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Música Cordas
eternas A tecnologia de fabricação
de violinos atingiu seu auge nos anos 1700 época em que
foram criados os Stradivarius  João
Gabriel de Lima
A fabricação de instrumentos
de arco constitui um caso raro de tecnologia que atingiu seu ápice nos
idos de 1700. Nenhum pianista profissional trocaria um Steinway fabricado hoje,
seguindo os avanços da engenharia acústica moderna, por um Pleyel
do século XIX, com sua sonoridade rala e opaca por mais que seu
teclado tenha sido dedilhado por Liszt ou Chopin. Com os violinos, violas e violoncelos
ocorre o contrário. Os virtuoses preferem instrumentos fabricados na cidade
italiana de Cremona entre 1698 e 1730, período áureo do luthier
Antonio Stradivari, que também assinava Stradivarius. O israelense Itzhak
Perlman, o maior violinista vivo, e Maxim Vengerov, russo que é o atual
pop star do instrumento, tocam em Stradivarius. A alemã Anne-Sophie Mutter,
musa da música de concerto, não gosta que nada se interponha entre
ela e seu Stradivarius por esse motivo, usa vestidos tomara-que-caia desenhados
para ela pela grife Dior. O celista franco-chinês Yo-Yo Ma abriu mão
da oportunidade de comprar um Stradivarius porque isso causaria um rombo nas finanças
da família (essas raridades costumam custar em torno de 1 milhão
de dólares). Um mecenas, porém, comprou para ele um violoncelo do
mestre cremonense, e hoje Ma usa em seus concertos um Davidov os Stradivarius
em geral são chamados pelo nome do primeiro proprietário e, como
os cães de raça, vêm com pedigree.
O que faz de um Stradivarius um Stradivarius? De acordo com o americano Toby Faber,
autor de Stradivarius Cinco Violinos, Um Violoncelo e Três
Séculos de Perfeição (Editora Record, 39,90 reais,
278 páginas), trata-se de uma mistura entre fetiche e razões puramente
acústicas. Quando Stradivari morreu, em 1737, ele era considerado um grande
luthier, mas não maior do que outros que haviam feito nome na mesma época,
como Amati e Guarneri. A mística em torno de seus instrumentos começou
no fim do século XVIII, quando o italiano Giovanni Viotti, pai da moderna
arte do violino, adotou o Stradivarius como sua marca predileta. Viotti era uma
espécie de pop star de seu tempo. Circulava entre a nobreza e as celebridades
foi amante de Catarina, a Grande, da Rússia, e era amigo do escritor
François-Marie Arouet, o Voltaire. Sua influência transformou o Stradivarius
num objeto de desejo. Outro italiano sucedeu a ele no trono dos superviolinistas,
o lendário Niccolò Paganini. O genovês de quem se dizia ter
pacto com o demônio sentiu na carne ou na auto-estima a excelência
dos Stradivarius. Ele próprio preferia tocar num violino construído
por outro luthier, Guarneri del Gesù. Seu instrumento, ligeiramente mais
tosco, era apelidado de "canhão". Um de seus rivais na música era
o virtuose polonês Karol Lipinski. Um dia, os dois tiveram a oportunidade
de duelar num concerto e Lipinski, dono de um Stradivarius batizado com
o próprio nome, levou a melhor. Paganini curvou-se à excelência
do luthier cremonense. Fez mais que isso: comprou um quarteto de cordas fabricado
por Stradivari e batizou os instrumentos com seu nome, para valorizá-los.
Os quatro "Paganini" passaram de mão em mão e hoje são usados
pelo Quarteto de Cordas de Tóquio. Os japoneses pagaram 15 milhões
de dólares pelos instrumentos. As histórias do "Lipinski", do "Viotti"
e dos "Paganini" são narradas em detalhes no livro de Faber.
A mística do Stradivarius não é, no entanto, apenas fruto
das aventuras e lendas que acompanham os instrumentos. Efetivamente, os violinos,
violas e violoncelos fabricados pelo luthier cremonense ainda soam melhor do que
os similares modernos, na avaliação dos virtuoses que os usam. Como
isso é possível? Não se sabe ao certo. Stradivari viveu mais
de noventa anos, mas não ensinou a ninguém a totalidade de seus
segredos. Ao longo de três séculos seus violinos foram pesados e
medidos, e suas proporções exaustivamente estudadas. Recentemente,
eles foram esmiuçados de acordo com os mais modernos recursos da ciência.
Tudo em vão. A chamada difração de raios X foi eficaz para
decifrar a estrutura do DNA, mas teve pouco sucesso em desvendar a química
do Stradivarius. Costuma-se atribuir a sonoridade ampla e cheia de nuances ao
tratamento da madeira, que teria qualidades acústicas superiores. Uns dizem
que o segredo é o verniz, enriquecido com cinzas vulcânicas. Outros
defendem que é o fato de a matéria-prima, originária de barcos
venezianos, ter ficado anos embebida na água salgada. Não há,
no entanto, uma conclusão definitiva. Poucas áreas da ciência
acústica evoluíram tanto quanto a tecnologia de fabricação
de instrumentos. A exceção são os violinos, violas e violoncelos.
Culpa de Antonio Stradivari, que estava na vanguarda tecnológica em 1700
e continua imbatível até hoje. |