O rosto de Cristo
Exposição na National Gallery
explica como a
imagem de Jesus se firmou ao longo dos séculos
Rodrigo Amaral, de Londres
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Ícone que reproduz o Mandil
de Edessa
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É impossível afirmar qual era a aparência
de Jesus Cristo. Os Evangelhos, escritos depois de sua morte,
não trazem nenhuma referência ao seu aspecto
pessoal. E documentos tidos como testemunhos visuais foram
aos poucos sendo desmascarados não passavam
de falsificações. Para a História,
portanto, Jesus Cristo é um homem sem rosto. A imagem
do filho de Deus como a de um homem alto e magro, de face
fina, cabelos longos e barba foi fixada pela pintura e a
escultura ao longo dos séculos. Esse processo pode
ser acompanhado na exposição Seeing Salvation:
the Image of Christ (Vendo a Salvação:
a Imagem de Cristo), que a National Gallery de Londres exibe
até 7 de maio. A mostra é uma verdadeira aula
de história da arte: inclui desde os renascentistas
Ticiano e Donatello até o modernista inglês
Stanley Spencer, passando pelos espanhóis Murillo
e Velázquez.
Glasgow
Museums: The Sr. Mungo Museum of Religious Life and
Art
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The National
Gallery, London
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O CÓSMICO
A figura de Cristo crucificado paira sobre
o mundo, e no entanto
podemos vê-la de cima: o surrealista Salvador
Dalí quis dar uma interpretação
cósmica à transcendência de Jesus.
É uma das pinturas de tema religioso mais conhecidas
do século XX |
O
SOFREDOR
Pintado em torno de 1520 pelo holandês Jan Mostaert,
este quadro mostra Jesus como um homem
que pede compaixão
pela sua dor. Dos olhos cheios d'água
aos ombros caídos, tudo suscita piedade
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As representações mais antigas do Salvador
não traziam o seu rosto. Quando o cristianismo ainda
era perseguido por Roma, era comum que os fiéis,
para representar a figura de Cristo, adaptassem metáforas
retiradas dos Evangelhos como um pastor ou um cordeiro.
Até hoje elas fazem parte do imaginário cristão,
da mesma forma que a cruz e os símbolos criados a
partir de letras que compunham seu nome como o monograma
que traz um X sobreposto a um P, iniciais do nome Cristo
em grego. A imagem de Jesus como a conhecemos atualmente,
no entanto, não é invenção de
algum artista com faro para o marketing. Ela veio de relíquias
que se acredita terem sido legadas pelo próprio Salvador.
A mais famosa delas é o Santo Sudário, a mortalha
na qual teriam ficado impressas a fisionomia e a silhueta
de Jesus. Mas há outras, como o Mandil de Edessa
(na verdade, uma toalha na qual Cristo teria deixado suas
feições ao enxugar o rosto), mais conhecido
como Santa Face. Como no caso de qualquer outra dessas relíquias,
no entanto, é impossível afirmar ou negar
a veracidade do Mandil.
Com o tempo, as representações de Jesus foram
adquirindo características que se subordinavam às
conveniências da Igreja fundada por Pedro e Paulo.
Quando o cristianismo se tornou a religião oficial
do Império Romano, no século IV, Cristo passou
a ser representado como uma espécie de super-homem,
para demonstrar que não havia poder superior a Ele.
É por isso que uma caixa de mármore do século
V traz cenas da Paixão em que Ele leva a cruz sem
nenhum esforço ou, martirizado no Calvário,
exibe um ar despreocupado. Na Idade Média, em que
o catolicismo dava as cartas tanto no plano espiritual como
no temporal, as representações de Jesus ganharam
um sinal contrário: a Igreja precisava se mostrar
mais humilde para se aproximar dos sofrimentos de seus seguidores.
Tornou-se freqüente pintar ou esculpir Cristo como
alguém que deveria inspirar, acima de tudo, piedade.
Os exemplos são inúmeros. O italiano Correggio
pintou Jesus com olhar de súplica, dirigido diretamente
ao espectador. O espanhol Velázquez mostrou-o amarrado,
observado com tristeza por uma figura que simboliza a alma
cristã. O holandês Jan Mostaert retratou-o
com os olhos banhados em lágrimas.
Museo del Prado Madrid
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The National
Gallery, London
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A
METÁFORA
Nos primórdios do cristianismo surgiram as
imagens simbólicas de Jesus. Esta tela do espanhol
Zurbarán, do século XVII, reproduz o
Agnus Dei, ou "Cordeiro de Deus",
em detalhes naturalistas
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O
HUMANO E O DIVINO
Intitulada Noli Me Tangere (Não Me Toques)
e pintada em torno de 1515, a tela de
Ticiano mostra Jesus após a ressurreição.
Madalena tenta tocá-lo,
mas ele se afasta: o tempo da presença física
de Jesus na Terra chegara ao fim, e seus fiéis
deveriam amá-lo apenas espiritualmente
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Milagre Outra constante nas imagens de Jesus
é a tentativa de exprimir visualmente sua dupla natureza,
ao mesmo tempo humana e divina. Muitos dos retratos que
o trazem na infância se encaixam nessa categoria.
Como um de autoria do italiano Andrea Mantegna, que apresenta
o menino Jesus em pose de imperador romano, olhando petulante
para um futuro que lhe pertenceria. Já o espanhol
Murillo fez o mesmo garoto dormir desprotegido sobre uma
caveira e uma cruz um resumo do destino que lhe esperava.
Numa das mais líricas imagens da Renascença,
o pintor Ticiano mostra Jesus, que acaba de ressuscitar,
esquivando-se do toque de Madalena. É uma maneira
de expressar que, embora ele tenha um corpo, deve ser adorado
por sua divindade. Uma das mais belas obras expostas na
National Gallery, contudo, data do bem mais cético
século XX. É Cristo de San Juan de la Crúz,
do surrealista espanhol Salvador Dalí, que a fez
em 1951 com o propósito de retratar Jesus "com a
beleza digna do Deus que Ele é". É, de certa
forma, um milagre: para pintar esse magnífico retrato
de Jesus visto de cima, Dalí pôs de lado seus
excessos e mostrou-se, simplesmente, como o ótimo
pintor que ele era.