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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A casa e a bola
Histórias de
Palocci e sua turma e
de Alckmin e seus estranhos
hábitos
Casa e rua são universos
opostos, na concepção dos brasileiros, segundo a formulação
já clássica do antropólogo Roberto DaMatta.
A casa é o lugar do recato, dos cuidados com os filhos, do
respeito às normas e da honestidade. A rua é o lugar
da esperteza, do trambique, da folga e da lascívia. Isso
até a casa, hoje famosa, de dois andares, paredes verdes
e 700 metros quadrados de área construída situada
no Lago Sul de Brasília. É a casa alugada pelos amigos
do ministro da Fazenda, Antonio Palocci (a turma do barulho que
o cerca desde os tempos de prefeito de Ribeirão Preto), para
suas atividades (profissionais e recreativas) na capital federal.
A turma de Ribeirão Preto desembarcou em Brasília
para desmentir Roberto DaMatta.
Na casa do Lago Sul circulavam
malas e pacotes de dinheiro. Não era como a casa da tradicional
moral brasileira, onde mala é para levar a roupa quando se
vai viajar e pacote para embalar os presentes nos dias de festinha
de aniversário. Na casa da ambígua moral dissecada
por DaMatta reina a esposa não é nem a mulher,
é a "esposa". Na casa do Lago Sul reinava Jeany Mary Corner,
a famosa recrutadora de recepcionistas de tantos serviços
prestados à República.
Não há pessoa mais
fina, no atual governo, do que o ministro Palocci. Jeitoso, educado,
simpático. Não há quem, como ele, transmita
confiabilidade e honradez. No entanto, segundo depoimentos que se
acumulam primeiro de um motorista, agora do caseiro descoberto
pelo jornal O Estado de S. Paulo , ele freqüentava
a casa. Não por ocasião das festinhas animadas pelas
meninas de Jeany Mary Corner, mas freqüentava. De novo, todo
o esforço teórico de Roberto DaMatta vai por água
abaixo. Eis alguém que em público ou seja,
na rua exala virtude. Já na casa... Que será
que ele fazia na casa?
Geraldo Alckmin ainda é
uma página em branco na política nacional, mas de
algo já se pode estar certo: é um candidato que sabe
cuidar de seus sapatos. Tal fato se evidenciou no começo
do mês, durante a inauguração de uma escola
técnica na periferia de São Paulo. Alckmin aventurou-se
pelo pátio da escola, e ali, cercado pelos garotos, deu-se
o inevitável: apareceu uma bola para ele chutar. Ó
meu Deus, até quando? Houve tempo em que martírio
de político era a maionese a maionese com que era
homenageado, nos encontros com eleitores, e que tinha de digerir
achando muito boa, até se servindo de porção
generosa para não decepcionar o anfitrião, e até
repetindo. Hoje ó meu Deus, até quando?
é a bola. Serra, Lula (com muito prazer) ninguém
escapa. Político precisa mostrar sua destreza no trato daquela
que o grande Didi, com o respeito que lhe devotava, chamava de Leonor.
Pois foi então que se
deu uma cena de antologia. Geraldo Alckmin não hesitou em
aplicar dois ou três chutes na bola mas antes descalçou
o pé direito do sapato. O chute foi de meia. De meia! O bom
menino faz assim, seguindo a recomendação de mamãe:
"Não vá estragar o sapato novo". Será que o
sapato era novo? Se era velho, maior ainda o mérito, sob
o ponto de vista do sapato: até do velho ele cuida. Mas,
do ponto de vista de Leonor, o espanto foi sem dúvida grande.
Ela gosta de bons tratos, como os que lhe dispensava o majestoso
Didi, fazendo-a voar até o alto e subitamente cair em direção
ao gol, naquele movimento que, inspirado nomeador dos fenômenos
da bola, ele chamou de "folha-seca". Mas tratá-la bem não
significa atacá-la com a fina fábrica de uma meia
social. Didi atacava-a de chuteira. Ela gosta de golpes firmes,
sem vergonha nem medo de se sujar, como é de rigor nos embates
amorosos. Leonor estranhou aquele tipo.
O caseiro Francenildo Santos
Costa depunha na CPI do Senado, na quinta-feira, sobre as estripulias
que presenciou na casa do Lago Sul, quando chegou a ordem do Supremo
Tribunal Federal suspendendo a sessão. O ministro Cezar Peluso
acatara um pedido do líder do PT no Senado, Tião Viana,
para quem aquele depoimento era "uma ameaça clara da invasão
da privacidade do ministro". Segundo Tião Viana, a CPI não
pode estar "a serviço da destruição da família".
Qual o efeito de semelhantes
decisões do Supremo? À primeira vista, elas vão
ao encontro dos interesses do governo, mas pensando bem... No dia
anterior, protegido por uma liminar, o publicitário Duda
Mendonça recusou-se a responder a todas as perguntas que
lhe foram feitas. A conclusão só pode ser a de que
está mais carregado de coisas a esconder do que a agenda
de Jeany Mary Corner de nomes de políticos e pessoas do governo.
No caso da suspensão do depoimento do caseiro, a conclusão
é que feitos assombrosos, com alcance que vai além
da imaginação, ocorriam na casa do Lago Sul.
A Presidência voltou a
ser uma festa para Lula. Não há casa em Brasília,
desgraça de ministro ou aflição de marqueteiro
que lhe tire a grande curtição que para ele é
ser presidente.
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