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Cinema Como
fazer a coisa certa O Plano
Perfeito é um sensacional filme
de roubo. E é também uma demonstração de que Spike
Lee continua em grande forma  Isabela
Boscov
Fotos
divulgação
 |  | | Os
detetives Washington e Chiwetel Ejiofor e, à direita, o ladrão de banco
Owen: inteligências notáveis medem forças entre si |
Do
soberbo Faça a Coisa Certa ao detestável Elas Me Odeiam,
Mas Me Querem este, de 2004 , o diretor Spike Lee traçou
uma das carreiras mais ciclotímicas de que se tem notícia. No seu
melhor, ele é fulminante; quando ele está num de seus pontos baixos,
sua raiva o domina, tira sua objetividade e o conduz ao ridículo ou a discursos
rebarbativos. Outra característica de Lee é que ele é consistentemente
imprevisível: nunca se sabe de antemão em que fase ele está,
se a da lucidez ou a da mania. O que é só mais uma razão
pela qual O Plano Perfeito (Inside Man, Estados Unidos, 2006), que
estréia nesta sexta-feira no país, é uma surpresa tão
grata. Escrito pelo estreante Russell Gewirtz com precisão digna do dramaturgo
David Mamet, O Plano Perfeito desmente o título genérico
que ganhou em português até porque há tantos planos
em andamento que é impossível determinar qual deles resultará
mais bem-sucedido. O plano do detetive Keith Frazier (Denzel Washington), por
exemplo, é negociar com os autores de um roubo a banco em Manhattan a libertação
dos reféns, e assim sair da geladeira em que foi colocado por causa de
uma acusação de corrupção. O plano de Madeline White
(Jodie Foster), que transita em altas rodas de influência, é impedir
que os assaltantes tirem de dentro do cofre um documento capaz de arruinar o dono
do banco (Christopher Plummer) e que documento é esse nem ela mesma
sabe. E o plano dos quatro ladrões, liderados pelo eficiente Dalton Russell
(Clive Owen), é misterioso. Montanhas de dinheiro, jóias, papéis:
nada do que é visível no interior da agência no coração
de Wall Street, em Nova York, parece despertar a atenção deles.
Algo ali, porém, deve ser de seu sumo interesse, ou não teria merecido
uma organização tão meticulosa.
Filmes medíocres de assalto lidam com generalidades o refém
que passa mal, o outro que tenta ser mais esperto que os criminosos, o ladrão
que perde o controle. O Plano Perfeito, porém, lida apenas e tão-somente
com especificidades. Primeiro, no conhecimento íntimo e pessoal que Spike
Lee tem dos nova-iorquinos e da maneira como eles andam, agem e falam, e que aqui
é quase um filme em si mesmo. Da paquera entre um oriental e uma italiana
exuberante, na fila do banco, à perua albanesa que aparece com uma sacola
cheia de multas de estacionamento ou a polícia as anula, ou ela
não diz o que sabe , mesmo os tipos e situações mais
secundários não soam inventados. Parecem tirados, na hora, do meio
da multidão. O Plano Perfeito é deliciosamente específico
também nos detalhes do assalto, cujo sucesso consiste em tornar todas essas
pessoas tão diferentes que convivem em Nova York numa só
a primeira providência de Dalton é distribuir aos quase cinqüenta
reféns macacões e máscaras idênticos aos que ele próprio
e sua gangue estão usando, de forma que ninguém mais saiba quem
é quem (e vale anotar que só mesmo um ator tão magnético
quanto Clive Owen conseguiria impor sua presença com o rosto coberto a
maior parte do tempo). O que há
de inimitável em O Plano Perfeito, contudo, são seus protagonistas
três inteligências notáveis, diferentes entre si e dedicadas
a superar umas às outras. Comunicar, em meio a uma trama tão complicada,
a forma não só como as pessoas raciocinam mas como tentam antecipar
o raciocínio alheio é uma tarefa que exige um diretor de estatura
no mínimo comparável à de seus personagens. Lee a cumpre
com brilho, e dirige seus três excelentes atores principais (além
dos ótimos coadjuvantes) com um respeito por seu discernimento que se havia
tornado apenas esporádico em seu trabalho. Exemplos assim bem-sucedidos
de medição de forças, como em O Fugitivo, Nove Rainhas
ou A Trapaça (este de Mamet, o mestre do gênero), são
raros, mas O Plano Perfeito não leva mais do que alguns minutos
para se incluir na lista. O mais curioso
em O Plano Perfeito é que de todos os filmes de Spike Lee esse é
o que menos se parece com um filme de Spike Lee. As tensões raciais e urbanas
migraram do centro para a periferia, o trauma do 11 de Setembro não passa
de uma lembrança e nem mesmo o fato de o detetive Frazier ser negro é
decisivo, para o personagem ou para a trama. Mas logo abaixo dessa superfície
está o Lee de sempre (ou melhor, o do período sensacional que terminou
com Malcolm X): o observador atento dos Estados Unidos e dos americanos,
que faz dessa crônica a riqueza maior de seus filmes. A importância
de Lee como inventor do novo cinema negro não pode ser relativizada. Mas,
com o cacife abalado por diatribes como A Hora do Show e Elas Me Odeiam,
Mas Me Querem, ele faz aqui uma pausa para mostrar que, antes mesmo de ser
negro, é cineasta. E dos bons. |