra Brasil e sucursais

 

QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA

O presidenciável petista demonstrou um grande poder de adaptação. A cada campanha, ele se apresentou com um discurso modificado. Confira as mudanças de Lula em quatro momentos importantes de sua vida política.

1989
1994
Radical: em sua primeira eleição, Lula fazia a defesa de causas, porém não apresentava um projeto de governo Cético: o PT criticava o Plano Real, e Lula demorou a entender todos os seus efeitos
1998
2002
Contrariado: antes de entrar na eleição, Lula disse várias vezes que não tinha motivação para disputar Sentimental: o publicitário Duda Mendonça mostra um programa de TV em que Lula aparece chorando

 
 


   
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