Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Então fica assim, dona psicanalista: se eu voltar enquanto estiver ausente não deixe que eu saia de novo, pois tenho problema gravíssimo pra resolver comigo mesmo.


E agora? Chávez é o rei do petróleo. E Bush é o general do isqueiro.

Reflexão inútil enquanto o mundo do Islã tenta condenar à morte autores de caricaturas.

A suprema fé

Com a morte de nosso pai, aos 36 anos, tínhamos descido de uma confortável, gloriosa classe média. Nossa mãe, só com 27 anos, quatro filhos, alugou metade da casa pruma irmã mais velha, passou a costurar pra fora. Éramos agora apenas uma modesta família proletária. Mas, crianças, não sabíamos disso, e a vida prosseguia como se fosse milionária.

Os quatro irmãos, dois homens, duas mulheres, 9 anos depois desceriam para o lúmpen. A mãe morreu também, também aos 36 anos. Pais morrem, mães morrem, é a lei da vida, dizem. O importante, na minha, é que, depois do enterro da mãe, já desterrado pra bairro mais pobre e mais distante, fui pra baixo de uma cama, em cima de uma esteira, e, sem que ninguém visse, chorei como um desgraçado. E aí, aos 10 anos de idade, descobri que não havia nada que significasse, nada que me protegesse. Nem na terra e muito menos no céu. Deus? Tá. Era eu e o mundo. O que não me trouxe desespero. Me trouxe alívio para sempre. Descobri a paz da descrença.

Para sempre essa tranqüilidade em mim. A paz da descrença que me foi lembrada há pouco tempo pelo jovem diplomata, poeta e ensaísta Felipe Fortuna no prefácio da Aeropagítica de John Milton (primorosa edição TOPBOOKS), discurso pela liberdade de imprensa no Parlamento da Inglaterra, em 1644.

A citação de Felipe Fortuna: "Inspirado pela polêmica a respeito da condenação à morte do escritor Salmon Rushdie, autor de Versos Satânicos, Millôr Fernandes (JB, 1989) lembrou que a proliferação de milhões de grupos religiosos resultou em diversas guerras, ao passo que os descrentes nunca saíram de suas poltronas para defender a fundamentação filosófica de sua descrença. Assim, lançou a idéia de que da Constituição brasileira deveria fazer parte um item absolutamente inédito, defendendo uma liberdade fundamental, na qual se baseia a salvação da humanidade: A LIBERDADE DA DESCRENÇA".

É isso aí, coleguinhas. Eu já tinha afirmado – pretensiosa e despretensiosamente – na epígrafe de meu livro e peça de teatro Um Elefante no Caos: "Eu Também Não Sou Um Homem Livre, Mas Muito Poucos Estiveram Tão Perto".

A liberdade está sempre junto da capacidade de não acreditar no que te querem impor, no que te querem vender. Convencido por Felipe Fortuna, publiquei, como orelha na edição atual da Aeropagítica, este decálogo, de dez itens, claro!

1 Só existe um modo de ser livre: ser o opressor.

2 O escravo quase sempre é colaborador de sua escravidão.

3 A Constituição, que institui que todo homem tem direito à liberdade, não conhece o homem-padrão. Ele tem que ser obrigado à liberdade.

4 A liberdade absoluta só existe em momentos-limite, quando não se tem mais nada a perder.

5 A satisfação de nosso ego (liberdade) só é alcançada em detrimento de algum outro (ou de muitos outros) ego. Portanto a liberdade mesmo utópica só poderá ser a média da satisfação de todos os egos. Uma insatisfação. Uma mediocridade.

6 Deve-se exigir toda liberdade dos que estão acima. E ser leniente na exigência de contrapartida dos que estão abaixo. Mas o contrário é mais factível.

7 O carcereiro não pode vigiar o prisioneiro o tempo todo. O encarcerado pode fugir a qualquer descuido. Donde o prisioneiro ser (filosoficamente) mais livre do que o carcereiro.

8 As prisões mais sujas, todos sabem, são as mais livres.

9 Ninguém pode nos dar liberdade. Mas qualquer um pode tirar, a começar pelos pais, trazendo-nos ao mundo em condições inadequadas.

10 Com liberdade total o mais forte domina o mais fraco em nome de sua liberdade, o mais inteligente espezinha o mais ignorante em nome de sua inteligência, o mais belo seduz mais em detrimento do fisicamente destituído. Franklin, ao fazer o lema da Revolução Francesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, usou o elemento conciliador e humanístico Fraternidade para sugerir um equilíbrio impossível no paradoxo Liberdade x Igualdade.

 
 
 
 
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