Cinema
FIRME COMO UMA ROCHA
Ex-ícone
da luta livre, The Rock aliás, Dwayne
Johnson não
quer ser mais lembrado como um
brutamontes. A plateia infanto-juvenil já
aceitou a ideia

Isabela Boscov
Mary Ellen Matthews/Corbis Outline/Latinstock
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GRANDALHÃO,
SIM. BRUCUTU, NÃO Johnson na sua
encarnação atual: menos músculos, vocabulário mais
limpo e uma disposição espantosa para trabalhar |
Até uns poucos anos
atrás, qualquer americano sabia quem era The Rock, ou "A Rocha":
ícone da luta livre, filho, neto e sobrinho de astros daqueles combates
fajutos da televisão (seu tio, "O Samoano Selvagem", treinou
Mickey Rourke para O Lutador), ele esmagava de mentirinha
adversários e valia uma fortuna para a World Wrestling Federation, a liga
do, vá lá, esporte, que é popularíssimo nos Estados
Unidos. Agora, seu desafio é pôr uma pedra sobre o passado. The Rock
quer que esqueçam de vez seu nome de guerra e passem a chamá-lo
apenas pelo de batismo, Dwayne Johnson. A troca já está feita para
uma parte do público: a plateia infanto-juvenil. Ela é que vem realizando
o sonho de Johnson, de abrir seus filmes no primeiro lugar da bilheteria. Esses
espectadores o levaram ao topo do ranking na primeira vez em que ele se arriscou
no gênero, com Treinando o Papai, e novamente agora, com A
Montanha Enfeitiçada (Race to Witch Mountain, 2009, Estados
Unidos). No filme, desde sexta-feira em cartaz no país, Johnson interpreta
o ex-empregado de um gângster local (é preciso explicar a força
de seus socos e pontapés) que, completamente regenerado, dirige um táxi
em Las Vegas no qual entram dois adolescentes dotados de estranhos poderes
e perseguidos por um colossal contingente do FBI, do Exército e de outras
agências mais obscuras. Não é grande coisa, mas cumpre aquilo
a que se propõe: evidenciar as qualidades de Johnson. Que incluem simpatia,
senso de humor, carisma e um jeito convincente de parecer paternal sem ser paternalista.
Firme agora no papel de herói da família, ele já está
rodando seu próximo filme, Tooth Fairy. No qual faz uma versão
um tantinho mais musculosa que o habitual da fadinha que troca dentes de leite
por moedas.
Divulgação  |
O HERÓI DA FAMÍLIA
Com Carla Gugino, AnnaSophia Robb e Alexander Ludwig em A Montanha Enfeitiçada:
sopapos, agora, só para defender mulheres e crianças |
Essa
é a quarta encarnação de Johnson como ator. Em 2001, quando
decidiu efetuar a transição do ringue para o cinema, ele tentou
primeiro da maneira óbvia: em papéis como aqueles que Arnold Schwarzenegger
enfrentou no começo da carreira, de grandalhão exótico, em
O Retorno da Múmia e O Escorpião Rei. Da mesma maneira
que seu predecessor, concluiu que poderia nunca passar de uma curiosidade. Mudou
então para os filmes de pancadaria, dos quais fez uns três ou quatro
o suficiente para perceber que esse é um segmento superpovoado e
que não oferece prestígio. Para romper com a imagem de brutamontes,
foi procurar pontas em que pudesse demonstrar sua versatilidade. Fez um guarda-costas
gay em O Outro Nome do Jogo, um ator com amnésia em Southland
Tales e, por fim, o papel que daria credibilidade aos seus planos: o de um
superespião em Agente 86. Cercado de profissionais como Steve Carell,
Alan Arkin e Anne Hathaway, Johnson provou ter excelente ritmo cômico, presença
cativante e aquilo que falta a outros que tentaram a mesma sorte, como
Vin Diesel uma percepção lúcida de sua persona e um
impecável espírito de equipe. Enquanto outros atores tentam fugir
da parte aborrecida do trabalho, que é promover o filme já concluído,
Johnson dá entrevistas, frequenta tapetes vermelhos, vai a convenções
e, no final, pergunta o que mais pode fazer. "Nunca conheci um ator que trabalhasse
tanto", admira-se um executivo da Disney.
Muito do esforço do ex-lutador é apagar os traços que o associam
ao passado. Os 120 quilos que chegou a ostentar no ringue foram já muito
reduzidos, para tornar sua aparência menos extravagante. Por disposição
natural, ele é doce e acessível e qualquer vontade de não
sê-lo é hoje duramente reprimida. A adaptação do vocabulário,
ele admite, está ainda em progresso, já que os palavrões
às vezes teimam em escapar. No que de fato importa, porém, Johnson
já chegou pronto: tem aquele não sei quê indefinível
que identifica os astros natos, seja sua arena o futebol americano universitário
onde começou, a luta livre ou o cinema.