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Livros Ácido
com açúcar Nova biografia
de José de Alencar mostra toda a agressividade do célebre
escritor romântico  Jerônimo
Teixeira Montagem
so bre ilustração de Atilio, com foto de Agência Iconográfica
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romancista José de Alencar: índios idealizados e afrontas ao imperador |
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O título
da nova biografia de José de Alencar que acaba de chegar às livrarias
vale por uma declaração de intenções: O Inimigo
do Rei (Globo; 432 páginas; 45 reais). Escrito pelo jornalista
cearense Lira Neto, o livro enfatiza o aspecto mais incendiário do biografado,
um escritor que viveu às turras com o meio político e cultural de
seu tempo e, em particular, com o imperador dom Pedro II. Nada disso é
novidade. Biografias anteriores, como as de Raimundo de Menezes (1965) e Raimundo
Magalhães Jr. (1971), já descreviam a personalidade caprichosa e
agressiva do autor dos maiores romances do romantismo brasileiro. Embora O
Inimigo do Rei não apresente um "novo" Alencar, é uma leitura
útil e agradável para o leitor menos familiarizado com os meandros
da vida literária no século XIX. Nos bancos escolares, a imagem
do autor de Lucíola muitas vezes é purgada de todo ácido,
para conservar apenas o açúcar de seus folhetins. O personagem que
desponta da biografia é mais interessante. Escritor engajado e combativo
que criava índios idealizados, monarquista convicto que vivia atacando
o imperador, o contraditório Alencar é, em certa medida, uma figura
representativa de alguns impasses e limitações que até hoje
assombram o intelectual brasileiro como a eterna ambigüidade entre
a independência de opinião e a cooptação pelo Estado.
Nascido em uma fazenda cearense, em
1829, Alencar era o filho mais velho do padre José Martiniano e da prima
deste, Ana Josefina. Desrespeitando o celibato, o padre teve oito filhos. Também
foi um consumado agitador político, sempre ligado ao Partido Liberal. Os
liberais, aliás, jamais perdoariam o primogênito do ilustre padre
por ter se bandeado para o Partido Conservador. Alguns textos políticos
citados por Lira Neto mostram que o escritor tinha uma certa percepção
das insuficiências do sistema bipartidário do império. Mas
sua opção pelos conservadores parece ter sido puro casuísmo.
Em 1861, os liberais cearenses não tinham a mínima chance de conseguir
cadeiras na Câmara. Alencar, portanto, virou a casaca e se elegeu
deputado. Sua vida literária
também correu sempre sob o signo da polêmica. O primeiro enfrentamento
com o imperador deu-se no campo das letras, em 1856. O escritor e diplomata Gonçalves
de Magalhães acabava de lançar um longo poema de tema indígena,
A Confederação dos Tamoios. A obra ganhou aprovação
oficial do Império: dom Pedro II encontrou ali uma espécie de fundação
literária de sua jovem nação, uma obra que seria para o Brasil
o que Os Lusíadas, de Camões, representava para Portugal.
Alencar contrariou a aclamação subserviente que o poema de Magalhães
recebeu: em uma série de artigos assinados com pseudônimo no Diário
do Rio de Janeiro, acusou A Confederação de ser uma obra
frouxa demais para levar a identidade nacional nas costas (e estava certo). O
próprio dom Pedro sairia em defesa de Magalhães, em um artigo de
jornal também assinado com pseudônimo.
A ousadia de afrontar o acanhado sistema literário da corte é sem
dúvida admirável. Anos depois, em 1867, Alencar ainda teria o desplante
de recusar uma comenda do imperador. Mas, em pelo menos uma ocasião, o
escritor também buscou a proteção oficial, dedicando a peça
de teatro O Demônio Familiar à imperatriz Teresa Cristina.
Embora tenha uma evidente simpatia pelo seu biografado, Lira Neto não deixa
de revelar os momentos mais mesquinhos do criador de modelos de nobreza como Peri,
o herói indígena de O Guarani. Consta que, como deputado,
Alencar manobrou para cortar a subvenção oficial que sustentava
a companhia de teatro de João Caetano tudo porque o ator se recusou
a montar uma peça sua, O Jesuíta. Na tribuna da Câmara,
Alencar defendia as piores causas. Antiabolicionista feroz, fez oposição
vigorosa à Lei do Ventre Livre, que a partir de 1871 garantiu a liberdade
aos filhos de escravos. A leitura
da biografia deixa às vezes a impressão de que o imodesto Alencar
queria tudo ao mesmo tempo: desejava afrontar o imperador e ser aclamado pelo
Império. No fim de sua vida morreria de tuberculose com apenas 48
anos , ele andava amargo, dizendo-se vítima de uma "conspiração
do silêncio". Inseguro, perguntava a amigos como Machado de Assis se sua
obra ficaria para a posteridade. A resposta à pergunta é positiva.
De Joaquim Nabuco aos modernistas, sucessivas gerações espinafraram
a literatura de Alencar, mas sua vitalidade resiste. "Não é preciso
ser muito inteligente para perceber as limitações de Alencar. Mas
ele é um escritor bem mais interessante do que parece à primeira
vista. Basta ver seu esforço para ampliar os recursos expressivos do português",
diz João Cezar de Castro Rocha, professor da Universidade Estadual do Rio
de Janeiro e autor de Literatura e Cordialidade, um estudo sobre a polêmica
da Confederação dos Tamoios. Alencar sempre se bateu contra
os puristas (que até hoje vicejam por aí) para permitir que a língua
portuguesa se enriquecesse incorporando palavras estrangeiras (fossem elas do
francês ou do tupi). A exuberância lingüística de obras
como Iracema talvez pareça excessiva ao ouvido do leitor de hoje
mas há beleza nesse excesso. José de Alencar, o político
reacionário, foi um romancista inovador.
Tacape romântico A
literatura, os costumes, a política do século XIX nada escapava
à crítica de José de Alencar
A
vaidade feminina "Imagine-se a posição desgraçada
de um homem que, tendo-se casado, leva para casa uma mulher toda falsificada.
Quando a cabeleira, o olho de vidro, os dentes de porcelana, o peito de algodão,
as anquinhas se forem arrumando sobre o toilete, quem poderá avaliar a
tristíssima posição dessa infeliz vítima do progresso
e da indústria humana?" Os
partidos políticos "Os nossos partidos, força é confessá-lo,
nunca tiveram princípios bem pronunciados"
A Confederação dos Tamoios,
de Gonçalves de Magalhães "O poeta no seu poema descuidou-se
inteiramente da forma. (...) Há no seu poema um grande abuso de hiatos
e um desalinho de frase, que muitas vezes ofende a eufonia e doçura de
nossa língua; tenho encontrado em seus versos defeitos de estilo e dicção,
que um simples escritor de prosa tem todo o cuidado de evitar para não
quebrar a harmonia das palavras" As
viagens de dom Pedro II "Quando a voz dos ministros e a voz de seus amigos
procuram abafar, com flores de eloqüência, e às vezes com o
riso e a argúcia, o brado da consciência pública, aquele que
devia ter os olhos sobre nós contempla a grande catedral, maravilha de
Milão, e talvez conte uma por uma as mil estátuas que adornam a
suntuosa fachada" | | |