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Economia e
Negócios Saiba por que ele está chorando
Um bebê brasileiro já nasce fortemente endividado
 Chrystiane
Silva
 | Um
bebê brasileiro já nasce devendo 5 400 reais e
a cada ano de vida ele pagará 900 reais de
juros da dívida pública* *Com base
na taxa Selic atual, de 16,5% |
Todo
ano o governo federal torra mais dinheiro do que arrecada. A receita obtida com
impostos bate recorde atrás de recorde, mas isso nunca é suficiente.
Os gastos crescem sempre mais do que o volume de dinheiro que é arrancado
da sociedade na forma de contribuições e impostos. Resultado? Para
honrar os seus compromissos, como o pagamento de salários e benefícios,
e manter em funcionamento a máquina estatal, o governo precisa tomar dinheiro
emprestado. Para isso, emite títulos que são repassados pelos bancos
ao respeitável público por meio dos fundos de investimento. São
papéis que pagam determinada taxa de juro a investidores dispostos a comprá-los.
Na semana passada, o total desses papéis, ou seja, o total devido pelo
governo na forma de títulos públicos (a chamada dívida mobiliária),
ultrapassou a marca simbólica de 1 trilhão de reais. Dividindo-se
essa montanha de dinheiro entre os 186 milhões de brasileiros, daria uma
conta de 5.400 reais para cada um. Um bebê que venha ao mundo hoje já
nasce devendo 5.400 reais. Pior. O pobrezinho precisa pagar 900 reais ao ano em
juros pela dívida que contraiu antes mesmo de dar o primeiro sorriso para
a mãe e o pai. Só chorando.
O número de 1 trilhão é grande, mas não quer dizer
muita coisa, se analisado isoladamente. A capacidade de pagamento do país,
os prazos em que os títulos vencem e a vontade do público de continuar
emprestando ao Estado são os fatores que definem se uma dívida de
1 trilhão é problema ou solução. No Brasil, a dívida
já foi solução. Hoje é um problemaço. Os analistas
costumam comparar a dívida com o tamanho da economia o PIB. O endividamento
líquido do setor público equivale a 51,6% do PIB. Em nações
desenvolvidas, esse porcentual chega a ser maior, mas, para um país em
desenvolvimento, como o Brasil, o índice é muito alto. Além
disso, os investidores ainda encaram o país com desconfiança. Isso
se traduz em uma dívida mais difícil de pagar e cara, porque os
prazos de vencimento são curtos e os juros, elevados. Todo o esforço
do Tesouro Nacional, o responsável pela administração da
dívida, vai na direção de aumentar o prazo e reduzir os juros.
Poucos países conseguiram fazer isso. Um exemplo é o Japão.
A relação entre a dívida e o PIB do Japão supera 100%.
Mesmo assim, o Tesouro japonês paga taxas de juro próximas do zero
e o prazo de vencimento dos títulos é de décadas. O Japão,
por razões históricas e culturais, conquistou a confiança
do investidor. Uma boa notícia
é que o endividamento brasileiro já não assusta tanto quanto
no passado. "Não dá para dizer que a dívida pública
é baixa nem confortável, mas qualquer analista avalia que ela melhorou
substancialmente, os prazos aumentaram e a vulnerabilidade diminuiu", diz Paulo
Valle, coordenador de operações da dívida pública
do Tesouro. Há cinco anos, os títulos cambiais representavam quase
30% da dívida. Era uma roleta-russa. A cada subida na cotação
do dólar, a dívida disparava. Hoje, esses papéis são
apenas 2,39% do total. O ideal, dizem os economistas, é ampliar cada vez
mais o porcentual prefixado, em reais, com vencimento no longo prazo. Os juros
são determinados previamente, e os custos ficam menos sujeitos às
oscilações dos humores dos mercados. Mas os investidores só
aceitam comprar esse papéis se existir um cenário de estabilidade.
É por isso que, se o governo descambar para o populismo, a dívida
foge do controle, e quem perde são os brasileiros. Nesse caso, a saída
seria uma só: chorar como um bebê. |