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Educação
Será que funciona?
Cantigas de roda ganham versões
politicamente corretas em que as
menções a crueldade são suprimidas

Monica Weinberg
Fabiano Accorsi
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| Colégio São Luís, em São Paulo: eles cantam
Não Atire o Pau no Gato |
Há um novo fenômeno
musical em curso nas escolas brasileiras: as crianças estão
aprendendo versões adaptadas das velhas cantigas de roda.
O que chama atenção nessas músicas são
as letras politicamente corretas, nas quais personagens do folclore
nacional deixam de ser assustadores, animais são reverenciados
e o desfecho das histórias cantadas é invariavelmente
feliz. Um exemplo: o tradicional Atirei o Pau no Gato passou
por uma metamorfose que o transformou em Não Atire o Pau
no Gato. A idéia central da nova versão está
sintetizada na última frase da cantiga "Não
devemos maltratar os animais". Outros clássicos desse repertório
são o Boi da Cara Preta que se tornou Boi
do Piauí e O Cravo e a Rosa, que ganhou
uma estrofe segundo a qual o cravo que protagoniza a história
termina curado, ao contrário do que diz o texto original
(veja as letras na pág. ao lado). Adaptações
na letra de músicas folclóricas sempre ocorreram
no Brasil e no resto do mundo. O que merece atenção
nesse caso é o fato de as novas versões terem passado
a fazer parte do currículo oficial em escolas brasileiras
e ainda por cima serem apresentadas às crianças
como mais corretas do que as músicas originais. Daí
a polêmica em torno do assunto.
Um dos argumentos mais usados
pelas escolas para ensinar as novas letras é que elas têm
função educativa. Por essa razão, muitas vezes
são apresentadas aos estudantes ao lado da versão
original, com o objetivo de enfatizar a diferença entre as
duas e, ao final, fazê-los concluir que a canção
politicamente correta traz exemplos mais positivos a ser seguidos.
Sobre o Não Atire o Pau no Gato diz-se que a letra
estimula os estudantes a desenvolver um senso de "responsabilidade
ecológica". O Boi da Cara Preta tornou-se "do Piauí"
para soar menos assustador. Os professores também estão
deixando de cantar o velho "Cachorrinho está latindo lá
no fundo do quintal / Cala a boca, cachorrinho / Deixa o meu benzinho
entrar" para colocar em seu lugar uma versão em que não
se pede ao cão para "calar a boca" e sim "ficar quieto".
A razão para tal mudança? Enfatizar a idéia
de que homens e animais devem ter uma convivência pacífica.
Uma das escolas que optaram por colocar as novas cantigas nas aulas
de música foi o Colégio São Luís, de
São Paulo a pedido dos pais. A reivindicação
tomava como base o seguinte receio: as letras originais estimulariam
o "medo" e o "lado violento" das crianças. "Comparamos as
duas versões, para que os alunos aprendam a discernir o certo
do errado", diz a coordenadora Eliane Marques Costa.
Os críticos apontam pelo
menos dois motivos para repudiar o novo movimento musical. O primeiro
é que, ao arbitrar sobre o folclore, ele provoca um empobrecimento
cultural. Segundo a literatura especializada, há registro
da presença de canções infantis brasileiras
protagonizadas por seres assustadores desde o século XVII.
As cantigas de roda em questão são a expressão
de tradições antigas e funcionam como o espelho da
época em que surgiram. Espera-se até que, ao longo
dos séculos, adquiram novos coloridos regionais e tenham
suas letras pouco a pouco alteradas. O mesmo ocorreu com contos
de fada como Chapeuzinho Vermelho, escrito no século
XVII pelo francês Charles Perrault, que ganhou inúmeras
versões. Tanto o caso das cantigas de roda como o dos contos
de fada ilustram a dinâmica da tradição oral.
O que os difere, segundo os especialistas, é um ponto básico:
enquanto os contos mantiveram em sua essência as ambigüidades
e os conflitos típicos da espécie humana, as novas
versões para as cantigas de roda são assépticas
e desprovidas de emoção. Pior ainda: elas são
apresentadas, de forma arbitrária, como a expressão
de um ideal de comportamento. "O fato de uma meia dúzia de
intelectuais estipular o que é certo ou errado no caso das
cantigas de roda contém dois problemas: é autoritário
e leva a uma visão caolha do ser humano", resume o filósofo
Roberto Romano.
A outra ressalva dos críticos
da leva de cantigas politicamente corretas é que ela parte
de um pressuposto equivocado: que as crianças são
influenciadas pela letra das músicas. Estudos sobre o assunto
indicam justamente o contrário: que o que mais atrai as crianças
nas cantigas de roda do mundo inteiro são o ritmo e as brincadeiras
que se originam a partir delas e não o significado
da letra. Foi o que constatou uma pesquisa conduzida pela Universidade
de Illinois, nos Estados Unidos, que perguntou a 3.000 crianças
o que elas concluíam depois de escutar tradicionais cantigas
de roda cujos personagens centrais eram seres assustadores: 83%
responderam que nem sequer prestavam atenção à
letra. Diz a professora Lydia Hortélio, há trinta
anos dedicada à pesquisa sobre canções infantis
brasileiras: "Nunca se teve notícia de uma criança
que maltratou um gato porque aprendeu a cantar Atirei o Pau no
Gato".

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