Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Educação
Será que funciona?

Cantigas de roda ganham versões
politicamente corretas em que as
menções a crueldade são suprimidas


Monica Weinberg


Fabiano Accorsi
Colégio São Luís, em São Paulo: eles cantam Não Atire o Pau no Gato

Há um novo fenômeno musical em curso nas escolas brasileiras: as crianças estão aprendendo versões adaptadas das velhas cantigas de roda. O que chama atenção nessas músicas são as letras politicamente corretas, nas quais personagens do folclore nacional deixam de ser assustadores, animais são reverenciados e o desfecho das histórias cantadas é invariavelmente feliz. Um exemplo: o tradicional Atirei o Pau no Gato passou por uma metamorfose que o transformou em Não Atire o Pau no Gato. A idéia central da nova versão está sintetizada na última frase da cantiga – "Não devemos maltratar os animais". Outros clássicos desse repertório são o Boi da Cara Preta – que se tornou Boi do Piauí – e O Cravo e a Rosa, que ganhou uma estrofe segundo a qual o cravo que protagoniza a história termina curado, ao contrário do que diz o texto original (veja as letras na pág. ao lado). Adaptações na letra de músicas folclóricas sempre ocorreram – no Brasil e no resto do mundo. O que merece atenção nesse caso é o fato de as novas versões terem passado a fazer parte do currículo oficial em escolas brasileiras – e ainda por cima serem apresentadas às crianças como mais corretas do que as músicas originais. Daí a polêmica em torno do assunto.

Um dos argumentos mais usados pelas escolas para ensinar as novas letras é que elas têm função educativa. Por essa razão, muitas vezes são apresentadas aos estudantes ao lado da versão original, com o objetivo de enfatizar a diferença entre as duas e, ao final, fazê-los concluir que a canção politicamente correta traz exemplos mais positivos a ser seguidos. Sobre o Não Atire o Pau no Gato diz-se que a letra estimula os estudantes a desenvolver um senso de "responsabilidade ecológica". O Boi da Cara Preta tornou-se "do Piauí" para soar menos assustador. Os professores também estão deixando de cantar o velho "Cachorrinho está latindo lá no fundo do quintal / Cala a boca, cachorrinho / Deixa o meu benzinho entrar" para colocar em seu lugar uma versão em que não se pede ao cão para "calar a boca" – e sim "ficar quieto". A razão para tal mudança? Enfatizar a idéia de que homens e animais devem ter uma convivência pacífica. Uma das escolas que optaram por colocar as novas cantigas nas aulas de música foi o Colégio São Luís, de São Paulo – a pedido dos pais. A reivindicação tomava como base o seguinte receio: as letras originais estimulariam o "medo" e o "lado violento" das crianças. "Comparamos as duas versões, para que os alunos aprendam a discernir o certo do errado", diz a coordenadora Eliane Marques Costa.

Os críticos apontam pelo menos dois motivos para repudiar o novo movimento musical. O primeiro é que, ao arbitrar sobre o folclore, ele provoca um empobrecimento cultural. Segundo a literatura especializada, há registro da presença de canções infantis brasileiras protagonizadas por seres assustadores desde o século XVII. As cantigas de roda em questão são a expressão de tradições antigas e funcionam como o espelho da época em que surgiram. Espera-se até que, ao longo dos séculos, adquiram novos coloridos regionais e tenham suas letras pouco a pouco alteradas. O mesmo ocorreu com contos de fada como Chapeuzinho Vermelho, escrito no século XVII pelo francês Charles Perrault, que ganhou inúmeras versões. Tanto o caso das cantigas de roda como o dos contos de fada ilustram a dinâmica da tradição oral. O que os difere, segundo os especialistas, é um ponto básico: enquanto os contos mantiveram em sua essência as ambigüidades e os conflitos típicos da espécie humana, as novas versões para as cantigas de roda são assépticas e desprovidas de emoção. Pior ainda: elas são apresentadas, de forma arbitrária, como a expressão de um ideal de comportamento. "O fato de uma meia dúzia de intelectuais estipular o que é certo ou errado no caso das cantigas de roda contém dois problemas: é autoritário e leva a uma visão caolha do ser humano", resume o filósofo Roberto Romano.

A outra ressalva dos críticos da leva de cantigas politicamente corretas é que ela parte de um pressuposto equivocado: que as crianças são influenciadas pela letra das músicas. Estudos sobre o assunto indicam justamente o contrário: que o que mais atrai as crianças nas cantigas de roda do mundo inteiro são o ritmo e as brincadeiras que se originam a partir delas – e não o significado da letra. Foi o que constatou uma pesquisa conduzida pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, que perguntou a 3.000 crianças o que elas concluíam depois de escutar tradicionais cantigas de roda cujos personagens centrais eram seres assustadores: 83% responderam que nem sequer prestavam atenção à letra. Diz a professora Lydia Hortélio, há trinta anos dedicada à pesquisa sobre canções infantis brasileiras: "Nunca se teve notícia de uma criança que maltratou um gato porque aprendeu a cantar Atirei o Pau no Gato".

 

 
 
 
 
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