Edição 1948 . 22 de março de 2006

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Diogo Mainardi
Atear fogo no PSDB?

"As estripulias do PSDB ajudam a entender
o que ocorreu no país
no último ano: por que
a roubalheira não foi investigada a fundo,
por que
a maioria dos mensaleiros ficou
impune, por
que Lula ainda está no poder"

O PSDB tinha dois candidatos. Um deles, segundo a última pesquisa do Ibope, estava empatado com Lula. O outro perdia no primeiro turno. O escolhido foi o que perdia no primeiro turno.

Para quem está empenhado apenas em se livrar de Lula, como eu, e não dá a mínima para a disputa interna dos tucanos, o resultado não poderia ser pior. Pensei em atear fogo à sede do PSDB. Procurei seis ou sete pessoas para perguntar onde ficava o partido e acabei encontrando, meio por acaso, a caixa-preta do desastre peessedebista, que me permitiu reconstruir os eventos dos últimos dias.

Aécio Neves deu um baile nos figurões do PSDB. Do Canadá, onde foi passar férias, telefonava a José Serra para garantir-lhe seu apoio, ao mesmo tempo em que telefonava a Geraldo Alckmin, aconselhando-o a exigir prévias para a escolha do candidato. Em público, Aécio Neves assegurava que nada estava decidido. Em particular, desde a quinta-feira da semana anterior, ligava para seus amigos na imprensa e plantava a notícia de que Geraldo Alckmin havia sido escolhido. Aécio Neves sabe exatamente o que quer: eleger-se presidente em 2010, quando Furnas estará esquecida. O melhor caminho para ele é a derrota de Geraldo Alckmin contra Lula.

Marconi Perillo e José Anibal atuaram juntos arregimentando governadores e parlamentares do PSDB para a campanha de Geraldo Alckmin. O primeiro ganhou a promessa de um ministério. O segundo, que conta com a simpatia das empreiteiras responsáveis pelas obras do metrô paulistano, poderá concorrer ao governo estadual. Um dos homens de José Anibal no Congresso Nacional é o deputado Carlos Sampaio. Ele foi o autor do parecer que, nesta semana, absolveu Pedro Henry, acusado de ser um dos maiores operadores do mensalão.

Tasso Jereissati, nos primeiros tempos, sustentou a candidatura de Geraldo Alckmin. Quando percebeu que ele não tinha muita possibilidade de ser eleito, debandou para o lado de José Serra. Na última hora, voltou atrás novamente, liberando a tropa cearense para apoiar Geraldo Alckmin.

Fernando Henrique Cardoso, algumas horas antes que o partido anunciasse sua escolha, telefonou ao diretor do Ibope, Carlos Montenegro. Ele queria saber se, na pesquisa que seria divulgada no dia seguinte, José Serra realmente apareceria empatado com Lula. Carlos Montenegro negou. Enganado por seu informante, Fernando Henrique recomendou a José Serra que desistisse da disputa. Foi o que aconteceu. José Serra se acovardou. Fugiu da raia. Deu no pé.

Eu sei que não há nada mais inútil e aborrecido do que reportagens bisbilhoteiras que contam os bastidores da política. O melhor é ficar longe dos políticos. Quanto mais longe, melhor. Mas as estripulias do PSDB ajudam a entender o que ocorreu no país no último ano: por que a roubalheira não foi investigada a fundo, por que a maioria dos mensaleiros ficou impune, por que Lula ainda está no poder.

Continuo pensando em atear fogo à sede do PSDB.

 
 
 
 
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