Então
fica assim, dona psicanalista: se eu voltar enquanto estiver ausente não
deixe que eu saia de novo, pois tenho problema gravíssimo pra resolver
comigo mesmo. |  |
E
agora? Chávez é o rei do petróleo. E Bush é o general
do isqueiro. |
Reflexão inútil
enquanto o mundo do Islã tenta condenar à morte autores de caricaturas.
A suprema fé Com
a morte de nosso pai, aos 36 anos, tínhamos descido de uma confortável,
gloriosa classe média. Nossa mãe, só com 27 anos, quatro
filhos, alugou metade da casa pruma irmã mais velha, passou a costurar
pra fora. Éramos agora apenas uma modesta família proletária.
Mas, crianças, não sabíamos disso, e a vida prosseguia como
se fosse milionária. Os quatro irmãos,
dois homens, duas mulheres, 9 anos depois desceriam para o lúmpen.
A mãe morreu também, também aos 36 anos. Pais morrem, mães
morrem, é a lei da vida, dizem. O importante, na minha, é que, depois
do enterro da mãe, já desterrado pra bairro mais pobre e mais distante,
fui pra baixo de uma cama, em cima de uma esteira, e, sem que ninguém visse,
chorei como um desgraçado. E aí, aos 10 anos de idade, descobri
que não havia nada que significasse, nada que me protegesse. Nem
na terra e muito menos no céu. Deus? Tá. Era eu e o mundo. O que
não me trouxe desespero. Me trouxe alívio para sempre. Descobri
a paz da descrença. Para sempre essa tranqüilidade
em mim. A paz da descrença que me foi lembrada há pouco tempo pelo
jovem diplomata, poeta e ensaísta Felipe Fortuna no prefácio da
Aeropagítica de John Milton (primorosa edição TOPBOOKS),
discurso pela liberdade de imprensa no Parlamento da Inglaterra, em 1644.
A
citação de Felipe Fortuna: "Inspirado pela polêmica a respeito
da condenação à morte do escritor Salmon Rushdie, autor de
Versos Satânicos, Millôr Fernandes (JB, 1989) lembrou
que a proliferação de milhões de grupos religiosos resultou
em diversas guerras, ao passo que os descrentes nunca saíram de suas poltronas
para defender a fundamentação filosófica de sua descrença.
Assim, lançou a idéia de que da Constituição brasileira
deveria fazer parte um item absolutamente inédito, defendendo uma liberdade
fundamental, na qual se baseia a salvação da humanidade: A LIBERDADE
DA DESCRENÇA". É isso aí,
coleguinhas. Eu já tinha afirmado pretensiosa e despretensiosamente
na epígrafe de meu livro e peça de teatro Um Elefante
no Caos: "Eu Também Não Sou Um Homem Livre, Mas Muito Poucos
Estiveram Tão Perto". A liberdade está
sempre junto da capacidade de não acreditar no que te querem impor, no
que te querem vender. Convencido por Felipe Fortuna, publiquei, como orelha
na edição atual da Aeropagítica, este decálogo,
de dez itens, claro! 1 Só existe
um modo de ser livre: ser o opressor. 2 O
escravo quase sempre é colaborador de sua escravidão.
3 A Constituição, que institui que todo
homem tem direito à liberdade, não conhece o homem-padrão.
Ele tem que ser obrigado à liberdade. 4
A liberdade absoluta só existe em momentos-limite, quando não
se tem mais nada a perder. 5 A satisfação
de nosso ego (liberdade) só é alcançada em detrimento de
algum outro (ou de muitos outros) ego. Portanto a liberdade mesmo utópica
só poderá ser a média da satisfação de todos
os egos. Uma insatisfação. Uma mediocridade.
6 Deve-se exigir toda liberdade dos que estão
acima. E ser leniente na exigência de contrapartida dos que estão
abaixo. Mas o contrário é mais factível. 7
O carcereiro não pode vigiar o prisioneiro o tempo todo. O encarcerado
pode fugir a qualquer descuido. Donde o prisioneiro ser (filosoficamente) mais
livre do que o carcereiro. 8 As prisões
mais sujas, todos sabem, são as mais livres. 9
Ninguém pode nos dar liberdade. Mas qualquer um pode tirar, a começar
pelos pais, trazendo-nos ao mundo em condições inadequadas.
10 Com liberdade total o mais forte domina o mais fraco
em nome de sua liberdade, o mais inteligente espezinha o mais ignorante em nome
de sua inteligência, o mais belo seduz mais em detrimento do fisicamente
destituído. Franklin, ao fazer o lema da Revolução Francesa,
Liberdade, Igualdade e Fraternidade, usou o elemento conciliador e humanístico
Fraternidade para sugerir um equilíbrio impossível no paradoxo
Liberdade x Igualdade. |