Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Para eles tem lógica...  

...mas para o Brasil as punições e as absolvições de deputados parecem só um jogo de interesses

Como política não é matemática, o Congresso Nacional não produz equações exatas. Há quinze dias, os deputados protagonizaram um vexame duplo ao poupar o mandato de dois deputados que comprovadamente receberam recursos do valerioduto. Na semana passada, outros dois acusados foram a julgamento do plenário e, dessa vez, a lógica prevaleceu. O deputado Pedro Henry, do PP de Mato Grosso, foi inocentado por 255 votos contra 176, numa decisão que obedeceu à recomendação do Conselho de Ética. O deputado foi acusado de comandar o mensalão em seu partido pelo deputado cassado Roberto Jefferson, mas não se encontrou uma única prova disso. Na outra votação, o plenário cassou o mandato do pernambucano Pedro Corrêa, presidente do PP, que pegou 4,1 milhões de reais no valerioduto. Corrêa dizia que sacara apenas 700.000 reais, para pagar honorários de um advogado que trabalhou para seu partido, mas foi derrotado pelas evidências de que distribuiu o restante do dinheiro entre seus correligionários. Com a absolvição de Henry e a cassação de Corrêa, ficou a impressão de que o plenário retomou o rumo, condenando quando há provas e absolvendo na ausência delas.

As decisões da Câmara, porém, trazem ecos de que o julgamento é influenciado pelo conjunto da obra dos deputados. Corrêa, por exemplo, já se enrolou no escândalo dos anões do Orçamento e com uma máfia que falsificava combustíveis. A fartura de rolos em sua biografia pode ter ajudado na cassação de seu mandato. Por isso mesmo, o teste mais relevante sobre quanto o plenário da Câmara está levando em conta as provas do mensalão, e não apenas o conjunto da obra, acontecerá no julgamento do deputado petista João Paulo Cunha, que presidiu a Câmara entre 2003 e 2005. Na semana passada, o Conselho de Ética votou pela cassação de João Paulo. Foram 9 votos a 5. O julgamento em plenário está previsto para ocorrer na semana que vem. Com uma biografia correta, João Paulo tornou-se também um deputado benquisto e bem relacionado na Câmara. Seu envolvimento com o valerioduto, porém, é quase umbilical. Além de sua mulher ter sacado 50.000 reais no Banco Rural, o deputado contratou uma agência de Marcos Valério para trabalhar na Câmara, recebeu-o num café-da-manhã em sua residência oficial, foi presenteado com uma caneta Montblanc e sua secretária, agraciada com uma viagem com tudo pago. João Paulo tem tudo, portanto, para ser cassado. A conferir o que fará o plenário.

 

JOSÉ DIRCEU (PT-SP)
• Acusado de comandar o mensalão
• Conseguiu emprego para ex-mulher no BMG, banco envolvido no valerioduto
• Um assessor seu foi autorizado a sacar 50 000 reais do valerioduto  

ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ)
• Recebeu 4 milhões de reais do valerioduto
• Cobrou mesada de indicados políticos do PTB para estatais


Antonio Machado/Folha Imagem
PEDRO HENRY (PP-MT)
• Acusado de comandar o mensalão no PP  

SANDRO MABEL (PL-GO)
• Acusado de comandar o mensalão do PL
• Acusado de tentar comprar uma deputada do PSDB  

ROMEU QUEIROZ (PTB-MG)
• Recebeu 350 000 reais de Marcos Valério  

ROBERTO BRANT (PFL-MG)
• Recebeu 103 000 reais de Marcos Valério  

PROFESSOR LUIZINHO (PT-SP)
• Sacou 20 000 reais do valerioduto  


Joedson Alves/AE


PEDRO CORRÊA (PP-PE)

• Recebeu 4,1 milhões de reais do valerioduto

 
 
 
 
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