Cinema
DOIS PATOS MANCOS
O
diretor Oliver Stone já foi um polemista. Mas, em W., ele exonera
um dos piores presidentes americanos como um paspalho carente

Isabela Boscov
Divulgação  |
O CORDEIRO E OS LOBOS Brolin,
como George W. Bush, com Dreyfuss, ao fundo, como o vice Dick Cheney: pobrezinho,
tão manipulável |
Mesmo antes de encerrados
seus oito anos na Casa Branca, já se podia dar George W. Bush como um dos
piores presidentes americanos: ele entrou sob falso pretexto numa guerra que continua
a se arrastar e contabilizar mortos (mas não localizou Osama bin Laden),
atacou com sanha policialesca as liberdades civis, criou entrepostos de tortura,
borrou os limites entre religião e estado, atrasou pesquisas científicas
essenciais, cedeu a todo tipo de lobby corporativo e deixou os Estados Unidos
e o mundo na mais severa depressão econômica das últimas
décadas. Foi um governo trágico. Que o cineasta Oliver Stone escolhe
recriar em tom de farsa em W. (Estados Unidos, 2008), já
em cartaz no Rio de Janeiro e a partir desta sexta-feira em São Paulo.
O Bush deste filme inerte e equivocado é, metade do tempo, aquele do alvo
fácil: o que troca as palavras, comete gafes, engasga com salgadinhos e,
em vez de se preparar para as decisões, reza. O "pato manco",
enfim, que David Letterman demoliu com muito mais método e acidez em seu
programa com uma ou duas piadas por noite, sem recorrer a atores e cenários.
Mas Stone vê em Bush também um aspecto psicanalítico a sublinhar:
o do primogênito que é um desapontamento constante para o pai e corteja
pateticamente sua aprovação. Na visão do diretor, isso é
que fez Bush filho desejar o poder, e é isso também que o tornou
tão vulnerável à influência de assessores maquiavélicos
como Karl Rove, Condoleezza Rice e o vice-presidente Dick Cheney.
É um engano grave descartar como um paspalho
carente um homem que tratou o poder, primeiro, como uma saída para seus
sucessivos fracassos o alcoolismo, o baixo rendimento acadêmico,
a falta de uma vocação e, depois, se engajou ativamente na
ampliação e preservação desse poder. Bush se elegeu
governador do Texas e fez duas campanhas para a eleição presidencial,
o que não é bolinho nem acontece por acaso. Escolheu pessoalmente
seus assessores de má fama, como Rove, Condoleezza, Cheney, o secretário
de Defesa Donald Rumsfeld (todos, no filme, interpretados de forma opaca por bons
atores, como Toby Jones, Thandie Newton, Richard Drey-fuss e Scott Glenn); pressionou
para a entrada no Iraque; e foi muito claro nas suas diretrizes políticas,
como as que cortaram todo o financiamento federal para os estudos com células-tronco.
Apesar da atuação dedicada e inteligente de Josh Brolin, esse homem
determinado aparece, em W., como um coitado um sujeito ingênuo,
desinformado e até boa-praça e bem-intencionado, que, enquanto ocupava
o cargo de maior concentração de poder no planeta, se deixou pastorear
por uma matilha de lobos com interesses próprios. Pode parecer surpreendente
que um presidente tão catastrófico seja assim exonerado por um cineasta
outrora conhecido pelo incentivo à polêmica. Mas Oliver Stone não
é mais o mesmo de Platoon, JFK e Nixon. Agora, o diretor
é também ele um pato manco, autor de planos ambiciosos que viram
erros como World Trade Center, Alexandre e W.