Edição 1 641 - 22/3/2000

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Notas para um dicionário brasileiro de política (5)

Em homenagem ao escândalo da prefeitura de São Paulo, uma cândida repassada em verbetes clássicos do gênero

Adhemarismo – Conjunto das forças identificadas com o político paulista Adhemar de Barros (1901-1969), interventor no Estado (1938-1941), governador (1947-1951 e 1963-1966), prefeito da capital (1957-1961) e duas vezes candidato a presidente (1955 e 1960). O adhemarismo inaugurou, em São Paulo, o fenômeno a que os cientistas políticos chamam de "populismo", caracterizado pelo uso leviano dos poderes e dinheiros públicos e, sobretudo, pelo talento ilusionista, levado a efeito com esbanjamento de recursos cênicos, com que simula promover ações em benefício dos deserdados enquanto trabalha para o outro lado, ou para si próprio. "A administração Adhemar de Barros caracterizou-se por extremo dinamismo empreendedor, e por absoluto desprezo pelas limitações de ordem financeira", escreveu Regina Sampaio, no livro Adhemar de Barros e o PSP, a respeito da primeira passagem do político pelo governo paulista. Estava fixado um padrão destinado a longa vida, na política paulista.

Caixinha – Recursos de origem ilícita, amealhados quer por um político, individualmente, quer por um grupo, e usados, quer para desfrute pessoal, quer para o financiamento de campanhas. O investidor Naji Nahas teria aconselhado o prefeito Celso Pitta a "fazer uma caixinha", segundo denúncia da ex-mulher do prefeito, para fazer frente às despesas com advogados, nos processos que fatalmente adviriam ao fim do mandato. Com isso o distinto público ficou conhecendo mais uma utilidade das caixinhas. O carinhoso hábito de empregar a palavra no diminutivo filia-se à tendência, característica do país, de encobrir magnos descalabros com pequenos invólucros. Diz-se que fulano gosta de uma "pinguinha" quando é um beberrão, pede-se um "favorzinho" para pleitear privilégios descabidos, e afirma-se que o funcionário deu uma "saidinha" para qualificar as ausências mais inexplicáveis.

Esquema – Organização destinada a auferir vantagens por meio de práticas ilícitas. Exemplos: o "esquema" dos fiscais, o "esquema" dos vereadores. Nome virtuoso para quadrilha.

Malufar – Verbo surgido durante a campanha de 1985, em que concorreram para presidente, no colégio eleitoral, Paulo Maluf e Tancredo Neves. Seu significado, embora impreciso, teria algo a ver com subtrair-se ao respeito à lei e aos bons costumes, bem como ao imperativo de inviolabilidade do Erário.

Malufismo – Conjunto das forças identificadas com o político paulista Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo (1969-1971 e 1993-1997), ex-governador (1979-1982) e duas vezes candidato a presidente (1985 e 1989). Titular de uma corrente que tem sua origem genética no adhemarismo (vide verbete) e outra vertente no janismo (derivado de Jânio Quadros, 1917-1992), mais uma importante manifestação do populismo paulista. Um desavisado tomaria designações como "malufismo" ou "janismo" por uma doutrina, como o "marxismo", ou uma tendência histórica, como o "bonapartismo". É mais um sinal dos poderes ilusionistas do populismo.

Mar de lama – Expressão com que o jornal Tribuna da Imprensa, então dirigido por Carlos Lacerda, qualificou, em 1953, durante o segundo governo Getúlio Vargas, a operação pela qual o Banco do Brasil financiou o jornal governista Última Hora, dirigido por Samuel Wainer. Passou depois a designar o ambiente geral do governo Vargas. A senhora Pitta tem utilizado a expressão para designar a gestão do marido. Curioso é que o governo Vargas terminou em tragédia, mas mar de lama mesmo, no sentido de roubalheiras e negociatas, teve pouco. Ou nada, perto do que viria depois.

Pitta – Sobrenome do prefeito de São Paulo. Não virou, nem há indícios de que vá virar, substantivo comum. Se virar, poderia designar alguém que pensa que manda, mas na verdade executa ordens, ou cumpre um script. Ou então alguém em quem outros concentram a culpa de todo um "esquema" (vide verbete), tal como os israelitas da Bíblia descarregavam os pecados no bode expiatório (Lev, 16, 8-21).

Rouba mas faz – Frase com que os correligionários de Adhemar de Barros propagavam as virtudes do líder. Em uso a partir da campanha de 1954 para o governo do Estado, em que Adhemar foi derrotado por Jânio Quadros, traduz uma das mais extravagantes manifestações da prática política brasileira – uma confissão de delito, em primeiro lugar, e em segundo um apelo ao eleitorado para que releve o referido delito e, ao fazê-lo, o chancele. Mais surpreendente ainda é que o eleitorado paulista tem dado reiteradas provas de que não é insensível a tal apelo.

São todos iguais – Frase com que se procura igualar os políticos. Equivalente a "São todos farinha do mesmo saco" e aparentada ao "Rouba mas faz" (vide verbete), tem o objetivo de escamotear deficiências de caráter e práticas desonestas. Ressalta como evidência que, assim como os advogados, os jogadores de futebol ou os pintores de parede, os políticos não são iguais. Sempre que um eleitor pensa que sim, a corrupção agradece.