Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Ácido com açúcar

Nova biografia de José de Alencar
mostra toda a agressividade do
célebre escritor romântico


Jerônimo Teixeira

 

Montagem so bre ilustração de Atilio, com foto de Agência Iconográfica
O romancista José de Alencar: índios idealizados e afrontas ao imperador

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Trecho do livro

O título da nova biografia de José de Alencar que acaba de chegar às livrarias vale por uma declaração de intenções: O Inimigo do Rei (Globo; 432 páginas; 45 reais). Escrito pelo jornalista cearense Lira Neto, o livro enfatiza o aspecto mais incendiário do biografado, um escritor que viveu às turras com o meio político e cultural de seu tempo – e, em particular, com o imperador dom Pedro II. Nada disso é novidade. Biografias anteriores, como as de Raimundo de Menezes (1965) e Raimundo Magalhães Jr. (1971), já descreviam a personalidade caprichosa e agressiva do autor dos maiores romances do romantismo brasileiro. Embora O Inimigo do Rei não apresente um "novo" Alencar, é uma leitura útil e agradável para o leitor menos familiarizado com os meandros da vida literária no século XIX. Nos bancos escolares, a imagem do autor de Lucíola muitas vezes é purgada de todo ácido, para conservar apenas o açúcar de seus folhetins. O personagem que desponta da biografia é mais interessante. Escritor engajado e combativo que criava índios idealizados, monarquista convicto que vivia atacando o imperador, o contraditório Alencar é, em certa medida, uma figura representativa de alguns impasses e limitações que até hoje assombram o intelectual brasileiro – como a eterna ambigüidade entre a independência de opinião e a cooptação pelo Estado.

Nascido em uma fazenda cearense, em 1829, Alencar era o filho mais velho do padre José Martiniano e da prima deste, Ana Josefina. Desrespeitando o celibato, o padre teve oito filhos. Também foi um consumado agitador político, sempre ligado ao Partido Liberal. Os liberais, aliás, jamais perdoariam o primogênito do ilustre padre por ter se bandeado para o Partido Conservador. Alguns textos políticos citados por Lira Neto mostram que o escritor tinha uma certa percepção das insuficiências do sistema bipartidário do império. Mas sua opção pelos conservadores parece ter sido puro casuísmo. Em 1861, os liberais cearenses não tinham a mínima chance de conseguir cadeiras na Câmara. Alencar, portanto, virou a casaca – e se elegeu deputado.

Sua vida literária também correu sempre sob o signo da polêmica. O primeiro enfrentamento com o imperador deu-se no campo das letras, em 1856. O escritor e diplomata Gonçalves de Magalhães acabava de lançar um longo poema de tema indígena, A Confederação dos Tamoios. A obra ganhou aprovação oficial do Império: dom Pedro II encontrou ali uma espécie de fundação literária de sua jovem nação, uma obra que seria para o Brasil o que Os Lusíadas, de Camões, representava para Portugal. Alencar contrariou a aclamação subserviente que o poema de Magalhães recebeu: em uma série de artigos assinados com pseudônimo no Diário do Rio de Janeiro, acusou A Confederação de ser uma obra frouxa demais para levar a identidade nacional nas costas (e estava certo). O próprio dom Pedro sairia em defesa de Magalhães, em um artigo de jornal também assinado com pseudônimo.

A ousadia de afrontar o acanhado sistema literário da corte é sem dúvida admirável. Anos depois, em 1867, Alencar ainda teria o desplante de recusar uma comenda do imperador. Mas, em pelo menos uma ocasião, o escritor também buscou a proteção oficial, dedicando a peça de teatro O Demônio Familiar à imperatriz Teresa Cristina. Embora tenha uma evidente simpatia pelo seu biografado, Lira Neto não deixa de revelar os momentos mais mesquinhos do criador de modelos de nobreza como Peri, o herói indígena de O Guarani. Consta que, como deputado, Alencar manobrou para cortar a subvenção oficial que sustentava a companhia de teatro de João Caetano – tudo porque o ator se recusou a montar uma peça sua, O Jesuíta. Na tribuna da Câmara, Alencar defendia as piores causas. Antiabolicionista feroz, fez oposição vigorosa à Lei do Ventre Livre, que a partir de 1871 garantiu a liberdade aos filhos de escravos.

A leitura da biografia deixa às vezes a impressão de que o imodesto Alencar queria tudo ao mesmo tempo: desejava afrontar o imperador e ser aclamado pelo Império. No fim de sua vida – morreria de tuberculose com apenas 48 anos –, ele andava amargo, dizendo-se vítima de uma "conspiração do silêncio". Inseguro, perguntava a amigos como Machado de Assis se sua obra ficaria para a posteridade. A resposta à pergunta é positiva. De Joaquim Nabuco aos modernistas, sucessivas gerações espinafraram a literatura de Alencar, mas sua vitalidade resiste. "Não é preciso ser muito inteligente para perceber as limitações de Alencar. Mas ele é um escritor bem mais interessante do que parece à primeira vista. Basta ver seu esforço para ampliar os recursos expressivos do português", diz João Cezar de Castro Rocha, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e autor de Literatura e Cordialidade, um estudo sobre a polêmica da Confederação dos Tamoios. Alencar sempre se bateu contra os puristas (que até hoje vicejam por aí) para permitir que a língua portuguesa se enriquecesse incorporando palavras estrangeiras (fossem elas do francês ou do tupi). A exuberância lingüística de obras como Iracema talvez pareça excessiva ao ouvido do leitor de hoje – mas há beleza nesse excesso. José de Alencar, o político reacionário, foi um romancista inovador.

 

Tacape romântico

A literatura, os costumes, a política do século XIX – nada escapava à crítica de José de Alencar

A vaidade feminina
"Imagine-se a posição desgraçada de um homem que, tendo-se casado, leva para casa uma mulher toda falsificada. Quando a cabeleira, o olho de vidro, os dentes de porcelana, o peito de algodão, as anquinhas se forem arrumando sobre o toilete, quem poderá avaliar a tristíssima posição dessa infeliz vítima do progresso e da indústria humana?"

Os partidos políticos
"Os nossos partidos, força é confessá-lo, nunca tiveram princípios bem pronunciados"  

A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães
"O poeta no seu poema descuidou-se inteiramente da forma. (...) Há no seu poema um grande abuso de hiatos e um desalinho de frase, que muitas vezes ofende a eufonia e doçura de nossa língua; tenho encontrado em seus versos defeitos de estilo e dicção, que um simples escritor de prosa tem todo o cuidado de evitar para não quebrar a harmonia das palavras"  

As viagens de dom Pedro II
"Quando a voz dos ministros e a voz de seus amigos procuram abafar, com flores de eloqüência, e às vezes com o riso e a argúcia, o brado da consciência pública, aquele que devia ter os olhos sobre nós contempla a grande catedral, maravilha de Milão, e talvez conte uma por uma as mil estátuas que adornam a suntuosa fachada"

 
 
 
 
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