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POR QUE FIGUEIREDO NÃO
PASSOU A FAIXA A SARNEY
Orlando Brito
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| Sarney torna-se presidente, em
1985: veredicto de Leitão de Abreu |
"Jantávamos
na embaixada de Portugal, com o Presidente Mário
Soares, Ulysses Guimarães, penso que o deputado
Pimenta da Veiga (PMDB-MG) e outros políticos,
quando chegou a má notícia: Tancredo tivera
que ser internado em caráter de urgência
no Hospital de Base de Brasília. Para lá
rumamos todos.
(...) Em uma roda,
conversavam, entre outros, Sarney, Ulysses, Fragelli
e o general Leônidas. Sarney dizia que não
pretendia assumir, que tinha dúvidas sobre quem
deveria suceder Tancredo durante o impedimento, que
todos imaginavam temporário. Àquela altura,
Afonso Arinos, constitucionalista de peso, havia declarado
pelos meios de comunicação seu entendimento
de que correspondia ao Vice-Presidente, e não
ao presidente da Câmara, isto é, a Ulysses,
assumir a interinidade.
Em certo momento,
creio que foi Ulysses quem disse:
Vamos conversar
com o professor Leitão de Abreu para tomar uma
decisão.
(...) Passava
da meia-noite, e aparentemente o dr. Leitão de
Abreu se recolhera. Esperamos bom tempo até que
viesse ter conosco, mas ele surgiu na sala trajando
paletó, gravata e colete. Colocada a questão,
continuavam as dúvidas. Recordei-me do livro
de Afonso Arinos, Rodrigues Alves: Apogeu e Declínio
do Parlamentarismo, no qual há referências
a situação semelhante, quando o Presidente
Rodrigues Alves, que governara de 1902 a 1906, não
pôde tomar posse do segundo mandato, em 1918,
abatido pela gripe espanhola. O vice Delfim Moreira
assumiu e tornou-se Presidente efetivo dois meses depois,
com a morte de Rodrigues Alves. A biblioteca do professor
Leitão, porém, já estava encaixotada,
não poderíamos consultar o livro. Havia
disponível apenas um exemplar da Constituição.
Foi lido com cuidado por todos nós. O general
Leônidas disse que não era jurista e acataria
qualquer decisão. Leitão de Abreu parecia
pender para a interpretação que favorecia
o presidente da Câmara como sucessor constitucional,
posto que ainda não ocorrera a posse do vice.
Ulysses Guimarães, no entanto, secundado pelo
presidente do Senado, alinhou-se com a tese de Arinos
e convenceu o professor Leitão da validade de
sua exegese. O ministro do Exército e eu ficamos
a ouvi-los, sem credenciais para discutir o mérito.
A certa altura alguém perguntou:
E a faixa,
o Presidente Figueiredo vai transmiti-la?
O chefe da Casa
Civil redargüiu com firmeza:
Presidente
só transmite faixa a outro Presidente.
Assunto encerrado.
Está aí
a verdadeira razão que levou o Presidente Figueiredo
a não transmitir o cargo e a faixa
a Sarney. Diferentemente do que diz a lenda, segundo
a qual Figueiredo 'saiu pelos fundos do palácio'
para não passar a faixa porque não suportava
Sarney, houve uma discussão prévia a respeito
do assunto com o chefe da Casa Civil e renomado jurista
Leitão de Abreu, em que se levantou uma questão
constitucional que incluía outra, de protocolo.
Figueiredo podia, efetivamente, não tolerar Sarney,
a quem não perdoava a deserção
do PDS, mas a realidade dos fatos é a que agora
descrevo."
A DERROTA PARA
JÂNIO NA ELEIÇÃO
PARA PREFEITO DE SÃO PAULO
Jorge Rosenberg
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| FHC sentado na cadeira de prefeito
de São Paulo: havia outra foto problemática
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"A outra 'explicação'
da derrota tem a ver com uma foto publicada no dia das
eleições, 15 de novembro de 1985, uma
sexta-feira, na qual apareço sentado na cadeira
de prefeito, antes da hora. É evidente que, por
numerosos que tivessem sido os leitores da reportagem,
não haveria tempo de influir no voto. Mas a foto
prova que eu merecia perder... por ingenuidade. Estabeleci
um acordo com repórteres da revista Veja
São Paulo para ser fotografado nessa situação
para o caso de vitória, pois as eleições
estavam extremamente apertadas e, além de tudo,
se a revista quisesse, como pretendia, trazer o novo
prefeito na capa, não haveria como fotografá-lo
a tempo no gabinete oficial. (...) Num final de manhã,
a revista aproveitou minha presença numa solenidade
na então sede da Prefeitura, no Parque do Ibirapuera,
e executou o trabalho. Outros fotógrafos também
clicaram a cena, assumindo o mesmo compromisso da revista.
A Folha de S. Paulo, porém, rompeu-o e
publicou a foto em primeira página. Pior teria
sido se outro fotógrafo, com o qual fiz outro
acordo, não me tivesse devolvido os negativos
de uma foto, feita na sala de meu apartamento, na qual
eu aparecia quebrando uma vassoura, símbolo do
populismo janista, que se dizia varredor de todo o lixo
da corrupção. Não fosse a integridade
do fotógrafo cujo nome prefiro não
divulgar e essa foto talvez me tivesse causado
um prejuízo político ainda maior. Nunca
ninguém soube dela até a publicação
deste livro.
Vanitas, vanitatem?
Não, mais grave: despreparo para a aspereza da
luta política. Pedágio pago por um professor
catapultado à arena cheia de feras. Perdi, é
o que conta. E a derrota me ajudou na futura trajetória
política."
A SURPRESA
DE ITAMAR: A NOMEAÇÃO
PARA O MINISTÉRIO DA FAZENDA
Sergio Amaral
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| O ministro FHC com o presidente
Itamar, em 1994 |
"Na noite
de 19 de maio fui jantar na casa do embaixador brasileiro
junto à ONU, Ronaldo Sardenberg, quando, na hora
do brinde (feito à moda japonesa, no início
da refeição), a esposa do ministro, embaixatriz
Célia, me pediu para atender ao telefone.
Era o capitão-de-corveta
Antonio Carlos Passos de Carvalho, ajudante-de-ordens,
que me passou o Presidente Itamar. Este me perguntou,
brincando, se eu estava sentado ou em pé e colocou
a questão:
Você
aceita ser ministro da Fazenda?
Respondi que jamais
pretendera a posição, que não era
economista, e, sobretudo, reiterei que, com tanta troca
de ministro da Fazenda, não dispunha mais de
argumentos para convencer no exterior de que tudo ia
bem no Brasil.
De fato, seria,
como já disse, a quarta troca em apenas sete
meses de governo. Itamar relatou-me problemas com o
ministro Eliseu Rezende, com quem ele se avistaria naquela
mesma noite. Havia uma acusação de que
a empreiteira Norberto Odebrecht tinha pago a hospedagem
de Eliseu em Washington durante uma viagem feita antes
de ele assumir a Fazenda. Insisti com o Presidente em
que Eliseu vinha fazendo um esforço enorme para,
pelo menos, saber a quantas andavam as contas públicas,
e que o melhor seria mantê-lo. Meu nome surgira
como possível alternativa porque, mesmo do Itamaraty,
eu influenciava algumas decisões econômicas,
participando, por exemplo, da discussão sobre
a fixação dos preços mínimos
nos leilões de privatização, sem
contar que havia tido a oportunidade de intervir numa
reunião no Palácio da Alvorada, a residência
oficial do Presidente da República, em que se
discutira o próprio programa do ministro da Fazenda.
Acrescentei:
Não
estou aí no Brasil. Sei pelo noticiário,
que acompanhei com apreensão no Japão,
que sua situação é difícil.
Não gostaria de faltar com minha solidariedade,
mas, por favor, insista para que Eliseu permaneça
no Ministério.
Voltei à
mesa preocupado. Todos se deram conta. Ao final do jantar,
novamente a embaixatriz me avisou que o ajudante-de-ordens
telefonara para dizer que o Presidente não precisava
mais falar comigo. Fui dormir aliviado. Na manhã
seguinte, desde familiares até o secretário-geral
do Itamaraty, o embaixador Luiz Felipe Lampreia, me
chamaram do Brasil para dizer que eu fora nomeado ministro
da Fazenda. (...)
Somaram-se, portanto,
as características pessoais do Presidente Itamar
(sua aparente impulsividade, que na verdade sempre tem
um cálculo por trás), sua confiança
em mim e eventuais qualidades minhas para enfrentar
adversidades (à minha maneira, dando impressão
de suavidade) para, ainda uma vez, sem cálculo
e sem astúcia ex-ante, ir cumprindo minha
vontade 'desde pequenininho' de chegar a ser Presidente..."
A JOGADA DE
MALAN NA NEGOCIAÇÃO
DA DÍVIDA EXTERNA
Orlando Brito
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| Com Malan, por ocasião
da negociação da dívida: compra
secreta de papéis do Tesouro americano |
"Pouco a pouco
nossos negociadores foram desbastando o terreno. Finalmente,
Pedro Malan, primeiro como negociador-chefe e depois
como presidente do BC, com firmeza e seriedade, além
da paciência chinesa que o caracteriza, preparou
um intrincado pacote de opções para a
troca dos antigos títulos da dívida por
novos, com melhores condições de pagamento.
Essa negociação,
entretanto, supunha que o FMI firmasse um acordo com
o governo brasileiro e monitorasse nossas contas, dando
uma espécie de chancela para os bancos credores
confiarem nos pagamentos futuros. Havendo acordo com
o FMI, os credores saberiam que as políticas
fiscal e monetária, bem como o regime cambial
a serem praticados, seriam 'confiáveis e tecnicamente
corretos'. Com esse aval nas mãos o Tesouro americano
emitiria bônus de uma série especial que
o BC do Brasil compraria e depositaria no Banco Internacional
de Compensações (BIS) espécie
de banco central dos bancos centrais, sediado em Basiléia,
na Suíça. Esses bônus serviriam
de garantia aos bancos credores (o que nas negociações
financeiras chama-se de colaterais) na troca dos títulos
velhos por novos, com melhores condições
de pagamento e juros menos agressivos.
O volume total
da dívida renegociada chegou a 70 bilhões
de dólares, sendo cerca de 50 bilhões
com credores privados e o restante com governos e instituições
oficiais. Emitiram-se títulos novos de prazo
médio superior a 20 anos. Com a renegociação
da dívida, o Brasil saiu da moratória
e voltou ao mercado internacional de crédito.
Foi a maior operação de renegociação
de dívidas feita até então pelo
mercado financeiro internacional. Malan, com a experiência
que tinha, desconfiava que o FMI não daria o
nihil obstat a nosso programa de estabilização.
Por isso, antes de nossa visita ao Fundo em setembro
de 1993, conversou comigo sobre a eventualidade de o
BC começar a comprar os papéis do Tesouro
americano no mercado secundário, sem esperar
pela emissão especial dos bônus.
A operação
era arriscada. Tínhamos que agir cautelosamente
para que o mercado não percebesse o interesse
do BC nas compras, o que aumentaria o valor dos papéis,
e para evitar que o Tesouro americano e o FMI se sentissem
ludibriados. Mais ainda, Malan e eu tivemos que assumir
a responsabilidade da decisão sem que qualquer
outra pessoa soubesse. E assim fizemos."
A EMOÇÃO
DA POSSE
Paulo Jares
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| Na cerimônia de posse: "Itamar,
quem sabe um dia eu lhe devolva essa faixa" |
"No Brasil
não temos muito o gosto pelos rituais solenes.
Há sempre um pouco de desordem, até de
tumulto. Naquele dia, no Congresso, as pessoas avançavam
em minha direção, queriam me abraçar,
me cumprimentar, dar uma palavra ou um sorriso, para
desalento e preocupação dos diplomatas.
Algo semelhante se dera durante o desfile no Rolls-Royce,
e voltaria a ocorrer quando da transmissão do
cargo de Itamar para mim, no Palácio do Planalto.
Embora possam prejudicar os detalhes do espetáculo
programado, a afetividade e o calor humano, em nosso
país, são mais fortes do que o ritual.
Com tumulto ou
com um pouco de desordem, o certo é que uma poderosa
emoção tomou conta de mim à medida
que o veículo que me trazia do Alvorada ia se
aproximando da Catedral de Brasília. Ao subir
no Rolls-Royce, me vinham pensamentos e sentimentos
sobre a imensa responsabilidade que teria dali por diante,
e interrogações sobre o que seria de meu
governo, o que iria acontecer nos próximos quatro
anos e o que eu poderia fazer pelo país. Toda
a carga simbólica e o peso da História
e de sua continuidade me vieram à mente e começaram
a se fazer sentir sobre meus ombros: o próprio
Rolls-Royce, que o Presidente Getúlio Vargas
recebeu como presente de empresários e transferiu
ao patrimônio público em 1953, servira
a Vargas, a Juscelino...
Esse sentido de
História continuou me acompanhando pelo dia afora,
reforçado por outro fato simbólico: assinei
o termo de posse no Congresso com uma caneta Sheaffer's
dourada que Vargas dera ao segundo ministro da Guerra
de seu governo constitucional (1951-1954), general Ciro
do Espírito Santo Cardoso, primo-irmão
de meu pai, e presenteada a mim por seu filho, meu primo,
embaixador Ciro Filho."
A CONVERSA
COM OS MILITARES
"Sobre minha
disposição de encarar a questão,
naturalmente delicada, dos abusos da ditadura, vale
estender-me a respeito da conversa franca que tive com
meus ministros militares logo no início do governo,
durante um jantar na residência oficial do ministro
da Marinha. (...) Jantar agradável, com todos
em manga de camisa, sem as esposas. Propus um brinde
à democracia, brincando com eles que, afinal,
o Presidente da República estava reunido com
os ministros militares e não apenas ninguém
estranhava o fato, como nem sequer a imprensa andava
em nosso encalço.
Depois do jantar,
passamos a uma sala de estar ao lado. Disse, então,
que pretendia promover reparações no caso
das pessoas mortas, desaparecidas, torturadas ou presas
de forma ilegal durante o regime militar. Expliquei
que não se tratava de uma questão política,
mas de direitos humanos e, para mim, se revestia até
de um caráter existencial. Narrei-lhes a própria
experiência pessoal de minha breve, e nem por
isso menos marcante, prisão pelo DOI-Codi, em
1975 (...). O que sucedeu comigo não foi nada
diante do ocorrido com tantas pessoas durante o período
autoritário. Nunca utilizei essa passagem de
minha vida como argumento político, e poucas
vezes comentei-a fora do círculo de pessoas próximas.
Mas julguei ser oportuno fazer o relato a meus ministros
militares. Descrevi-lhes as tentativas de intimidação
e grosserias que me foram dirigidas, já sem o
capuz que me haviam colocado para levar-me aos porões
da rua Tutóia, situada no bairro ironicamente
denominado de Paraíso, em São Paulo. (...)
Contei-lhes que, tal como um delinqüente, fotografaram-me
com algum número, talvez uma data, para me identificar
junto aos chamados órgãos de segurança
(...).
Os interrogadores
queriam saber de mim sobre o movimento trotskista na
Argentina e no Uruguai, a respeito de que, obviamente,
eu não tinha a mais longínqua idéia.
Eram vários, que se revezavam na saraivada de
perguntas, gritos e ameaças. (...) Tudo isso
relatei a meus ministros militares. Inclusive que, a
uma certa altura na sede do DOI-Codi, lembrando-me de
conselho de meu pai para a hipótese de prisão
'nunca deixe de manter algum diálogo com
o carcereiro' , disse a um deles que queria ir
ao banheiro. Indicaram-me o caminho, e, ao longo dele,
vi, no chão de uma cela, pessoas inequivocamente
torturadas. (...)
O jantar e a conversa
com os ministros militares terminaram como começaram,
em clima agradável e cortês."
BANDEIRA, SÓ
A DO BRASIL
Por 'indigesto'
que fosse o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), por exemplo, procurei tratá-lo como um
dos novos movimentos da sociedade. Tentei dialogar com
seus dirigentes, nos limites da lei, mesmo quando, por
exemplo, militantes invadiram a fazenda que pertencia
à minha família em Buritis, no noroeste
de Minas Gerais. Confesso, entretanto, que por mais
que os recebesse e me esforçasse para apoiar
o programa de reforma agrária, o diálogo
revelou-se impossível. Lembro-me de que, na primeira
reunião que tive com dirigentes do MST no Planalto,
eles deixaram logo claro que pretendiam antes provocar
um fato na mídia do que dialogar. Era um pequeno
grupo, e logo no início do encontro um deles,
que portava a bandeira verde, branca e vermelha do movimento,
perguntou:
Podemos
abrir a bandeira?
Respondi:
Não!
Bandeira, aqui, só a do Brasil. Não pode,
não.
De outra feita,
o grupo, em atitude típica, entrou em minha sala
sem tirar os bonés com o logotipo do movimento,
atitude distante da que se espera de quem tem uma audiência
no gabinete presidencial, seja quem for o Presidente.
Estavam os principais dirigentes, entre os quais João
Pedro Stédile e José Rainha Júnior.
Logo no começo, um integrante do grupo dirigiu-se
a mim de maneira desrespeitosa, chamando-me de 'Fernando'.
Olhei para ele e disse, cortando o tom inadequado:
O senhor
está falando com quem?"
O TELEFONEMA
DE LULA PARA
ANUNCIAR MEIRELLES NO BC
Sérgio Lima/Folha
Imagem
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| Lula, Palocci e Meirelles: "O
presidente do BC vai ser um tucano, seu amigo" |
"Lula venceu
Serra no segundo turno, não criei qualquer obstáculo
ao futuro governo, pelo contrário, mas os mercados
só se acalmaram quando, para surpresa de muitos,
o Presidente eleito e o novo ministro da Fazenda, o
ex-deputado e ex-prefeito de Ribeirão Preto (SP)
Antônio Pallocci, mostraram claramente que seguiriam
o curso traçado por meu governo. O primeiro sinal
claro seria a designação do presidente
do BC. Depois de ter tateado várias hipóteses,
inclusive a da manutenção temporária
de Armínio Fraga (defendida, entre outros, pelo
recém-eleito senador petista pelo DF Cristovam
Buarque), terminou por escolher Henrique Meirelles,
ex-presidente mundial do Banco de Boston, que acabara
de se eleger deputado federal pelo PSDB de Goiás.
Uma bela manhã, Lula, que como presidente eleito
já se instalara na Granja do Torto, telefonou-me
e disse:
O presidente
do BC vai ser um tucano, seu amigo.
Explicou que seria
Meirelles. Em seguida passou o telefone ao próprio
recém-convidado para dirigir o BC. Felicitei-o
mas lembrei:
Você
terá de renunciar ao mandato e se afastar do
PSDB.
Meirelles me pareceu
surpreso com a segunda ressalva. Ele de qualquer maneira
teria de renunciar ao mandato. Mesmo assim, indagou:
Mas preciso
também sair do partido?
Claro
respondi. Parecia-me evidente a resposta, não
apenas pela posição técnica e neutra,
e portanto apartidária, que o presidente do BC
deve manter, como também pelo fato de que ele
passaria a integrar um governo de um partido adversário
do PSDB."
Trecho de A
Arte da Política: a História que Vivi
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