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Internacional A
testemunha-bomba Libanesa presa em São
Paulo diz que será morta se voltar ao Líbano
 José
Eduardo Barella e Victor Martino Fernando
Pereira/AE
 | | Rana
é retirada por um buraco na parede de uma delegacia em reforma, em São Paulo:
três transferências |
Em
uma cela da Polícia Civil paulista, na semana passada, uma presa guardava
segredos que podem mudar os rumos políticos de dois países do Oriente
Médio: o Líbano e a Síria. A ONU e o governo do Líbano
acreditam que a economista Rana Koleilat, libanesa presa no domingo 12, em um
flat na Zona Norte de São Paulo, tem as informações que faltam
para esclarecer os motivos e os autores do atentado que matou o primeiro-ministro
Rafik Hariri em fevereiro do ano passado, em Beirute. O assassinato do político
que se opunha à presença de tropas da Síria no país
desencadeou um movimento popular que pôs fim a 29 anos de ocupação
síria no Líbano. Além das informações sobre
o atentado, Rana, uma muçulmana sunita de 39 anos, é procurada pela
polícia libanesa por seu envolvimento no desfalque de 1,6 bilhão
de dólares do Banco Al-Madina, do qual era alta executiva, em 2003.
Hussein
Makka/AP
 | | O
sírio Ghazali: suspeito na morte de Hariri |
Um
relatório preliminar da comissão da ONU que investiga a morte de
Hariri, divulgado em outubro do ano passado, aponta o envolvimento de altos funcionários
do governo sírio no crime. Há indícios de que pelo menos
dois desses suspeitos receberam centenas de milhares de dólares desviados
do banco por Rana. Um deles é o general Rustom Ghazali, chefe da polícia
secreta síria no Líbano, e o outro é o coronel Maher Assad,
irmão do presidente sírio Bashar Assad. Essa coincidência
levou a comissão da ONU a levantar a hipótese de ligação
entre o assassinato e a fraude bancária. Uma suspeita é que parte
do dinheiro desviado do Madina tenha financiado o atentado, ocorrido dois anos
após a quebra do banco. O escândalo financeiro pode ter fornecido
um incentivo adicional para os assassinos agirem antes de ser morto, Hariri
acusou a Síria de pressionar o Banco Central libanês para suspender
as investigações sobre a roubalheira no Madina.
Se Rana contar tudo o que sabe e der informações que comprovem a
ligação de Damasco com o assassinato de Hariri, criará novas
dificuldades para o regime de Bashar Assad, já sob pressão internacional,
e para seus aliados no Líbano. Por isso, a ONU quer interrogá-la
quanto antes e o governo do Líbano já pediu sua extradição.
A libanesa que sabe demais teme por sua vida. "As pessoas envolvidas nas transferências
de dinheiro que fiz para a Síria controlam o Líbano", disse Rana
a VEJA, na semana passada. "Se Alá quiser que eu fique no Brasil, eu ficarei,
mas, se quiser que eu morra no Líbano, assim será." Deprimida, ela
tentou suicídio em uma das três delegacias paulistas que lhe serviram
de prisão, na semana passada. Cortou o antebraço com um pequeno
estilete, usado por outras detentas para fazer artesanato, e levou nove pontos.
Para evitar que ela tentasse se matar novamente, a polícia a transferiu
para uma cela individual na sede do Grupo de Operações Especiais
(GOE), onde, até a sexta-feira passada, foi mantida sob a vigilância
de duas carcereiras. Mesmo que o Supremo Tribunal Federal conceda sua extradição
para o Líbano, Rana pode ter de ficar mais alguns meses no Brasil para
responder à acusação de tentar subornar os policiais civis
que a prenderam. Ela diz que houve um mal-entendido, porque não sabe falar
português. De origem modesta,
Rana tinha apenas 18 anos quando foi contratada pelo Madina, em 1985, como secretária
da vice-presidência. Em pouco tempo ganhou a confiança do presidente
do banco, Adnan Abou Ayyash, e teve uma ascensão meteórica na empresa.
O banqueiro era amigo de Hariri, que chegou a pagar o curso de economia de Rana
na Inglaterra. Ao voltar a Beirute, a jovem casou-se secretamente com Ayyash
prática comum no Islã para permitir o sexo casual ou relacionamentos
informais. Ela passou a desfrutar a fortuna do banqueiro, viajava de jatinho para
fazer compras em Paris e morava numa mansão em Beirute. Aos amigos, dizia
ter recebido uma herança de um tio. Apesar de o relacionamento amoroso
ter terminado, Rana assumiu o comando de operações financeiras de
alto risco do banco. Mohamed
Azakir/Reuters
 | Martin
Bureau/AFP
 | | Acima,
o atentado que matou Hariri (ao lado): a ONU investiga ligação
do crime com fraude em que Rana teve papel central |
Quando o Madina quebrou, em fevereiro de 2003, Rana, Ayyash e outras oito pessoas
foram indiciados por fraude, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Ela
acabou presa. Um mês depois da morte de Hariri, em março de 2005,
foi solta sob fiança pela Justiça libanesa. Com um passaporte falso,
fugiu para o Egito. Passou também pela Inglaterra e pela França
antes de desembarcar em São Paulo, em outubro do ano passado. Ela diz ter
escolhido se esconder no Brasil porque o acordo de extradição com
o Líbano ainda não foi ratificado pelo Congresso Nacional. Para
se manter em São Paulo, Rana transferia, por meio de bancos uruguaios,
parte do dinheiro que tem guardado em uma conta na Suíça. Ela diz
que o homem que a denunciou à polícia trabalha para Ayyash, a quem
acusa de persegui-la desde que fugiu do Líbano o próprio
Ayyash está refugiado na Arábia Saudita. A denúncia anônima
por telefone que levou a Polícia Civil até Rana foi feita por um
homem com sotaque árabe. Ela tem bons motivos para temer pela própria
vida. |