Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Brasil
Operação nebulosa  

Falta de transparência ofusca sucesso do
Exército na recuperação de armas no Rio


Ronaldo Soares

André Luiz Mello/AP
As armas, de volta ao quartel: a perícia será feita na Polícia Federal

A megaoperação do Exército para recuperar armas roubadas de um quartel no Rio de Janeiro terminou na terça-feira da semana passada, quando os dez fuzis e uma pistola foram finalmente encontrados. Segundo a versão oficial, as armas foram localizadas na terça à noite, próximo à favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro, após doze dias de ocupação dos morros cariocas e uma inédita mobilização de tropas. Chegou a haver 1.500 homens simultaneamente nas ruas da cidade. Seria possível dizer que, do ponto de vista operacional, a empreitada fora um sucesso, inclusive de público. No período da ocupação, os índices de criminalidade despencaram e a população aprovou a ocupação, a despeito de denúncias de supostos abusos dos militares. O êxito do Exército, no entanto, foi ofuscado no final. No dia seguinte à divulgação da recuperação das armas, o Comando Militar do Leste (CML) foi pego no contrapé por uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, segundo a qual a versão oficial seria uma farsa. Os militares estariam de posse delas desde domingo e, pior, teriam ocultado uma negociação com bandidos para reaver as armas.

A história inicialmente contada pelo Exército era apenas imprecisa e superficial. No entanto, ao tentar desmentir o suposto acordo, o que era mera imprecisão tornou-se informação contraditória. O chefe do Estado Maior do CML, general Hélio Macedo, e o secretário de Segurança Pública do Rio, Marcelo Itagiba, foram pouco convincentes nas explicações sobre o local onde o armamento foi encontrado. A forma como se obteve a informação também é obscura. Sobre esse assunto o Exército foi evasivo – disse apenas que um informante indicou o esconderijo das armas. Nada disso fornece elementos para se afirmar que o Exército tenha mentido ou feito tratativas com facínoras. Mas a falta de transparência no desfecho do caso revela que, pelo menos no campo da credibilidade, o que os militares sofreram foi um revés.

 

Custódio Coimbra/Ag. O Globo
Itagiba e Macedo: explicações pouco convincentes  

A Polícia Civil do Rio também desconfia que a entrega das armas ocorreu no domingo, e não na terça. De tão nebulosa, a história acabou levantando suspeita no próprio meio militar. A Justiça Militar solicitou à Polícia Federal – e não aos peritos do Exército, como queria o CML – que faça perícia nas armas encontradas. O Ministério Público Militar, como é praxe nesses casos, decidiu investigar se houve negociação com traficantes. Com sua rígida disciplina, o Exército sabe que não pode haver dúvidas sobre sua atuação. Sob risco de ver ameaçado um patrimônio muito mais valioso do que onze armas: a credibilidade da instituição. O mais grave, no entanto, é que logo após a retirada das tropas os traficantes já apareciam ostentando fuzis nas favelas, retomando o "poder" num pedaço da cidade que deveria ser controlado pelo Estado – e não por bandidos.

 
 
 
 
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