Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Táxi e palanque

A Record usa o personagem-motorista de uma
de suas novelas para fazer autopropaganda


Marcelo Marthe


Divulgação
Lucélia, com Padilha (à dir.): "Obrigado, meu Deus!"

Autor de Cidadão Brasileiro, nova novela da Rede Record, Lauro César Muniz espantou-se ao ser convidado para atuar em Prova de Amor, outro folhetim da casa, como garoto-propaganda de sua própria trama, que estava para estrear. "Achei que era brincadeira. Confesso que nunca vi nada igual", diz o veterano noveleiro. De fato, a Record tem investido numa forma insólita de autopromoção. Pertencente ao núcleo pobre de Prova de Amor, o taxista Padilha (André Mattos) tem como principal função fazer merchandising dos programas da emissora. O personagem não possui um fio de verossimilhança: como se fosse o único taxista do Rio de Janeiro, já transportou do vilão à mocinha. E também presta serviços terceirizados, por assim dizer. Logo nas primeiras semanas da novela, a modelo e apresentadora Ana Hickmann entrou em cena para falar de seu programa durante uma corrida fictícia com o motorista. Nos últimos tempos, o táxi do Padilha virou uma verdadeira central de divulgação de Cidadão Brasileiro. Na semana que antecedeu a estréia do folhetim, ele carregou três de seus protagonistas – as atrizes Lucélia Santos e Paloma Duarte e o ator Floriano Peixoto. Na segunda passada, quando a novela entrou no ar, foi a vez de Muniz. "Obrigado, meu Deus!", exulta Padilha toda vez que dá carona a uma celebridade. Um bordão que é a cara do canal.

Camila Maia/Ag. O Globo
Lauro César Muniz: ele achou que era brincadeira


Com Padilha ao volante, Prova de Amor se transforma numa espécie de talk-show em que o taxista faz as vezes de entrevistador. O roteiro é sempre igual. Primeiro, o taxista se derrete em elogios aos trabalhos mais famosos dos artistas. Em seguida, ele e seus passageiros comentam como é importante haver mais de uma emissora produzindo novelas no Brasil para enfrentar um "concorrente poderoso" – a Rede Globo, é claro.

Prova de Amor atinge 19 pontos de média no ibope, um feito para a Record, e a rede procura tirar proveito disso para emplacar Cidadão Brasileiro. O novo folhetim vai ao ar logo depois do outro e teve seus índices favorecidos por isso – foi a melhor média de estréia já registrada por uma novela da Record, 15 pontos. Dentro da lógica de explorar ao máximo a grade de programação, o merchandising faz sentido. A questão é o exagero e a cara-de-pau. "As viagens do Padilha são um corpo estranho na trama. É grande o risco de uma coisa desse tipo repelir o espectador", diz um autor de novelas. Na Globo, é regra que as inserções desse tipo não interfiram no andamento da história e que sua duração não ultrapasse dois minutos. O merchandising da Record chega a durar quase seis – e o Padilha não tem nada de sutil.

 
 
 
 
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