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Empresários
na
agenda de Lula
Alexandre
Secco e Maurício Lima
Joedson Alves/AE
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| Lula
em palestra na Confederação Nacional das Indústrias:
"O PT e os empresários mudaram" |

Veja também |
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A
agenda de Lula para os próximos meses registra compromissos com
banqueiros, industriais e fazendeiros. Por falta de tempo do candidato,
estão na fila de espera por um encontro os investidores estrangeiros
do Citibank, do Deutsche Bank, do Bank of America e da corretora Merrill
Lynch. Para dar conta dos pedidos que vêm dos industriais, os assessores
do candidato petista estão pedindo aos empresários que se
organizem em grupos por setor econômico. Em junho, Lula deverá
falar aos banqueiros brasileiros, num evento que está sendo organizado
pela Federação Brasileira das Associações
de Bancos (Febraban). As principais câmaras de comércio exterior,
como a Brasil-Estados Unidos, a Brasil-França e a Brasil-Alemanha,
estão preparando uma reunião conjunta para ouvir as propostas
de Lula. Trata-se de uma mudança notável. Seus assessores
mais próximos não conseguem lembrar-se sequer de uma reunião
importante com grupos empresariais quando ele disputou a Presidência
em 1989. Em 1994 e 1998, a agenda do candidato foi tomada por viagens
para o interior, encontros com movimentos populares e muita distância
dos donos de empresas.
Esse interesse
se explica por alguns fatores objetivos. Primeiro, Lula se apresenta com
chances reais de eleger-se presidente. Em maio de 1994, a cinco meses
da eleição presidencial daquele ano, o petista Luís
Inácio Lula da Silva tinha 42% das intenções de voto.
Mantinha folgada dianteira sobre o segundo colocado, o tucano Fernando
Henrique Cardoso, que patinava nos 16%. A liderança nas pesquisas,
como se sabe, dissolveu-se até a eleição, e Fernando
Henrique acabou levando a faixa presidencial. Agora, também faltando
cinco meses para o pleito, Lula volta a exibir o mesmo desempenho vistoso.
De acordo com pesquisa do Instituto Vox Populi divulgada na semana passada,
o petista está com 42% do eleitorado, enquanto José Serra,
seu rival tucano, ocupa o segundo lugar, com 17%. A aritmética
de agora, portanto, é caprichosamente idêntica à da
eleição presidencial de 1994. Medidas apenas pelos números,
as chances de Lula chegar à Presidência são hoje do
mesmo tamanho que eram oito anos atrás. Mas, analisadas num contexto
mais amplo, pode-se afirmar que o petista nunca esteve tão perto
do Palácio do Planalto quanto agora.
Em 1994,
o então candidato Fernando Henrique dispunha de trunfos que José
Serra não tem. Em sua primeira campanha, Fernando Henrique colocou
na praça o Plano Real, o primeiro projeto de reforma monetária
que funcionou depois das várias tentativas fracassadas empreendidas
por José Sarney e Fernando Collor de Mello. O Plano Real matou
a hiperinflação brasileira, melhorou repentinamente a renda
de uma multidão de deserdados, deu ao Brasil o orgulho havia muito
inexistente de que, como outros países, também se podia
ter por aqui a estabilidade econômica. O Plano Real foi também
o maior torpedo eleitoral da década, que desequilibrou a disputa
em favor de Fernando Henrique. O candidato tucano de 1994 contava, ainda,
com uma aliança eleitoral sólida, que incluía o apoio
disciplinado do PFL e a adesão unânime do PSDB. Agora, José
Serra não tem nada de impacto para apresentar aos eleitores e ainda
vacila no terreno das alianças políticas. Não tem
o PFL, ainda não formalizou o pacto com seu parceiro preferencial,
o PMDB, e não dispõe sequer da unanimidade em seu próprio
partido, no qual ainda se ouvem sussurros de críticas ao candidato.
Para piorar, Serra tem sido forçado, nos últimos dias, a
dar explicações sobre a contabilidade de sua campanha ao
Senado, em 1994, sobre as suspeitas em torno de seu ex-tesoureiro eleitoral,
Ricardo Sérgio de Oliveira, e sobre estripulias bancárias
de seu contraparente Gregorio Marin Preciado.
Nas primeiras
eleições que disputou, Luís Inácio Lula da
Silva se encontrava no bloco dos candidatos com a maior taxa de rejeição.
Em 1989 e 1994, metade dos eleitores afirmava que jamais votaria nele.
A última pesquisa Vox Populi o apresenta em uma posição
muito mais favorável. Sua taxa de rejeição está
caindo, e isso é tão significativo quanto o aumento das
preferências por seu nome. Hoje, Lula tem 23% de rejeição
na pesquisa do Instituto Vox Populi, contra 22% de Garotinho, 20% de Serra
e 16% de Ciro.
Nada disso
significa que Lula esteja eleito ou Serra fora do páreo, mesmo
porque a campanha não chegou ao momento de maior calor. A percepção
de que as coisas não vão bem para o tucanato, no entanto,
tem produzido um clima de tensão entre uma elite que certamente
não se inclui na massa dos 42% de eleitores que estão com
Lula. São empresários, banqueiros, investidores o
chamado "mercado", cujos nervos se abalam a cada subida do petista nas
pesquisas. Outro levantamento, este do Datafolha, traz dados suplementares
que explicam a apreensão dessa faixa. Um exemplo: 69% dos consultados
acreditam que há corrupção no governo, sinal desalentador
para o candidato oficial, que precisa pedir votos a um eleitor cada vez
mais sensível à questão ética. Outro exemplo:
59% dos brasileiros nem tomaram conhecimento da posição
dos bancos estrangeiros que, diante da ascensão de Lula, aconselharam
investidores a diminuir as aplicações no Brasil. Ou seja:
a maioria do eleitorado ignora o "risco Lula". Para o tucanato, seria
preferível que o eleitor soubesse do risco e o temesse.
Na semana
passada, VEJA ouviu 26 entidades que representam empresários e
21 organizações de trabalhadores a respeito do grau de temor
que o PT produz. Entre o empresariado, a maioria se diz preocupada em
como o PT vai tratar da dívida externa, da taxa de juros e do equilíbrio
das contas públicas. Os trabalhadores demonstraram-se mais tranqüilos
em relação aos rumos da economia em um eventual governo
PT. Só um aspecto preocupa igualmente os trabalhadores e os empresários
que foram ouvidos: diz respeito ao temor de que um governo do PT tenha
dificuldade para formar uma maioria no Congresso, a fim de aprovar projetos
de interesse do país.
Nesse campo,
o governo Fernando Henrique oferece uma lição que merece
ser observada com atenção. Para governar, o presidente contou
durante a maior parte de seus dois mandatos com uma bancada de 332 deputados
num total de 513 e 56 senadores entre os 81 que preenchem as cadeiras
da Casa. A conta inclui os cinco partidos que apoiaram sistematicamente
o governo: PFL, PMDB, PSDB, PPB e PTB. Com esse grupo, FHC mantinha sob
seu comando uma força política capaz de aprovar qualquer
projeto de lei e estava perto de obter o quorum necessário
para emplacar uma emenda constitucional. Bastaria conquistar mais dez
votos. E, mesmo assim, o governo tinha de se esforçar nas principais
votações, recorrendo ao fisiologismo do toma-lá-dá-cá
em muitas ocasiões. Observe o que aconteceria com Lula, imaginando,
a exemplo do que fazem as pesquisas de intenção de voto,
que a eleição fosse hoje. Se o petista conseguisse reunir
em torno de si todos os senadores que fazem oposição sistemática
a FHC, contaria com vinte parlamentares. Na Câmara dos Deputados,
seriam 140 votos. Se tivesse planos de mexer na Constituição,
como fez FHC, precisaria cabalar 236 votos. Para isso, teria de cooptar
dois dos três partidos governistas de maior expressão: PMDB,
PFL e PSDB. Detalhe: o PT vai ter de negociar com uma oposição
formada por raposas da trama política, como José Sarney
e Antonio Carlos Magalhães, o primeiro colocado nas pesquisas para
o Senado na Bahia.
A soma de
dados favoráveis ao petista despertou, pela primeira vez na atual
campanha, especulações de que Lula pode até ganhar
a eleição no primeiro turno. Entre os tucanos, ninguém
admite essa hipótese publicamente, mas o alarme disparou. Até
então, o plano tático do PSDB era voltar as baterias contra
o candidato do PSB, Anthony Garotinho, que disputa com Serra o segundo
lugar nas pesquisas. Agora, o alvo é o PT. Na semana passada, afinados
como numa orquestra, todos os principais cardeais tucanos, com exceção
de FHC, que quer preservar-se, fizeram críticas públicas
ao petista e a seu partido. O PSDB tem pesquisas qualitativas para orientar
os ataques. Os levantamentos mostram que os eleitores de Lula ficam inseguros
quando defrontados com o colapso da Argentina. Temem que, em caso de turbulência
no Brasil, Lula não tenha capacidade de administrar a crise. As
pesquisas mostram também que o eleitor acha que Lula tem um patrimônio
moral inatacável. Conhecendo os pontos fracos, os tucanos planejam
começar a falar mais no "risco Argentina" e fomentar denúncias
de irregularidades nas gestões do PT. Na semana passada, José
Serra já falou que, mal administrado, o Brasil pode virar uma Argentina.
É só o começo.
No campo
das denúncias, Lula, pessoalmente, não é um terreno
fértil. Disputando sua quarta eleição presidencial,
a maioria do eleitorado está convencida de que é um político
honesto e decente. Mas, no campo das definições econômicas,
o candidato é de uma vulnerabilidade ímpar. Seu grande desafio
será provar que toda a mudança de discurso habilidosamente
trabalhada nos programas concebidos pelo publicitário Duda Mendonça
não é mera maquiagem eleitoral. Em sua história,
o PT sempre exibiu comportamento ambíguo. Antes, sua ambigüidade
se dava no terreno ideológico. O que era o PT? Bem, não
era comunista, nem socialista, nem social-democrata, embora fosse um pouquinho
de tudo isso ao mesmo tempo mas nem os petistas sabiam direito,
divididos que estavam numa colorida algaravia de correntes ideológicas
distintas. Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, as discussões
ideológicas perderam o viço, a multiplicidade de correntes
internas no PT reduziu-se e, simultaneamente, tornou-se mais evidente
a ambigüidade do partido em matéria de política econômica.
Nesse campo, as idéias do petismo e de Lula continuam com a esplêndida
nitidez de uma nebulosa.
Não
é uma questão irrelevante. O economista Gustavo Loyola,
ex-presidente do Banco Central, explica que a preocupação
dos empresários e de uma parte da sociedade com uma possível
vitória de Lula não se baseia no preconceito, embora ele
não seja desprezível. Loyola recorre a uma metáfora
aérea para explicar o que diz. "Se fossem um avião, os Estados
Unidos seriam um Boeing. Ninguém se importa em conhecer o piloto
quando entra numa aeronave dessas", compara. "Somos um teco-teco de uma
daquelas firmas que transportam garimpeiros na Amazônia. Qualquer
pessoa responsável quer saber, antes de decolar, quem vai pilotar
esse avião."
Com
reportagem de Sandra
Brasil e sucursais
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QUESTÃO
DE SOBREVIVÊNCIA
O presidenciável
petista demonstrou um grande poder de adaptação. A
cada campanha, ele se apresentou com um discurso modificado. Confira
as mudanças de Lula em quatro momentos importantes de sua
vida política.
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1989
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1994
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| Radical:
em sua primeira eleição, Lula fazia a defesa de
causas, porém não apresentava um projeto de governo
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Cético:
o PT criticava o Plano Real, e Lula demorou a entender todos
os seus efeitos |
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1998
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2002
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| Contrariado:
antes de entrar na eleição, Lula disse várias
vezes que não tinha motivação para disputar
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Sentimental:
o publicitário Duda Mendonça mostra um programa
de TV em que Lula aparece chorando |
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