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22 de abril de 2009
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Cinema
DOIS PATOS MANCOS

O diretor Oliver Stone já foi um polemista. Mas, em W., ele exonera
um dos piores presidentes americanos como um paspalho carente


Isabela Boscov

Divulgação
O CORDEIRO E OS LOBOS
Brolin, como George W. Bush, com Dreyfuss, ao fundo, como o vice Dick Cheney: pobrezinho, tão manipulável


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Mesmo antes de encerrados seus oito anos na Casa Branca, já se podia dar George W. Bush como um dos piores presidentes americanos: ele entrou sob falso pretexto numa guerra que continua a se arrastar e contabilizar mortos (mas não localizou Osama bin Laden), atacou com sanha policialesca as liberdades civis, criou entrepostos de tortura, borrou os limites entre religião e estado, atrasou pesquisas científicas essenciais, cedeu a todo tipo de lobby corporativo e deixou os Estados Unidos – e o mundo – na mais severa depressão econômica das últimas décadas. Foi um governo trágico. Que o cineasta Oliver Stone escolhe recriar em tom de farsa em W. (Estados Unidos, 2008), já em cartaz no Rio de Janeiro e a partir desta sexta-feira em São Paulo. O Bush deste filme inerte e equivocado é, metade do tempo, aquele do alvo fácil: o que troca as palavras, comete gafes, engasga com salgadinhos e, em vez de se preparar para as decisões, reza. O "pato manco", enfim, que David Letterman demoliu com muito mais método e acidez em seu programa com uma ou duas piadas por noite, sem recorrer a atores e cenários. Mas Stone vê em Bush também um aspecto psicanalítico a sublinhar: o do primogênito que é um desapontamento constante para o pai e corteja pateticamente sua aprovação. Na visão do diretor, isso é que fez Bush filho desejar o poder, e é isso também que o tornou tão vulnerável à influência de assessores maquiavélicos como Karl Rove, Condoleezza Rice e o vice-presidente Dick Cheney.

É um engano grave descartar como um paspalho carente um homem que tratou o poder, primeiro, como uma saída para seus sucessivos fracassos – o alcoolismo, o baixo rendimento acadêmico, a falta de uma vocação – e, depois, se engajou ativamente na ampliação e preservação desse poder. Bush se elegeu governador do Texas e fez duas campanhas para a eleição presidencial, o que não é bolinho nem acontece por acaso. Escolheu pessoalmente seus assessores de má fama, como Rove, Condoleezza, Cheney, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld (todos, no filme, interpretados de forma opaca por bons atores, como Toby Jones, Thandie Newton, Richard Drey-fuss e Scott Glenn); pressionou para a entrada no Iraque; e foi muito claro nas suas diretrizes políticas, como as que cortaram todo o financiamento federal para os estudos com células-tronco. Apesar da atuação dedicada e inteligente de Josh Brolin, esse homem determinado aparece, em W., como um coitado – um sujeito ingênuo, desinformado e até boa-praça e bem-intencionado, que, enquanto ocupava o cargo de maior concentração de poder no planeta, se deixou pastorear por uma matilha de lobos com interesses próprios. Pode parecer surpreendente que um presidente tão catastrófico seja assim exonerado por um cineasta outrora conhecido pelo incentivo à polêmica. Mas Oliver Stone não é mais o mesmo de Platoon, JFK e Nixon. Agora, o diretor é também ele um pato manco, autor de planos ambiciosos que viram erros como World Trade Center, Alexandre e W.


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