Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Internacional
A testemunha-bomba

Libanesa presa em São Paulo diz
que será morta se voltar ao Líbano


José Eduardo Barella e Victor Martino

 

Fernando Pereira/AE
Rana é retirada por um buraco na parede de uma delegacia em reforma, em São Paulo: três transferências

Em uma cela da Polícia Civil paulista, na semana passada, uma presa guardava segredos que podem mudar os rumos políticos de dois países do Oriente Médio: o Líbano e a Síria. A ONU e o governo do Líbano acreditam que a economista Rana Koleilat, libanesa presa no domingo 12, em um flat na Zona Norte de São Paulo, tem as informações que faltam para esclarecer os motivos e os autores do atentado que matou o primeiro-ministro Rafik Hariri em fevereiro do ano passado, em Beirute. O assassinato do político – que se opunha à presença de tropas da Síria no país – desencadeou um movimento popular que pôs fim a 29 anos de ocupação síria no Líbano. Além das informações sobre o atentado, Rana, uma muçulmana sunita de 39 anos, é procurada pela polícia libanesa por seu envolvimento no desfalque de 1,6 bilhão de dólares do Banco Al-Madina, do qual era alta executiva, em 2003.

Hussein Makka/AP
O sírio Ghazali: suspeito na morte de Hariri


Um relatório preliminar da comissão da ONU que investiga a morte de Hariri, divulgado em outubro do ano passado, aponta o envolvimento de altos funcionários do governo sírio no crime. Há indícios de que pelo menos dois desses suspeitos receberam centenas de milhares de dólares desviados do banco por Rana. Um deles é o general Rustom Ghazali, chefe da polícia secreta síria no Líbano, e o outro é o coronel Maher Assad, irmão do presidente sírio Bashar Assad. Essa coincidência levou a comissão da ONU a levantar a hipótese de ligação entre o assassinato e a fraude bancária. Uma suspeita é que parte do dinheiro desviado do Madina tenha financiado o atentado, ocorrido dois anos após a quebra do banco. O escândalo financeiro pode ter fornecido um incentivo adicional para os assassinos agirem – antes de ser morto, Hariri acusou a Síria de pressionar o Banco Central libanês para suspender as investigações sobre a roubalheira no Madina.

Se Rana contar tudo o que sabe e der informações que comprovem a ligação de Damasco com o assassinato de Hariri, criará novas dificuldades para o regime de Bashar Assad, já sob pressão internacional, e para seus aliados no Líbano. Por isso, a ONU quer interrogá-la quanto antes e o governo do Líbano já pediu sua extradição. A libanesa que sabe demais teme por sua vida. "As pessoas envolvidas nas transferências de dinheiro que fiz para a Síria controlam o Líbano", disse Rana a VEJA, na semana passada. "Se Alá quiser que eu fique no Brasil, eu ficarei, mas, se quiser que eu morra no Líbano, assim será." Deprimida, ela tentou suicídio em uma das três delegacias paulistas que lhe serviram de prisão, na semana passada. Cortou o antebraço com um pequeno estilete, usado por outras detentas para fazer artesanato, e levou nove pontos. Para evitar que ela tentasse se matar novamente, a polícia a transferiu para uma cela individual na sede do Grupo de Operações Especiais (GOE), onde, até a sexta-feira passada, foi mantida sob a vigilância de duas carcereiras. Mesmo que o Supremo Tribunal Federal conceda sua extradição para o Líbano, Rana pode ter de ficar mais alguns meses no Brasil para responder à acusação de tentar subornar os policiais civis que a prenderam. Ela diz que houve um mal-entendido, porque não sabe falar português.

De origem modesta, Rana tinha apenas 18 anos quando foi contratada pelo Madina, em 1985, como secretária da vice-presidência. Em pouco tempo ganhou a confiança do presidente do banco, Adnan Abou Ayyash, e teve uma ascensão meteórica na empresa. O banqueiro era amigo de Hariri, que chegou a pagar o curso de economia de Rana na Inglaterra. Ao voltar a Beirute, a jovem casou-se secretamente com Ayyash – prática comum no Islã para permitir o sexo casual ou relacionamentos informais. Ela passou a desfrutar a fortuna do banqueiro, viajava de jatinho para fazer compras em Paris e morava numa mansão em Beirute. Aos amigos, dizia ter recebido uma herança de um tio. Apesar de o relacionamento amoroso ter terminado, Rana assumiu o comando de operações financeiras de alto risco do banco.

 
Mohamed Azakir/Reuters
Martin Bureau/AFP
Acima, o atentado que matou Hariri (ao lado): a ONU investiga ligação do crime com fraude em que Rana teve papel central

Quando o Madina quebrou, em fevereiro de 2003, Rana, Ayyash e outras oito pessoas foram indiciados por fraude, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Ela acabou presa. Um mês depois da morte de Hariri, em março de 2005, foi solta sob fiança pela Justiça libanesa. Com um passaporte falso, fugiu para o Egito. Passou também pela Inglaterra e pela França antes de desembarcar em São Paulo, em outubro do ano passado. Ela diz ter escolhido se esconder no Brasil porque o acordo de extradição com o Líbano ainda não foi ratificado pelo Congresso Nacional. Para se manter em São Paulo, Rana transferia, por meio de bancos uruguaios, parte do dinheiro que tem guardado em uma conta na Suíça. Ela diz que o homem que a denunciou à polícia trabalha para Ayyash, a quem acusa de persegui-la desde que fugiu do Líbano – o próprio Ayyash está refugiado na Arábia Saudita. A denúncia anônima por telefone que levou a Polícia Civil até Rana foi feita por um homem com sotaque árabe. Ela tem bons motivos para temer pela própria vida.

 
 
 
 
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