Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Cinema
Como fazer a coisa certa

O Plano Perfeito é um sensacional filme
de roubo. E é também uma demonstração
de que Spike Lee continua em grande forma


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Os detetives Washington e Chiwetel Ejiofor e, à direita, o ladrão de banco Owen: inteligências notáveis medem forças entre si

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Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

Do soberbo Faça a Coisa Certa ao detestável Elas Me Odeiam, Mas Me Querem – este, de 2004 –, o diretor Spike Lee traçou uma das carreiras mais ciclotímicas de que se tem notícia. No seu melhor, ele é fulminante; quando ele está num de seus pontos baixos, sua raiva o domina, tira sua objetividade e o conduz ao ridículo ou a discursos rebarbativos. Outra característica de Lee é que ele é consistentemente imprevisível: nunca se sabe de antemão em que fase ele está, se a da lucidez ou a da mania. O que é só mais uma razão pela qual O Plano Perfeito (Inside Man, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, é uma surpresa tão grata. Escrito pelo estreante Russell Gewirtz com precisão digna do dramaturgo David Mamet, O Plano Perfeito desmente o título genérico que ganhou em português – até porque há tantos planos em andamento que é impossível determinar qual deles resultará mais bem-sucedido. O plano do detetive Keith Frazier (Denzel Washington), por exemplo, é negociar com os autores de um roubo a banco em Manhattan a libertação dos reféns, e assim sair da geladeira em que foi colocado por causa de uma acusação de corrupção. O plano de Madeline White (Jodie Foster), que transita em altas rodas de influência, é impedir que os assaltantes tirem de dentro do cofre um documento capaz de arruinar o dono do banco (Christopher Plummer) – e que documento é esse nem ela mesma sabe. E o plano dos quatro ladrões, liderados pelo eficiente Dalton Russell (Clive Owen), é misterioso. Montanhas de dinheiro, jóias, papéis: nada do que é visível no interior da agência no coração de Wall Street, em Nova York, parece despertar a atenção deles. Algo ali, porém, deve ser de seu sumo interesse, ou não teria merecido uma organização tão meticulosa.

Filmes medíocres de assalto lidam com generalidades – o refém que passa mal, o outro que tenta ser mais esperto que os criminosos, o ladrão que perde o controle. O Plano Perfeito, porém, lida apenas e tão-somente com especificidades. Primeiro, no conhecimento íntimo e pessoal que Spike Lee tem dos nova-iorquinos e da maneira como eles andam, agem e falam, e que aqui é quase um filme em si mesmo. Da paquera entre um oriental e uma italiana exuberante, na fila do banco, à perua albanesa que aparece com uma sacola cheia de multas de estacionamento – ou a polícia as anula, ou ela não diz o que sabe –, mesmo os tipos e situações mais secundários não soam inventados. Parecem tirados, na hora, do meio da multidão. O Plano Perfeito é deliciosamente específico também nos detalhes do assalto, cujo sucesso consiste em tornar todas essas pessoas tão diferentes que convivem em Nova York numa só – a primeira providência de Dalton é distribuir aos quase cinqüenta reféns macacões e máscaras idênticos aos que ele próprio e sua gangue estão usando, de forma que ninguém mais saiba quem é quem (e vale anotar que só mesmo um ator tão magnético quanto Clive Owen conseguiria impor sua presença com o rosto coberto a maior parte do tempo).

O que há de inimitável em O Plano Perfeito, contudo, são seus protagonistas – três inteligências notáveis, diferentes entre si e dedicadas a superar umas às outras. Comunicar, em meio a uma trama tão complicada, a forma não só como as pessoas raciocinam mas como tentam antecipar o raciocínio alheio é uma tarefa que exige um diretor de estatura no mínimo comparável à de seus personagens. Lee a cumpre com brilho, e dirige seus três excelentes atores principais (além dos ótimos coadjuvantes) com um respeito por seu discernimento que se havia tornado apenas esporádico em seu trabalho. Exemplos assim bem-sucedidos de medição de forças, como em O Fugitivo, Nove Rainhas ou A Trapaça (este de Mamet, o mestre do gênero), são raros, mas O Plano Perfeito não leva mais do que alguns minutos para se incluir na lista.

O mais curioso em O Plano Perfeito é que de todos os filmes de Spike Lee esse é o que menos se parece com um filme de Spike Lee. As tensões raciais e urbanas migraram do centro para a periferia, o trauma do 11 de Setembro não passa de uma lembrança e nem mesmo o fato de o detetive Frazier ser negro é decisivo, para o personagem ou para a trama. Mas logo abaixo dessa superfície está o Lee de sempre (ou melhor, o do período sensacional que terminou com Malcolm X): o observador atento dos Estados Unidos e dos americanos, que faz dessa crônica a riqueza maior de seus filmes. A importância de Lee como inventor do novo cinema negro não pode ser relativizada. Mas, com o cacife abalado por diatribes como A Hora do Show e Elas Me Odeiam, Mas Me Querem, ele faz aqui uma pausa para mostrar que, antes mesmo de ser negro, é cineasta. E dos bons.

 
 
 
 
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