Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Brasil
Está cada vez mais complicado

Depois do motorista, um caseiro
desmente Palocci – e a oposição
rompe a trégua e pede sua demissão


Julia Duailibi e Otávio Cabral

 
Celso Junior/AE
Beto Barata/AE
O ministro Palocci: negativas eram tentativa de evitar envolvimento de sua família Francenildo: dinheiro na conta para mentir ou para falar o que sabe?


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Desmentidos em série
Quadro: A crise e os mercados

Se o Brasil obtivesse hoje o almejado investment grade, o selo de qualidade que coloca o país num seletíssimo clube de boas nações para investir, o ministro da Fazenda teria dificuldade em dar uma entrevista coletiva para anunciar a boa nova. Enredado em incessantes revelações sobre suas relações com a turma de Ribeirão Preto, Antonio Palocci Filho, 45 anos, está cada vez menos ocupado com os destinos da economia brasileira – e cada vez mais atolado em acusações e suspeitas de que tem algo a esconder. Desde janeiro passado, quando depôs na CPI dos Bingos, Palocci garante que jamais colocou os pés no casarão brasiliense em que a turma de Ribeirão promovia negócios diurnos e festas noturnas. Há quinze dias, o motorista Francisco das Chagas Costa, em depoimento à CPI dos Bingos, disse que vira Palocci na casa "umas duas ou três vezes". Na semana passada, apareceu o caseiro Francenildo dos Santos Costa dizendo que vira Palocci na casa "dez ou vinte vezes", que todos o chamavam de "chefe" e que tudo ali era pago em dinheiro vivo, que circulava em malas, dividido em notas de 50 e 100 reais.

 

Beto Barata/AE
A célebre casa do Lago Sul: garotas de programa e dinheiro em malas

Em público, o ministro Palocci mantém a versão de que jamais esteve no casarão do Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Em nota distribuída à imprensa, a pretexto de desmentir a informação do caseiro segundo a qual o ministro costumava chegar ao casarão sozinho, dirigindo um Peugeot prata com vidros escurecidos, Palocci arriscou-se a afimar até que não sabe dirigir "em Brasília". Em privado, porém, Palocci rendeu-se às evidências. No fim da noite de quarta-feira passada, numa conversa com o presidente Lula na Granja do Torto, Palocci fez a confissão que vinha evitando até então: admitiu que esteve, sim, no casarão e explicou que suas negativas públicas eram apenas uma tentativa de preservar sua família – dado o fato já notório de que a casa também era freqüentada por garotas de programa. Palocci resumiu sua conversa com o presidente Lula a um membro da coordenação do governo, que relatou o caso a VEJA sob a condição de não ter a identidade revelada. "Eu entendo que ele tenha mentido para proteger a família e tenho certeza de que o presidente também entendeu", afirma esse auxiliar do governo.

A confissão de Palocci, discretamente difundida entre os aliados, deu algum fôlego a seus defensores. Em conversas reservadas com parlamentares no cafezinho da Câmara, ou em comentários ao pé do ouvido com jornalistas, líderes do PT passaram a difundir a versão de que Palocci "até pode ter visitado a casa", mas não há nenhum indício de que tenha se envolvido em negócios ilícitos, partilha de dinheiro ou reunião com lobistas. "Ele foi à casa para compromissos particulares. Não tem sentido falar em corrupção, insistir em desvio de dinheiro público", diz um dos aliados que ajudaram a aplicar a nova estratégia de defesa do ministro. O depoimento do caseiro Francenildo também foi colocado em suspeição. Depósitos vultosos feitos em sua conta bancária (quase 40.000 reais em dois meses) poderiam ser indicativos de que ele só falou por dinheiro. Os advogados do caseiro informam que o montante foi depositado pelo pai de Francenildo, filho natural de um homem de posses, que confirma os depósitos, mas nega a paternidade. Se ele mentiu por dinheiro, é grave. Mostra que Palocci pode estar falando a verdade quando diz que está sendo vítima de manobras eleitorais. Mas, se Francenildo falou a verdade mesmo que motivado por dinheiro, a situação do ministro Palocci não melhora em nada.

 
Beto Barata/AE
Roberto Barroso
Os senadores Arthur Virgílio (à esq.) e Pedro Simon: pedidos de demissão e de afastamento

O grande problema de Palocci é que, a essa altura do escândalo, talvez seu dilema não se resuma mais à natureza de suas incursões ao casarão. Mesmo que o ministro não tenha se envolvido em ilicitudes na casa, resta saber o que o levou a afirmar que, desde a posse na Fazenda, deixara de ter contato com a turma de Ribeirão Preto. Nos primórdios do escândalo, Palocci chegou até a dizer que não falava com o advogado Rogério Buratti havia anos – e, agora, sabe-se que ambos se cruzavam na casa do Lago Sul. Por que o ministro tentou esconder essa e outras conexões com velhos amigos e assessores?

Na manhã de quinta-feira, ao reunir-se com cinco ministros e dois senadores petistas para discutir a situação, o presidente Lula deu sinais de que estava satisfeito com as explicações de Palocci e mostrou sua disposição de mantê-lo no cargo. "Palocci já agüentou muita pressão contra o governo. Agora, o governo tem de agüentar essa pressão contra ele", disse o presidente, conforme o relato de um dos presentes. Lula também se mostrou convencido de que o recrudescimento das denúncias é fruto de manobras da oposição, interessada em desgastar o governo na largada da campanha presidencial. No Palácio do Planalto, arquiva-se sem análise a hipótese de que próceres do PSDB e do PFL deixaram de poupar Palocci porque as denúncias ficaram graves demais. Na mesma reunião matinal, Lula autorizou que se recorresse ao Supremo Tribunal Federal para impedir que o caseiro depusesse na CPI dos Bingos. O senador Tião Viana encarregou-se de fazer o pedido ao STF, alegando que o depoimento do caseiro representava um desvio das finalidades da CPI, oficialmente criada para investigar as casas de bingo e suas eventuais conexões com o crime organizado. Foi prontamente atendido por uma liminar do ministro Cezar Peluso, do STF.

Antonio Cruz/AE
Tião Viana: socorro no STF


A proibição do depoimento do caseiro na CPI soou como um tiro pela culatra. A estratégia irritou a oposição e, naturalmente, engrossou as suspeitas de que o depoente pudesse ter revelações ainda mais comprometedoras a fazer. No depoimento, que durou apenas quarenta minutos até que o STF mandou suspendê-lo, o caseiro repetiu o que falara antes e acrescentou alguns detalhes. Disse que, numa ocasião, chegou a conversar rapidamente com o ministro, por meio do interfone instalado na portaria da casa. Palocci, disse o caseiro, não conseguiu achar a saída do condomínio e voltou à casa para perguntar, pelo interfone, sobre o caminho que deveria pegar para ir embora. Num dos momentos mais incisivos, ao ser indagado se realmente tinha certeza da presença de Palocci na casa e de ser alertado sobre a gravidade de sua afirmação, ele respondeu sem titubear: "Confirmo até morrer". Encerrado o depoimento do caseiro por ordem da Justiça, o senador Arthur Virgílio, líder do PSDB, anunciou que, diante das evidências de que Palocci mentira ao negar suas visitas à casa, pretendia subir à tribuna do Senado e pedir sua demissão.

"Aquele que depende do silêncio imposto pela força a um caseiro de 24 anos de idade não é mais ministro", disse Arthur Virgílio, que sempre se comportou como defensor de Palocci e admirador confesso de sua gestão à frente do Ministério da Fazenda. O senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho, pediu que Palocci tirasse uma licença de trinta dias, enquanto as coisas não são definitivamente esclarecidas. Em certo sentido, Palocci está menos ministro da Fazenda do que antes. Não despacha mais no prédio do Ministério da Fazenda, tendo optado por uma sala no 4º andar do Palácio do Planalto, apenas porque ali é possível entrar pela garagem, evitando a presença de jornalistas na portaria central. Não aparece em público desde que participou da comitiva presidencial que esteve em Londres, há duas semanas. Nem mesmo o mercado se agita quando as denúncias contra o ministro recrudescem. Na semana passada, os principais indicadores do humor dos investidores permaneceram inabaláveis. E quem vem comandando a rotina diária do ministério é Murilo Portugal, atual secretário executivo. Entre as inúmeras tarefas que tem executado, Portugal vem negociando até a aprovação do Orçamento da União no Congresso Nacional – uma tarefa que, em condições de normalidade, sempre coube ao próprio ministro.

A situação do ministro Palocci vem se deteriorando. Há poucas semanas, já acusando o desgaste provocado pelas denúncias mais recentes, Palocci anunciou que não deixará o governo para coordenar a campanha à reeleição do presidente Lula. Dentro do governo, disseminou-se a convicção de que sua presença no comando da campanha pudesse manter acesa a chama dos escândalos, estabelecendo uma indesejável associação da campanha com as denúncias de corrupção. De lá para cá, a situação do ministro só piorou com os desmentidos públicos de um motorista e de um caseiro sem nenhuma razão conhecida para mentir.

 
 
 
 
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