Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Música
Cordas eternas

A tecnologia de fabricação de violinos
atingiu seu auge nos anos 1700 – época
em que foram criados os Stradivarius


João Gabriel de Lima

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Trecho do livro

A fabricação de instrumentos de arco constitui um caso raro de tecnologia que atingiu seu ápice nos idos de 1700. Nenhum pianista profissional trocaria um Steinway fabricado hoje, seguindo os avanços da engenharia acústica moderna, por um Pleyel do século XIX, com sua sonoridade rala e opaca – por mais que seu teclado tenha sido dedilhado por Liszt ou Chopin. Com os violinos, violas e violoncelos ocorre o contrário. Os virtuoses preferem instrumentos fabricados na cidade italiana de Cremona entre 1698 e 1730, período áureo do luthier Antonio Stradivari, que também assinava Stradivarius. O israelense Itzhak Perlman, o maior violinista vivo, e Maxim Vengerov, russo que é o atual pop star do instrumento, tocam em Stradivarius. A alemã Anne-Sophie Mutter, musa da música de concerto, não gosta que nada se interponha entre ela e seu Stradivarius – por esse motivo, usa vestidos tomara-que-caia desenhados para ela pela grife Dior. O celista franco-chinês Yo-Yo Ma abriu mão da oportunidade de comprar um Stradivarius porque isso causaria um rombo nas finanças da família (essas raridades costumam custar em torno de 1 milhão de dólares). Um mecenas, porém, comprou para ele um violoncelo do mestre cremonense, e hoje Ma usa em seus concertos um Davidov – os Stradivarius em geral são chamados pelo nome do primeiro proprietário e, como os cães de raça, vêm com pedigree.

O que faz de um Stradivarius um Stradivarius? De acordo com o americano Toby Faber, autor de Stradivarius – Cinco Violinos, Um Violoncelo e Três Séculos de Perfeição (Editora Record, 39,90 reais, 278 páginas), trata-se de uma mistura entre fetiche e razões puramente acústicas. Quando Stradivari morreu, em 1737, ele era considerado um grande luthier, mas não maior do que outros que haviam feito nome na mesma época, como Amati e Guarneri. A mística em torno de seus instrumentos começou no fim do século XVIII, quando o italiano Giovanni Viotti, pai da moderna arte do violino, adotou o Stradivarius como sua marca predileta. Viotti era uma espécie de pop star de seu tempo. Circulava entre a nobreza e as celebridades – foi amante de Catarina, a Grande, da Rússia, e era amigo do escritor François-Marie Arouet, o Voltaire. Sua influência transformou o Stradivarius num objeto de desejo. Outro italiano sucedeu a ele no trono dos superviolinistas, o lendário Niccolò Paganini. O genovês de quem se dizia ter pacto com o demônio sentiu na carne – ou na auto-estima – a excelência dos Stradivarius. Ele próprio preferia tocar num violino construído por outro luthier, Guarneri del Gesù. Seu instrumento, ligeiramente mais tosco, era apelidado de "canhão". Um de seus rivais na música era o virtuose polonês Karol Lipinski. Um dia, os dois tiveram a oportunidade de duelar num concerto – e Lipinski, dono de um Stradivarius batizado com o próprio nome, levou a melhor. Paganini curvou-se à excelência do luthier cremonense. Fez mais que isso: comprou um quarteto de cordas fabricado por Stradivari e batizou os instrumentos com seu nome, para valorizá-los. Os quatro "Paganini" passaram de mão em mão e hoje são usados pelo Quarteto de Cordas de Tóquio. Os japoneses pagaram 15 milhões de dólares pelos instrumentos. As histórias do "Lipinski", do "Viotti" e dos "Paganini" são narradas em detalhes no livro de Faber.

A mística do Stradivarius não é, no entanto, apenas fruto das aventuras e lendas que acompanham os instrumentos. Efetivamente, os violinos, violas e violoncelos fabricados pelo luthier cremonense ainda soam melhor do que os similares modernos, na avaliação dos virtuoses que os usam. Como isso é possível? Não se sabe ao certo. Stradivari viveu mais de noventa anos, mas não ensinou a ninguém a totalidade de seus segredos. Ao longo de três séculos seus violinos foram pesados e medidos, e suas proporções exaustivamente estudadas. Recentemente, eles foram esmiuçados de acordo com os mais modernos recursos da ciência. Tudo em vão. A chamada difração de raios X foi eficaz para decifrar a estrutura do DNA, mas teve pouco sucesso em desvendar a química do Stradivarius. Costuma-se atribuir a sonoridade ampla e cheia de nuances ao tratamento da madeira, que teria qualidades acústicas superiores. Uns dizem que o segredo é o verniz, enriquecido com cinzas vulcânicas. Outros defendem que é o fato de a matéria-prima, originária de barcos venezianos, ter ficado anos embebida na água salgada. Não há, no entanto, uma conclusão definitiva. Poucas áreas da ciência acústica evoluíram tanto quanto a tecnologia de fabricação de instrumentos. A exceção são os violinos, violas e violoncelos. Culpa de Antonio Stradivari, que estava na vanguarda tecnológica em 1700 e continua imbatível até hoje.

 

 

Fotos AP
 
 
 
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