Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Brasil
Um ensaio da transposição

Grampos flagram deputados acertando
propinas. Um deles negociava uma barragem
no Piauí. Pode-se imaginar quanto custará
a obra no Rio São Francisco...


Felipe Patury

 

Marcello Casal Jr/ABR
Ciro Gomes: ele priorizou a barragem e o deputado cobrou propina da OAS

A Câmara dos Deputados será atingida por um novo escândalo nesta semana. A Polícia Federal flagrou os deputados B. Sá, do PSB, e Domiciano Cabral, do PSDB, negociando propinas com empreiteiras no ano passado. Escutas telefônicas mostram que B. Sá defendia os interesses da construtora baiana OAS em seu estado, o Piauí. Seus diálogos com um dos executivos da OAS demonstram que ele trabalhava para liberar recursos federais para a empreiteira, que constrói a barragem de Poço do Marruá no sul do Piauí. Em troca, B. Sá teria recebido pagamentos em dinheiro. Grampos semelhantes apanham Domiciano Cabral acertando comissões em obras feitas pela Cojuda, uma construtora que pertence ao sogro do parlamentar. Os episódios não se restringem ao Congresso. Eles também devem atingir o governo. As investigações sobre o Poço do Marruá podem resvalar no ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, que liberou os recursos para a OAS e pretende tocar uma obra quarenta vezes mais cara, a transposição do Rio São Francisco. Já as conversas de Domiciano Cabral envolvem o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento.

B. Sá transita na esfera de influência de Ciro Gomes desde o início do governo Lula. Ele já mudou tanto de partido que ganhou o apelido de B. Salto. Acompanhou o ministro quando este ingressou no PSB. Sob o comando de Ciro, passou a concentrar suas emendas ao Orçamento na barragem de Poço do Marruá. A licitação da obra, orçada em 106 milhões de reais, foi vencida pela OAS. B. Sá empenhou-se tanto na execução da barragem que passou a distribuir no estado um adesivo no qual divulga seu esforço. "Bendito Senhor das Águas", exalta seu adesivo. Nas escutas feitas pela PF, o deputado solicita o pagamento de comissões, que ora são chamadas de "passivo", ora de "diferença" e até de "volumoso". Numa das conversas, B. Sá é instruído a se dirigir a uma sala comercial em Brasília, para receber "15" – o que a polícia interpretou como 15.000 reais.

Fernando Vivas/AE
Nascimento: as negociações no seu ministério cheiram mal


As confusões sobre a barragem de Poço do Marruá não são novidade para os piauienses. A obra tem sido tão favorecida durante o governo Lula que já causou até um princípio de rebelião da bancada federal do estado. Os parlamentares dizem que o governo transferiu para o Poço do Marruá investimentos em outras represas que beneficiariam mais pessoas. Há quatro meses, eles cobraram explicações de Ciro. Disseram que a barragem estava sendo privilegiada e que o governo destinara ao Poço do Marruá três vezes mais dinheiro do que a outros projetos semelhantes. Além disso, os recursos sempre chegam antes a essa barragem. "Ciro respondeu que a obra é prioridade do governo", conta Mussa Demes, do PFL.

As escutas da polícia apanham Domiciano Cabral na sua intimidade familiar. Seu sogro, Julião Medeiros, trata de negócios não só com ele, mas também com a mulher e o cunhado do deputado. Nas escutas, descobre-se que Domiciano, que desempenhou papel importante na escolha de Geraldo Alckmin como candidato do PSDB a presidente, esperava financiar sua próxima campanha com recursos amealhados em obras públicas. Em um diálogo, o deputado e seu sogro falam de três operações suspeitas. Na primeira, Domiciano adianta que pedirá ao governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, que pague uma dívida oficial com a empresa do sogro. Em seguida, envolve o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. O deputado sugere a Julião que realize obras na esfera do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT). Ele conta que Nascimento lhe informara que havia "muito dinheiro" nessa repartição. No diálogo, o DNIT é chamado pelo seu antigo nome, DNER. Julião lembra que o órgão lhe deve 2 milhões de reais e promete uma "bolada" ao genro se ele convencer o ministro a lhe pagar. Domiciano relata que se aproximou do deputado Sandro Mabel, que liderava o PL, o partido de Nascimento, na Câmara. Pela conversa, sabe-se que Domiciano contava com Mabel para obter obras para seu sogro no Ministério dos Transportes.

B. Sá desapareceu quando foi informado de que VEJA publicaria uma reportagem sobre os grampos. Ciro Gomes enviou uma nota à revista na qual apenas dá detalhes técnicos da barragem de Poço do Marruá. Domiciano disse que "está de saco cheio desse denuncismo" e que sairá da política. Alfredo Nascimento assegurou que não tem relações com Domiciano, e Sandro Mabel afirmou que o tucano "é um cara desajustado". O conteúdo das escutas foi encaminhado ao presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, que instalou uma comissão para analisar a cassação dos parlamentares. Os envolvidos poderão se explicar de forma mais consistente do que fizeram a VEJA quando forem convidados a depor pelo corregedor da Câmara, Ciro Nogueira. Ciro Gomes, por exemplo, terá a oportunidade de convencer a opinião pública de que nem passa pela sua cabeça transformar a transposição do São Francisco num mega-Marruá.

 

José Alves Filho/Jornal Meio Norte


Deputado B. Sá (PSB-PI)

Conversas com Marcelo Queiroga, da OAS, em que ambos teriam acertado pagamento de propina

Em 29 de abril de 2005
B. Sá – Meu filho olhou (às) 11 horas e não tinha caído.
Queiroga – Não. Caiu às
15 horas. Só foi uma parte. A outra, (na) segunda. Já me confirmaram: nove ponto um. E o restante... Nove ponto cinco, desculpa. E o restante, (na) segunda.
B. Sá – Tá legal. Tá bom.

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Em 23 de maio de 2005
B. Sá – Eu não tive notícia daqueles assuntos.
Queiroga – Vou ter notícias, acho que umas dez horas, e ligo para o senhor. (...)
B. Sá – Jogue nesse seu superior...
Queiroga – Sim...
B. Sá – Pra ver se eu recebo o volumoso.
Queiroga – A diferença, o.k.
B. Sá – Isso, porque é fundamental para mim, rapaz. Isso aí me resolve tudo. Eu vou ficar eternamente grato
aí a vocês.
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Ed Ferreira/AE


Deputado Domiciano Cabral (PSDB-PB)

Conversa com Julião Medeiros, da Cojuda, na qual combinam o desvio de dinheiro público para campanha eleitoral  

Em 6 de abril de 2005
Domiciano –
No sábado, eu tô aí. O senhor me dê isso que estou para conversar com o ministro (Alfredo Nascimento, dos Transportes).
Julião – Taí, se esse dinheiro do DNER sair, você pega uma boa bolada para a campanha.
Domiciano – Quanto o senhor tem? Seis, é?
Julião – Do DNER, tenho não. Dá uns dois.
Domiciano – Porque eu tô para resolver esse negócio com o partido dele (PL). No mês passado, ele ligou para mim de madrugada querendo que eu tomasse uma posição, e eu hoje tive com ele. E eu também procurei um camarada. Cê se lembra que nós brigamos por uma obra no Tocantins que tinha um deputado no meio, de Goiás, Sandro (M)abel? (...) Hoje, ele é líder do PL e eu tô conversando com ele. Se tivesse uma coisa...
Julião – Se tivesse uma coisa de obra boa, grande... Eu tô com a documentação toda em ordem.
Domiciano – Tá bom.

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Com reportagem de
Heloisa Joly

 
 
 
 
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