Brasil
Quem mandou parar?
O
governo mobiliza sua bancada na Câmara
para encerrar a CPI das escutas
ilegais

Expedito Filho
Ana Araujo  |
MISSÃO PRESIDENCIAL
A CPI ouviu o banqueiro Daniel Dantas na semana
passada |
A CPI dos Grampos, apesar
de ainda não ter encerrado os trabalhos, já prestou um enorme serviço
ao país. Através dela foi possível implodir alguns pilares
do estado policial que começou a fincar suas bases no coração
da democracia brasileira. Descobriu-se que um policial, um juiz e um promotor
são capazes de formar uma falange de espionagem absolutamente autônoma,
que age como bem entende, por tempo indeterminado e sem prestar contas. O próximo
passo seria identificar todos os responsáveis pela montagem dessa unidade
acima da lei que agiu como se fosse um estado paralelo. O governo, porém,
acha que as investigações foram longe demais. Na semana passada,
emissários do Palácio do Planalto mandaram recados aos integrantes
da comissão e tudo começou estranhamente a mudar de rumo.
Fica assim suspenso um dos depoimentos mais aguardados, o do ministro Mangabeira
Unger, investigado clandestinamente pelo delegado Protógenes Queiroz, que
o acusa de defender os interesses do banqueiro Daniel Dantas.
O
deputado petista Nelson Pelegrino anunciou que pretende apresentar o relatório
final do caso na próxima quinta-feira. A CPI tem prazo legal de funcionamento
até o dia 14 de maio. Por que a pressa? Segundo o parlamentar, não
há mais por que prorrogar os trabalhos, embora ele próprio estranhamente
afirme que não sabe ainda se pedirá ou não o indiciamento
de alguém, isso apesar da gravidade dos documentos que estão em
poder da comissão. Aliás, o petista confidenciou que quer mesmo
é acelerar os trabalhos para tomar posse do cargo para o qual acaba de
ser convidado, o de secretário de Justiça da Bahia. A inflexão
no ímpeto investigativo dos deputados ligados ao governo pôde ser
vista na quarta-feira, quando foi aprovado o requerimento de convocação
de Mangabeira Unger. O líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza,
que nada tem a ver com a comissão, procurou o presidente da CPI, Marcelo
Itagiba, e avisou: "Itagiba, o que você quer? Ou você combina
o jogo conosco ou vai se ferrar".
Fotos Fabio Rodrigues Pozzebom/ABR e Dida
Sampaio/AE  |
XIFÓPAGOS Paulo
Lacerda e Protógenes Queiroz estão no epicentro do escândalo
de espionagem clandestina. Mas a CPI não deve indiciar ninguém |
O governo teme que, a partir
de agora, as investigações se politizem demais. Na semana passada,
o delegado Protógenes Queiroz, que se calou na CPI, voltou a sua rotina
de entrevistas. Em uma delas, confirmou o que já dissera e depois desmentira:
que agiu no âmbito de uma "missão presidencial", tendo
como elo entre ele e o Palácio o ex-diretor da Abin Paulo Lacerda. O que
o delegado diz, como se sabe, pode ser retificado ou ratificado por ele mesmo
a qualquer momento, mas ao governo, tudo indica, não interessa ver essa
parte da história esclarecida.