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Brasil Está
cada vez mais complicado Depois do motorista,
um caseiro desmente Palocci e a oposição rompe a
trégua e pede sua demissão  Julia
Duailibi e Otávio Cabral
Celso
Junior/AE
 | Beto
Barata/AE
 | | O
ministro Palocci: negativas eram tentativa de evitar envolvimento de sua família
| Francenildo: dinheiro na conta para mentir ou para falar
o que sabe? |
Se o Brasil obtivesse hoje o almejado
investment grade, o selo de qualidade que coloca o país num seletíssimo
clube de boas nações para investir, o ministro da Fazenda teria
dificuldade em dar uma entrevista coletiva para anunciar a boa nova. Enredado
em incessantes revelações sobre suas relações com
a turma de Ribeirão Preto, Antonio Palocci Filho, 45 anos, está
cada vez menos ocupado com os destinos da economia brasileira e cada vez
mais atolado em acusações e suspeitas de que tem algo a esconder.
Desde janeiro passado, quando depôs na CPI dos Bingos, Palocci garante que
jamais colocou os pés no casarão brasiliense em que a turma de Ribeirão
promovia negócios diurnos e festas noturnas. Há quinze dias, o motorista
Francisco das Chagas Costa, em depoimento à CPI dos Bingos, disse que vira
Palocci na casa "umas duas ou três vezes". Na semana passada, apareceu o
caseiro Francenildo dos Santos Costa dizendo que vira Palocci na casa "dez ou
vinte vezes", que todos o chamavam de "chefe" e que tudo ali era pago em dinheiro
vivo, que circulava em malas, dividido em notas de 50 e 100 reais. Beto
Barata/AE
 | | A
célebre casa do Lago Sul: garotas de programa e dinheiro em malas |
Em público, o ministro Palocci mantém a versão de que jamais
esteve no casarão do Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Em nota
distribuída à imprensa, a pretexto de desmentir a informação
do caseiro segundo a qual o ministro costumava chegar ao casarão sozinho,
dirigindo um Peugeot prata com vidros escurecidos, Palocci arriscou-se a afimar
até que não sabe dirigir "em Brasília". Em privado, porém,
Palocci rendeu-se às evidências. No fim da noite de quarta-feira
passada, numa conversa com o presidente Lula na Granja do Torto, Palocci fez a
confissão que vinha evitando até então: admitiu que esteve,
sim, no casarão e explicou que suas negativas públicas eram apenas
uma tentativa de preservar sua família dado o fato já notório
de que a casa também era freqüentada por garotas de programa. Palocci
resumiu sua conversa com o presidente Lula a um membro da coordenação
do governo, que relatou o caso a VEJA sob a condição de não
ter a identidade revelada. "Eu entendo que ele tenha mentido para proteger a família
e tenho certeza de que o presidente também entendeu", afirma esse auxiliar
do governo. A confissão de
Palocci, discretamente difundida entre os aliados, deu algum fôlego a seus
defensores. Em conversas reservadas com parlamentares no cafezinho da Câmara,
ou em comentários ao pé do ouvido com jornalistas, líderes
do PT passaram a difundir a versão de que Palocci "até pode ter
visitado a casa", mas não há nenhum indício de que tenha
se envolvido em negócios ilícitos, partilha de dinheiro ou reunião
com lobistas. "Ele foi à casa para compromissos particulares. Não
tem sentido falar em corrupção, insistir em desvio de dinheiro público",
diz um dos aliados que ajudaram a aplicar a nova estratégia de defesa do
ministro. O depoimento do caseiro Francenildo também foi colocado em suspeição.
Depósitos vultosos feitos em sua conta bancária (quase 40.000 reais
em dois meses) poderiam ser indicativos de que ele só falou por dinheiro.
Os advogados do caseiro informam que o montante foi depositado pelo pai de Francenildo,
filho natural de um homem de posses, que confirma os depósitos, mas nega
a paternidade. Se ele mentiu por dinheiro, é grave. Mostra que Palocci
pode estar falando a verdade quando diz que está sendo vítima de
manobras eleitorais. Mas, se Francenildo falou a verdade mesmo que motivado por
dinheiro, a situação do ministro Palocci não melhora em nada.
Beto
Barata/AE
 | Roberto
Barroso
 | | Os
senadores Arthur Virgílio (à esq.) e Pedro Simon: pedidos
de demissão e de afastamento |
O grande problema de Palocci é que, a essa altura do escândalo, talvez
seu dilema não se resuma mais à natureza de suas incursões
ao casarão. Mesmo que o ministro não tenha se envolvido em ilicitudes
na casa, resta saber o que o levou a afirmar que, desde a posse na Fazenda, deixara
de ter contato com a turma de Ribeirão Preto. Nos primórdios do
escândalo, Palocci chegou até a dizer que não falava com o
advogado Rogério Buratti havia anos e, agora, sabe-se que ambos
se cruzavam na casa do Lago Sul. Por que o ministro tentou esconder essa e outras
conexões com velhos amigos e assessores?
Na manhã de quinta-feira, ao reunir-se com cinco ministros e dois senadores
petistas para discutir a situação, o presidente Lula deu sinais
de que estava satisfeito com as explicações de Palocci e mostrou
sua disposição de mantê-lo no cargo. "Palocci já agüentou
muita pressão contra o governo. Agora, o governo tem de agüentar essa
pressão contra ele", disse o presidente, conforme o relato de um dos presentes.
Lula também se mostrou convencido de que o recrudescimento das denúncias
é fruto de manobras da oposição, interessada em desgastar
o governo na largada da campanha presidencial. No Palácio do Planalto,
arquiva-se sem análise a hipótese de que próceres do PSDB
e do PFL deixaram de poupar Palocci porque as denúncias ficaram graves
demais. Na mesma reunião matinal, Lula autorizou que se recorresse ao Supremo
Tribunal Federal para impedir que o caseiro depusesse na CPI dos Bingos. O senador
Tião Viana encarregou-se de fazer o pedido ao STF, alegando que o depoimento
do caseiro representava um desvio das finalidades da CPI, oficialmente criada
para investigar as casas de bingo e suas eventuais conexões com o crime
organizado. Foi prontamente atendido por uma liminar do ministro Cezar Peluso,
do STF.
Antonio
Cruz/AE
 | | Tião
Viana: socorro no STF |
A
proibição do depoimento do caseiro na CPI soou como um tiro pela
culatra. A estratégia irritou a oposição e, naturalmente,
engrossou as suspeitas de que o depoente pudesse ter revelações
ainda mais comprometedoras a fazer. No depoimento, que durou apenas quarenta minutos
até que o STF mandou suspendê-lo, o caseiro repetiu o que falara
antes e acrescentou alguns detalhes. Disse que, numa ocasião, chegou a
conversar rapidamente com o ministro, por meio do interfone instalado na portaria
da casa. Palocci, disse o caseiro, não conseguiu achar a saída do
condomínio e voltou à casa para perguntar, pelo interfone, sobre
o caminho que deveria pegar para ir embora. Num dos momentos mais incisivos, ao
ser indagado se realmente tinha certeza da presença de Palocci na casa
e de ser alertado sobre a gravidade de sua afirmação, ele respondeu
sem titubear: "Confirmo até morrer". Encerrado o depoimento do caseiro
por ordem da Justiça, o senador Arthur Virgílio, líder do
PSDB, anunciou que, diante das evidências de que Palocci mentira ao negar
suas visitas à casa, pretendia subir à tribuna do Senado e pedir
sua demissão.
"Aquele que depende
do silêncio imposto pela força a um caseiro de 24 anos de idade não
é mais ministro", disse Arthur Virgílio, que sempre se comportou
como defensor de Palocci e admirador confesso de sua gestão à frente
do Ministério da Fazenda. O senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho,
pediu que Palocci tirasse uma licença de trinta dias, enquanto as coisas
não são definitivamente esclarecidas. Em certo sentido, Palocci
está menos ministro da Fazenda do que antes. Não despacha mais no
prédio do Ministério da Fazenda, tendo optado por uma sala no 4º
andar do Palácio do Planalto, apenas porque ali é possível
entrar pela garagem, evitando a presença de jornalistas na portaria central.
Não aparece em público desde que participou da comitiva presidencial
que esteve em Londres, há duas semanas. Nem mesmo o mercado se agita quando
as denúncias contra o ministro recrudescem. Na semana passada, os principais
indicadores do humor dos investidores permaneceram inabaláveis. E quem
vem comandando a rotina diária do ministério é Murilo Portugal,
atual secretário executivo. Entre as inúmeras tarefas que tem executado,
Portugal vem negociando até a aprovação do Orçamento
da União no Congresso Nacional uma tarefa que, em condições
de normalidade, sempre coube ao próprio ministro.
A situação do ministro Palocci vem se deteriorando. Há poucas
semanas, já acusando o desgaste provocado pelas denúncias mais recentes,
Palocci anunciou que não deixará o governo para coordenar a campanha
à reeleição do presidente Lula. Dentro do governo, disseminou-se
a convicção de que sua presença no comando da campanha pudesse
manter acesa a chama dos escândalos, estabelecendo uma indesejável
associação da campanha com as denúncias de corrupção.
De lá para cá, a situação do ministro só piorou
com os desmentidos públicos de um motorista e de um caseiro sem nenhuma
razão conhecida para mentir. |