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Música
A bossa é a mesma,
mas a conta bancária...
Sergio Mendes e Johnny Alf foram
bossa-novistas pioneiros. Seus
destinos dizem muito sobre o gênero

Sérgio Martins
Sergio Mendes e Johnny Alf compartilham as
origens: ambos são pioneiros da bossa nova. Ao longo dos
anos, contudo, eles colheram frutos muito diferentes em sua profissão.
Mendes, de 65 anos, mora numa casona na Califórnia e já
recebeu até menções em Seinfeld, uma
das séries mais populares na história da TV americana.
Alf, de 76 anos, vive num quarto de hotel no centro de São
Paulo e, para equilibrar as finanças, de vez em quando põe
à venda um de seus bens mais preciosos os discos raros
de 78 rotações que coleciona. No momento em que os
dois lançam álbuns de canções inéditas,
depois de longos intervalos em que tudo o que fizeram foi regravar
e regravar velhos sucessos, o contraste é instrutivo: a história
do "primo pobre" e do "primo rico" da bossa nova é também
a de como o gênero se transformou e de como a indústria
musical o absorveu no Brasil e fora daqui.
Dito sem rodeios, a bossa nova está
muito mais viva no exterior do que no Brasil de hoje. Enquanto aqui
ela é vista como elemento do passado musical, e carrega um
forte gosto de saudade, nos Estados Unidos ela floresce ao menos
de duas maneiras: conserva alguma excitação para artistas
interessados em fazer fusões de estilos e alimenta um nicho
importante da indústria, o das "canções para
relaxar", que os americanos ouvem no carro, enquanto voltam do trabalho,
ou como trilha sonora de fundo. A diferença transparece nos
discos de Alf e Mendes. Em Mais um Som, seu primeiro trabalho
de composições inéditas em 28 anos, Johnny
Alf canta com suavidade e dedilha seu piano elegante na companhia
de um grupo formado por baixo, bateria, guitarra e trompete. É
um álbum bonito, que não se afasta um milímetro
da ortodoxia e que vendeu até agora cerca de 3.000 exemplares
no mercado nacional. Já Timeless, de Sergio Mendes,
mistura bossa e hip hop e conta com a colaboração
de artistas como Stevie Wonder, Erykah Badu e will.i.am (líder
do grupo de rap Black Eyed Peas). O CD estreou em 46º lugar
na parada americana um posto nada desprezível
e é uma lição para artistas que tentam unir
bossa nova a gêneros mais moderninhos, como a música
eletrônica.
Conhecidas essas circunstâncias, e olhando
em retrospecto, talvez se possa dizer que a decisão de ficar
ou sair do Brasil esteve entre as mais momentosas que Alf e Mendes
já tomaram. Para o primeiro, a alternativa se apresentou
nos anos 70, quando a cantora americana Sarah Vaughan visitou o
país. Ela se encantou com a voz e o piano de Alf, moldado
em audições constantes de Chopin e Nat King Cole,
e tentou convencê-lo a se mudar para os Estados Unidos. Marcado
por uma proverbial timidez, ele disse não. A essa altura,
Mendes já havia emigrado fazia algum tempo. Ex-aluno do maestro
Moacir Santos, ele recebera um convite inusitado do governo brasileiro
em 1965: liderar um grupo de bossa-novistas na missão de
promover a MPB entre os americanos. Ele formou o time, viajou e,
ao fim da turnê, enquanto seus companheiros arrumavam as malas
"eles sentiam falta da comidinha caseira", diz , decidiu
ficar. Descobriu uma mina de ouro ao adaptar a bossa nova ao gosto
dos Estados Unidos. Um de seus sucessos é uma versão
de Mas que Nada, de Jorge Ben Jor, cantada por duas vocalistas
num português macarrônico. Ele também recriou
sucessos das paradas dos Beatles aos artistas negros da Motown
com suingue de samba. Desse modo, chegou a apresentar-se
na Casa Branca para os presidentes Lyndon Johnson, Richard Nixon
e Ronald Reagan.
Em 1973, já rico e famoso, Mendes decidiu
diversificar seus negócios. Ele tentou abrir no Brasil uma
filial da KFC, rede americana de lanchonetes especializada em frango
frito. Os militares, então no poder, encrencaram com o coronel
Sanders, velhinho que é símbolo da KFC. "Eles diziam
que pegava mal o povo falar: 'Vamos comer a galinha do coronel'",
conta Mendes, que então mudou o nome do personagem para "vovô
Sanders". Nem assim o negócio emplacou (só nos anos
90 a KFC faria uma nova incursão no Brasil, novamente sem
sucesso), e desde então Mendes se dedica exclusivamente à
música farejando os lucros como poucos nessa área.
Mendes é tão polêmico
quanto Alf é tímido. Elis Regina o tachava de "mau-caráter",
e músicos que tocaram com ele nas décadas de 50 e
60 o acusaram de minar as investidas de colegas no exterior. Um
exemplo: a menção aos arranjos do pianista João
Donato na canção The Frog, que Mendes gravou
no disco Look Around (1967), teria sido omitida propositadamente
dos créditos. Mendes também se envolveu numa rinha
com Vinicius de Moraes (que discordou do arranjo de uma música)
e o teria acertado com um direto no queixo. Ele nega essas histórias.
"Há tantas lendas sobre mim que um dia escreverei um livro
com minha versão dos fatos", diz. Alf e Mendes nunca tiveram
muito contato até porque, no auge da bossa nova, Alf
saiu do Rio de Janeiro, epicentro do movimento, e foi ganhar a vida
nas casas noturnas de São Paulo. Durante algum tempo, antigos
amigos como Tom Jobim, que o apelidou de "Genialf", o acompanharam.
João Gilberto chegou a pegar um ônibus para vê-lo
tocar nos palcos paulistanos e voltar na manhã seguinte.
Hoje, Alf perdeu contato com a velha-guarda. "Nem sei se o João
Gilberto mora no Brasil. Ele nunca mais me ligou", diz.
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O primo rico...
Oscar Cabral
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Sergio Mendes
DISCOS LANÇADOS:
38
SHOWS: 80 por ano, com
cachê equivalente a 70 000 reais
PRODUÇÃO DE SEU
CD MAIS RECENTE: consumiu o equivalente a 700
000 reais, o custo de um disco de primeira linha
nos Estados Unidos, e foi lançado por um selo
prestigiado de jazz, o Concord. Tem participações
de artistas conhecidos, como Stevie Wonder
VENDAGENS DO CD: estreou
no 46º lugar na parada americana e já vendeu
80 000 cópias
COMO VIVE: numa mansão
em Woodland Hills, região nobre do estado americano
da Califórnia
...e o primo pobre da bossa
nova
Lailson Santos
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Johnny Alf
DISCOS LANÇADOS:
15
SHOWS: 50 por ano, com
cachê de 5 000 reais, em média
PRODUÇÃO DE SEU
CD MAIS RECENTE: consumiu cerca de 100 000 reais,
o custo de um disco médio no Brasil, e foi lançado
por uma gravadora de pequeno porte, a Guanabara. Não
tem participações especiais
VENDAGENS DO CD: 3 000
cópias
COMO VIVE: num hotel modesto
no Largo do Arouche, no centro de São Paulo
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