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Especial A
arte de ser FHC Em A Arte em Política:
A História que Vivi, o livro mais esperado do ano, o ex-presidente
explica o Brasil e o seu próprio papel no último quarto de século.
Não faltam revelações e histórias curiosas e engraçadas 
Mario Sabino
Paulo Vitale  |
| O ex-presidente em seu gabinete no Instituto Fernando
Henrique Cardoso, em São Paulo |
Salão de banquetes do Palácio de
Buckingham, 1997. Circundado por Elizabeth II e pela rainha-mãe, o então
presidente Fernando Henrique Cardoso ouve a rainha da Inglaterra elogiar o renascimento
do Brasil um país que deixara a condição de pária
na comunidade internacional, graças às recentes e profundas reformas
econômicas que possibilitaram a renegociação da dívida
externa, criaram uma moeda forte, colocaram um ponto final na inflação
galopante e tiraram milhões de cidadãos da pobreza absoluta. Depois
do discurso de Elizabeth II, chega a vez de Fernando Henrique fazer o seu, tomando
cuidado para que a condecoração real que atravessa seu peito numa
faixa vermelha não caia sobre o texto que está lendo. O banquete
segue no leito da formalidade, até que a rainha-mãe começa
a fazer graça, quebrando por um momento a rigidez protocolar. Com a palavra,
Fernando Henrique: "Como
presente oficial, eu lhe oferecera um pássaro de pedras brasileiras e bico
prateado esses discutíveis presentes que nossa avareza de meios
impõe como se de preciosidades se tratassem. E ela se entusiasmou com o
nome que atribuí ao pássaro. Perguntado sobre como se chamava, respondi
de pronto, do fundo de minha ignorância:
Jaburu, madame. Ela repetia com delícia,
trocando o 'u' por 'a', o nome daquele pássaro imaginário".
O episódio está narrado no
décimo capítulo de A Arte da Política: a História
que Vivi (Civilização Brasileira; 699 páginas; 70 reais),
do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o lançamento mais esperado
do ano, que chega às livrarias nesta terça-feira, dia 21. Trata-se,
é evidente, de uma passagem absolutamente lateral num livro repleto de
reminiscências, revelações e análises de um dos protagonistas
mais importantes se não o mais importante da cena nacional
no último quarto de século. Mas a historinha com a rainha-mãe
foi escolhida para abrir esta reportagem por ser, além de curiosa, reveladora
da personalidade de Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente é, sobretudo,
um sedutor e o que A Arte da Política mostra é exatamente
isto: como seu autor fez uso dessa capacidade inata e lapidada na vida acadêmica
e pública, para atrair eleitores, correligionários e adversários
(nem todos, é verdade) para o caminho da razão. Pode-se apontar
muitos defeitos e malfeitos em seus oito anos de governo, como esta revista (e
este repórter) fez. Pode-se afirmar, com dados e estatísticas, que
ele não realizou tudo a que se propôs. Pode-se jurar nunca mais dar
um voto ao ex-presidente, seja por decepção, seja simplesmente por
aquele mesmo cansaço que levou os atenienses a afastar Péricles
do governo da cidade. Pouco importa. Resta o fato de que, nos anos FHC, o Brasil
deixou para trás a improvisação na economia, começou
a desvincular o conceito de Estado daquele de nação, integrou-se
ao mercado mundial e traçou ao menos um esboço promissor de futuro
(cabe à sociedade e ao governo completar o desenho). Para não falar
do privilégio de ter um presidente com o savoir-faire de contar uma mentirinha
simpática à rainha-mãe inglesa.
É a primeira vez que um ex-presidente brasileiro escreve
um livro sobre o seu período de governo. Como o ex-presidente em questão
é o sociólogo Fernando Henrique, o leitor ganha de brinde reflexões
que se alternam com os fatos relatados. De certa maneira, é possível
estabelecer um paralelo estrutural com O Príncipe, realização
máxima do pensador italiano Nicolau Maquiavel, de quem Fernando Henrique
é grande conhecedor. O autor de O Príncipe ilustra a teoria
com exemplos históricos; o de A Arte da Política ilustra
a história com a teoria. Ilustração, aqui, não tem
o sentido prosaico de apêndice, e sim de elucidação
não apenas a dos motivos que o levaram a tomar certas decisões,
entre as quais a de tecer alianças com setores associados ao fisiologismo
(veja entrevista),
como a de um sistema desordenado e confuso, o qual o autor define uma "contrafação
do presidencialismo de coalizão". Para explicar o seu governo e ele próprio
como político, Fernando Henrique recorre a pensadores como Platão,
Giambattista Vico, Max Weber, Norberto Bobbio e, claro, Maquiavel. Por esse motivo,
o de desejar ir além do factual, ele resistiu a chamar o livro de "memórias",
apesar de também sê-lo.
Em que pese a ambição intelectual, A Arte da Política
está longe de ser impenetrável. É legibilíssimo, graças
também ao didatismo e à relativa parcimônia com que são
citados filósofos e pensadores políticos embora por vezes
dê tédio por causa da preocupação em detalhar as composições
e recomposições ministeriais e as realizações nas
diversas áreas estatais. Esse pecado é desculpável: A
Arte da Política quer-se documento, obra de referência e, óbvio,
peça de defesa. Aliás, como tal, deverá ser um prato cheio
tanto para adversários respeitáveis como para meros detratores do
ex-presidente aquele pessoal do "Delenda FHC", para usar a expressão
do próprio Fernando Henrique. Na confecção do livro, o ex-presidente
contou com o auxílio do jornalista Ricardo Setti, que foi editor de VEJA,
diretor do Jornal do Brasil em São Paulo e de várias publicações
da Editora Abril. Com a experiência acumulada em quarenta anos de profissão,
Setti encarregou-se, entre outras coisas, de checar se todas as situações
relevantes ocorridas nos anos FHC haviam sido abordadas de modo suficiente e de
sugerir mudanças no texto que facilitassem a leitura ou avivassem mais
o interesse do leitor. O livro estava inconcluso quando o jornalista começou
a colaborar. "Foram cinco meses de um trabalho intenso e prazeroso. Eu e o presidente
nos comunicávamos principalmente via e-mail, já que sua agenda continua
a ser impressionante. Ele deve ter feito umas oito viagens internacionais durante
esse período, sempre a trabalho. A salvação foi que FHC é
ótimo de e-mail: responde rápido e com precisão", diz Setti.
Fabiano Accorsi  |
| O jornalista Ricardo Setti: coordenador editorial do
livro | Antes de adentrar o período
presidencial, o livro detém-se brevemente na história da família
de Fernando Henrique cujo avô militar, por ocasião da proclamação
da República, propôs fuzilar o imperador Pedro II, caso o monarca
impusesse resistência à nova ordem. Um Cardoso radical, ora veja
só. O ex-presidente relembra o início de sua carreira pública
e os acontecimentos que o levaram a ser ministro da Fazenda de Itamar Franco e,
em seguida, a candidatar-se à Presidência. Quando o livro chega à
fase do Planalto, é exposta a voracidade de parlamentares e caciques partidários
por cargos e verbas. Além disso, Fernando Henrique conta em pormenores
a história da elaboração e implementação do
Plano Real, que salvou a economia brasileira da hiperinflação e
propiciou que o país entrasse nos eixos da modernidade, e como foram enfrentadas
as quatro borrascas financeiras nas quais o Brasil quase naufragou a do
México, a da Ásia, a da Rússia e a causada pela proximidade
da eleição de Lula. Uma das curiosidades dos capítulos sobre
economia é que, diante das dúvidas sobre a eficácia do plano,
Stanley Fischer, o então número 2 do Fundo Monetário Internacional
(FMI), sugeriu que se fizesse um congelamento de preços no Brasil por dois
a três meses. Nada mais heterodoxo e esquerdista.
Algumas revelações de sua trajetória e governo encontram-se
nos excertos transcritos ao longo desta reportagem. Mas há muitas outras.
Sobre Itamar Franco, o personagem mais citado no livro, Fernando Henrique conta,
por exemplo, que ele apoiou sua candidatura à Presidência sem jamais
terem falado sobre o assunto; que Itamar leu superficialmente a minuta da medida
provisória que instituiu a URV, ponto de partida do Plano Real; e que o
então presidente quase cancelou o acordo com a Bolívia para a construção
do gasoduto que atravessa o território dos dois países. Itamar simplesmente
não acreditava que a Bolívia tivesse gás suficiente para
tanto. Há ex-presidentes e ex-presidentes, como se vê.
Na cena nacional, Fernando Henrique incorporou a passagem da causa da democracia,
que motivou sua geração, para a da estabilização da
economia, ainda não plenamente alcançada. Nessa transição
de causas não excludentes, embaralharam-se posições ideológicas
anacrônicas, com as quais ele teve de haver-se. Saiu-se bem, mas bastante
chamuscado pelas denúncias dos que se viram derrotados nesse processo
ou de certa forma assimilados, quando se verifica a mudança ocorrida no
PT. Fernando Henrique admite erros, mas não as desonestidades que lhe foram
atribuídas. No livro, reafirma que seu governo não pagou a deputados
para que votassem a favor da emenda da reeleição, uma das acusações
mais graves que lhe foram dirigidas, e que o processo de privatização
nada teve de "privataria". Sabe, no entanto, que não mudará convicções
formadíssimas a respeito desses assuntos, como disse na entrevista a VEJA.
Nos últimos tempos, Fernando
Henrique andou envolvido em outro projeto editorial: a publicação
nos Estados Unidos de The Accidental President of Brazil (O Presidente
Acidental do Brasil), que terá uma noite de autógrafos na Universidade
Colúmbia, em Nova York, no próximo dia 27, e outra em Washington,
no dia 30. A idéia de um livro destinado ao público americano surgiu
no fim de 2003, durante um almoço num elegante restaurante nova-iorquino
em que o editor Sérgio Machado, do Grupo Record, do qual faz parte a Civilização
Brasileira, apresentou Fernando Henrique a Peter Osnos, na ocasião presidente
da editora Public Affairs. O objetivo era vender os direitos de tradução
de A Arte da Política, que ainda estava por ser escrito. Mas Osnos
encantou-se com um projeto diferente um livro destinado especialmente ao
público americano. "Ele propôs que Fernando Henrique mostrasse ao
leitor, por meio de uma biografia, como funciona uma nação grande
e complexa como o Brasil", diz Machado. O que o convenceu do interesse da obra
foi um episódio com o presidente americano George W. Bush e o venezuelano
Hugo Chávez, também descrito no livro brasileiro. The Accidental
President contou com um ghostwriter, Brian Winter, jornalista da agência
Reuters no México e especialista em América Latina. Osnos acreditava
que Fernando Henrique deveria ter um interlocutor com alguma familiaridade com
o Brasil, mas não demais, de maneira a ser capaz de formular as perguntas
que um americano médio poderia ter na cabeça a respeito do país.
A história com Bush e Chávez
que cativou o editor Peter Osnos é das mais divertidas de A Arte da
Política. Ei-la contada por Fernando Henrique:
"Às vésperas de me receber na Casa Branca, o
Presidente Bush dissera à imprensa que gostaria de olhar-me 'olho no olho',
como é de seu estilo. Encontrei-o em seu gabinete de trabalho, o Oval Office,
local que conhecia do tempo de Clinton. Ele me esperava em pé, cumprimentou-me
e mostrou-se muito afável, embora sua linguagem corporal a forma
um tanto rígida de movimentar-se e de andar, e algo nos olhos, talvez um
leve estrabismo , lhe confiram, à primeira impressão, um ar
de certa arrogância, de certo distanciamento. (...)
Mostrou-se um tanto ansioso com a reunião de Québec. Seria seu début
internacional e tinha preocupações de que o presidente da Venezuela
lhe pudesse ser hostil. Disse-lhe que mantinha boas relações com
Hugo Chávez e que não acreditava que ele tivesse tal propósito.
Em todo caso, acrescentei, eu teria um encontro em Brasília com o Presidente
Chávez e lhe faria a ponderação.
Cumpri o prometido. Expus a Chávez a opinião de que, se ele fosse
cortês, desarmaria o interlocutor, mesmo porque não acreditava que
o Presidente da Venezuela viesse a ser agressivo com o Presidente norte-americano.
Chávez respondeu-me, sorrindo matreiro:
Você me conhece. Eu sou ardoroso. Quando, nas reuniões da Organização
dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), começo a me entusiasmar,
o sultão de Qatar, que é meu amigo, tem uma combinação
comigo: olha para mim com as mãos postas perto do rosto, em forma de oração,
e eu modero minha fala, antes de proclamar a República nas monarquias árabes.
E acrescentou:
Vamos fazer o mesmo em Québec.
Na cúpula hemisférica, coube-me fazer o discurso de abertura. Transmiti
uma mensagem clara e firme: 'A Alca será bem-vinda se a sua criação
for um passo para dar acesso aos mercados mais dinâmicos (...).'
Quando terminei o discurso sob os aplausos
dos mais de mil presentes, Hugo Chávez saltou da fila em que se encontrava
atrás de mim, aproximou-se da cadeira para onde eu voltava para sentar-me
e, com as mãos em sentido de oração, me saudou efusivamente.
Nós, latino-americanos, podemos até não ser bons negociadores,
mas não perdemos o senso de humor."
Ao final do livro, conclui-se que Fernando Henrique soube combinar a arte da política
com outra arte difícil e até certo ponto inata a de viver.
Joie-de-vivre, como diria ele, que gosta de brincar que "tem o pé na cozinha,
sim... mas francesa". Seus aliados certamente incluirão isso no rol de
virtudes do melhor presidente que o Brasil já teve. Quanto a seus adversários,
não há como deixar de reconhecer: essa é uma qualidade do
melhor ex-presidente que o país já produziu.
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