Edição 1948 . 22 de março de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A casa e a bola

Histórias de Palocci e sua turma e
de
Alckmin e seus estranhos hábitos

Casa e rua são universos opostos, na concepção dos brasileiros, segundo a formulação já clássica do antropólogo Roberto DaMatta. A casa é o lugar do recato, dos cuidados com os filhos, do respeito às normas e da honestidade. A rua é o lugar da esperteza, do trambique, da folga e da lascívia. Isso até a casa, hoje famosa, de dois andares, paredes verdes e 700 metros quadrados de área construída situada no Lago Sul de Brasília. É a casa alugada pelos amigos do ministro da Fazenda, Antonio Palocci (a turma do barulho que o cerca desde os tempos de prefeito de Ribeirão Preto), para suas atividades (profissionais e recreativas) na capital federal. A turma de Ribeirão Preto desembarcou em Brasília para desmentir Roberto DaMatta.

Na casa do Lago Sul circulavam malas e pacotes de dinheiro. Não era como a casa da tradicional moral brasileira, onde mala é para levar a roupa quando se vai viajar e pacote para embalar os presentes nos dias de festinha de aniversário. Na casa da ambígua moral dissecada por DaMatta reina a esposa – não é nem a mulher, é a "esposa". Na casa do Lago Sul reinava Jeany Mary Corner, a famosa recrutadora de recepcionistas de tantos serviços prestados à República.

Não há pessoa mais fina, no atual governo, do que o ministro Palocci. Jeitoso, educado, simpático. Não há quem, como ele, transmita confiabilidade e honradez. No entanto, segundo depoimentos que se acumulam – primeiro de um motorista, agora do caseiro descoberto pelo jornal O Estado de S. Paulo –, ele freqüentava a casa. Não por ocasião das festinhas animadas pelas meninas de Jeany Mary Corner, mas freqüentava. De novo, todo o esforço teórico de Roberto DaMatta vai por água abaixo. Eis alguém que em público – ou seja, na rua – exala virtude. Já na casa... Que será que ele fazia na casa?

Geraldo Alckmin ainda é uma página em branco na política nacional, mas de algo já se pode estar certo: é um candidato que sabe cuidar de seus sapatos. Tal fato se evidenciou no começo do mês, durante a inauguração de uma escola técnica na periferia de São Paulo. Alckmin aventurou-se pelo pátio da escola, e ali, cercado pelos garotos, deu-se o inevitável: apareceu uma bola para ele chutar. Ó meu Deus, até quando? Houve tempo em que martírio de político era a maionese – a maionese com que era homenageado, nos encontros com eleitores, e que tinha de digerir achando muito boa, até se servindo de porção generosa para não decepcionar o anfitrião, e até repetindo. Hoje – ó meu Deus, até quando? – é a bola. Serra, Lula (com muito prazer) – ninguém escapa. Político precisa mostrar sua destreza no trato daquela que o grande Didi, com o respeito que lhe devotava, chamava de Leonor.

Pois foi então que se deu uma cena de antologia. Geraldo Alckmin não hesitou em aplicar dois ou três chutes na bola – mas antes descalçou o pé direito do sapato. O chute foi de meia. De meia! O bom menino faz assim, seguindo a recomendação de mamãe: "Não vá estragar o sapato novo". Será que o sapato era novo? Se era velho, maior ainda o mérito, sob o ponto de vista do sapato: até do velho ele cuida. Mas, do ponto de vista de Leonor, o espanto foi sem dúvida grande. Ela gosta de bons tratos, como os que lhe dispensava o majestoso Didi, fazendo-a voar até o alto e subitamente cair em direção ao gol, naquele movimento que, inspirado nomeador dos fenômenos da bola, ele chamou de "folha-seca". Mas tratá-la bem não significa atacá-la com a fina fábrica de uma meia social. Didi atacava-a de chuteira. Ela gosta de golpes firmes, sem vergonha nem medo de se sujar, como é de rigor nos embates amorosos. Leonor estranhou aquele tipo.

O caseiro Francenildo Santos Costa depunha na CPI do Senado, na quinta-feira, sobre as estripulias que presenciou na casa do Lago Sul, quando chegou a ordem do Supremo Tribunal Federal suspendendo a sessão. O ministro Cezar Peluso acatara um pedido do líder do PT no Senado, Tião Viana, para quem aquele depoimento era "uma ameaça clara da invasão da privacidade do ministro". Segundo Tião Viana, a CPI não pode estar "a serviço da destruição da família".

Qual o efeito de semelhantes decisões do Supremo? À primeira vista, elas vão ao encontro dos interesses do governo, mas pensando bem... No dia anterior, protegido por uma liminar, o publicitário Duda Mendonça recusou-se a responder a todas as perguntas que lhe foram feitas. A conclusão só pode ser a de que está mais carregado de coisas a esconder do que a agenda de Jeany Mary Corner de nomes de políticos e pessoas do governo. No caso da suspensão do depoimento do caseiro, a conclusão é que feitos assombrosos, com alcance que vai além da imaginação, ocorriam na casa do Lago Sul.

A Presidência voltou a ser uma festa para Lula. Não há casa em Brasília, desgraça de ministro ou aflição de marqueteiro que lhe tire a grande curtição que para ele é ser presidente.

 
 
 
 
topovoltar