|
|
Brasil Um
ensaio da transposição Grampos
flagram deputados acertando propinas. Um deles negociava uma barragem
no Piauí. Pode-se imaginar quanto custará a obra no Rio São
Francisco...  Felipe
Patury Marcello
Casal Jr/ABR
 | | Ciro
Gomes: ele priorizou a barragem e o deputado cobrou propina da OAS |
A Câmara dos Deputados será atingida por um novo escândalo
nesta semana. A Polícia Federal flagrou os deputados B. Sá, do PSB,
e Domiciano Cabral, do PSDB, negociando propinas com empreiteiras no ano passado.
Escutas telefônicas mostram que B. Sá defendia os interesses da construtora
baiana OAS em seu estado, o Piauí. Seus diálogos com um dos executivos
da OAS demonstram que ele trabalhava para liberar recursos federais para a empreiteira,
que constrói a barragem de Poço do Marruá no sul do Piauí.
Em troca, B. Sá teria recebido pagamentos em dinheiro. Grampos semelhantes
apanham Domiciano Cabral acertando comissões em obras feitas pela Cojuda,
uma construtora que pertence ao sogro do parlamentar. Os episódios não
se restringem ao Congresso. Eles também devem atingir o governo. As investigações
sobre o Poço do Marruá podem resvalar no ministro da Integração
Nacional, Ciro Gomes, que liberou os recursos para a OAS e pretende tocar uma
obra quarenta vezes mais cara, a transposição do Rio São
Francisco. Já as conversas de Domiciano Cabral envolvem o ministro dos
Transportes, Alfredo Nascimento. B.
Sá transita na esfera de influência de Ciro Gomes desde o início
do governo Lula. Ele já mudou tanto de partido que ganhou o apelido de
B. Salto. Acompanhou o ministro quando este ingressou no PSB. Sob o comando de
Ciro, passou a concentrar suas emendas ao Orçamento na barragem de Poço
do Marruá. A licitação da obra, orçada em 106 milhões
de reais, foi vencida pela OAS. B. Sá empenhou-se tanto na execução
da barragem que passou a distribuir no estado um adesivo no qual divulga seu esforço.
"Bendito Senhor das Águas", exalta seu adesivo. Nas escutas feitas pela
PF, o deputado solicita o pagamento de comissões, que ora são chamadas
de "passivo", ora de "diferença" e até de "volumoso". Numa das conversas,
B. Sá é instruído a se dirigir a uma sala comercial em Brasília,
para receber "15" o que a polícia interpretou como 15.000 reais.
Fernando
Vivas/AE
 | | Nascimento:
as negociações no seu ministério cheiram mal |
As confusões sobre a barragem de Poço do Marruá não
são novidade para os piauienses. A obra tem sido tão favorecida
durante o governo Lula que já causou até um princípio de
rebelião da bancada federal do estado. Os parlamentares dizem que o governo
transferiu para o Poço do Marruá investimentos em outras represas
que beneficiariam mais pessoas. Há quatro meses, eles cobraram explicações
de Ciro. Disseram que a barragem estava sendo privilegiada e que o governo destinara
ao Poço do Marruá três vezes mais dinheiro do que a outros
projetos semelhantes. Além disso, os recursos sempre chegam antes a essa
barragem. "Ciro respondeu que a obra é prioridade do governo", conta Mussa
Demes, do PFL. As escutas da polícia
apanham Domiciano Cabral na sua intimidade familiar. Seu sogro, Julião
Medeiros, trata de negócios não só com ele, mas também
com a mulher e o cunhado do deputado. Nas escutas, descobre-se que Domiciano,
que desempenhou papel importante na escolha de Geraldo Alckmin como candidato
do PSDB a presidente, esperava financiar sua próxima campanha com recursos
amealhados em obras públicas. Em um diálogo, o deputado e seu sogro
falam de três operações suspeitas. Na primeira, Domiciano
adianta que pedirá ao governador da Paraíba, Cássio Cunha
Lima, que pague uma dívida oficial com a empresa do sogro. Em seguida,
envolve o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. O deputado sugere a Julião
que realize obras na esfera do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes
(DNIT). Ele conta que Nascimento lhe informara que havia "muito dinheiro" nessa
repartição. No diálogo, o DNIT é chamado pelo seu
antigo nome, DNER. Julião lembra que o órgão lhe deve 2 milhões
de reais e promete uma "bolada" ao genro se ele convencer o ministro a lhe pagar.
Domiciano relata que se aproximou do deputado Sandro Mabel, que liderava o PL,
o partido de Nascimento, na Câmara. Pela conversa, sabe-se que Domiciano
contava com Mabel para obter obras para seu sogro no Ministério dos Transportes.
B. Sá desapareceu quando foi
informado de que VEJA publicaria uma reportagem sobre os grampos. Ciro Gomes enviou
uma nota à revista na qual apenas dá detalhes técnicos da
barragem de Poço do Marruá. Domiciano disse que "está de
saco cheio desse denuncismo" e que sairá da política. Alfredo Nascimento
assegurou que não tem relações com Domiciano, e Sandro Mabel
afirmou que o tucano "é um cara desajustado". O conteúdo das escutas
foi encaminhado ao presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, que
instalou uma comissão para analisar a cassação dos parlamentares.
Os envolvidos poderão se explicar de forma mais consistente do que fizeram
a VEJA quando forem convidados a depor pelo corregedor da Câmara, Ciro Nogueira.
Ciro Gomes, por exemplo, terá a oportunidade de convencer a opinião
pública de que nem passa pela sua cabeça transformar a transposição
do São Francisco num mega-Marruá.
José
Alves Filho/Jornal Meio Norte
 |
Deputado
B. Sá (PSB-PI)
Conversas com
Marcelo Queiroga, da OAS, em que ambos teriam acertado pagamento de propina
Em 29 de abril de 2005 B. Sá
Meu filho olhou (às) 11 horas e não tinha caído.
Queiroga Não. Caiu às 15 horas. Só foi
uma parte. A outra, (na) segunda. Já me confirmaram: nove ponto
um. E o restante... Nove ponto cinco, desculpa. E o restante, (na) segunda.
B. Sá Tá legal. Tá bom. | | Em
23 de maio de 2005 B. Sá Eu não tive notícia
daqueles assuntos. Queiroga Vou ter notícias, acho que umas dez horas,
e ligo para o senhor. (...) B. Sá Jogue nesse seu superior...
Queiroga Sim... B. Sá Pra ver se eu recebo o volumoso.
Queiroga A diferença, o.k. B. Sá Isso, porque
é fundamental para mim, rapaz. Isso aí me resolve tudo. Eu vou ficar
eternamente grato aí a vocês. | | |
Ed
Ferreira/AE
 |
Deputado
Domiciano Cabral (PSDB-PB)
Conversa
com Julião Medeiros, da Cojuda, na qual combinam o desvio de dinheiro público
para campanha eleitoral Em
6 de abril de 2005 Domiciano No sábado, eu tô aí.
O senhor me dê isso que estou para conversar com o ministro (Alfredo
Nascimento, dos Transportes). Julião Taí, se esse
dinheiro do DNER sair, você pega uma boa bolada para a campanha. Domiciano
Quanto o senhor tem? Seis, é? Julião Do DNER,
tenho não. Dá uns dois. Domiciano Porque eu tô
para resolver esse negócio com o partido dele (PL). No mês
passado, ele ligou para mim de madrugada querendo que eu tomasse uma posição,
e eu hoje tive com ele. E eu também procurei um camarada. Cê se lembra
que nós brigamos por uma obra no Tocantins que tinha um deputado no meio,
de Goiás, Sandro (M)abel? (...) Hoje, ele é líder
do PL e eu tô conversando com ele. Se tivesse uma coisa... Julião
Se tivesse uma coisa de obra boa, grande... Eu tô com a documentação
toda em ordem. Domiciano Tá bom. | | | Com
reportagem de Heloisa Joly
|