Edição 1 641 - 22/3/2000

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O rosto de Cristo

Exposição na National Gallery explica como a
imagem de Jesus se firmou ao longo dos séculos

Rodrigo Amaral, de Londres

Clique nas fotos para vê-las ampliadas

 


Ícone que reproduz o Mandil de Edessa

É impossível afirmar qual era a aparência de Jesus Cristo. Os Evangelhos, escritos depois de sua morte, não trazem nenhuma referência ao seu aspecto pessoal. E documentos tidos como testemunhos visuais foram aos poucos sendo desmascarados – não passavam de falsificações. Para a História, portanto, Jesus Cristo é um homem sem rosto. A imagem do filho de Deus como a de um homem alto e magro, de face fina, cabelos longos e barba foi fixada pela pintura e a escultura ao longo dos séculos. Esse processo pode ser acompanhado na exposição Seeing Salvation: the Image of Christ (Vendo a Salvação: a Imagem de Cristo), que a National Gallery de Londres exibe até 7 de maio. A mostra é uma verdadeira aula de história da arte: inclui desde os renascentistas Ticiano e Donatello até o modernista inglês Stanley Spencer, passando pelos espanhóis Murillo e Velázquez.

 
Glasgow Museums: The Sr. Mungo Museum of Religious Life and Art
The National Gallery, London
O CÓSMICO
A figura de Cristo crucificado paira sobre
o mundo, e no entanto podemos vê-la de cima: o surrealista Salvador Dalí quis dar uma interpretação cósmica à transcendência de Jesus. É uma das pinturas de tema religioso mais conhecidas do século XX
O SOFREDOR
Pintado em torno de 1520 pelo holandês Jan Mostaert, este quadro mostra Jesus como um homem
que pede compaixão pela sua dor. Dos olhos cheios d'água aos ombros caídos, tudo suscita piedade

As representações mais antigas do Salvador não traziam o seu rosto. Quando o cristianismo ainda era perseguido por Roma, era comum que os fiéis, para representar a figura de Cristo, adaptassem metáforas retiradas dos Evangelhos – como um pastor ou um cordeiro. Até hoje elas fazem parte do imaginário cristão, da mesma forma que a cruz e os símbolos criados a partir de letras que compunham seu nome – como o monograma que traz um X sobreposto a um P, iniciais do nome Cristo em grego. A imagem de Jesus como a conhecemos atualmente, no entanto, não é invenção de algum artista com faro para o marketing. Ela veio de relíquias que se acredita terem sido legadas pelo próprio Salvador. A mais famosa delas é o Santo Sudário, a mortalha na qual teriam ficado impressas a fisionomia e a silhueta de Jesus. Mas há outras, como o Mandil de Edessa (na verdade, uma toalha na qual Cristo teria deixado suas feições ao enxugar o rosto), mais conhecido como Santa Face. Como no caso de qualquer outra dessas relíquias, no entanto, é impossível afirmar ou negar a veracidade do Mandil.

Com o tempo, as representações de Jesus foram adquirindo características que se subordinavam às conveniências da Igreja fundada por Pedro e Paulo. Quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, no século IV, Cristo passou a ser representado como uma espécie de super-homem, para demonstrar que não havia poder superior a Ele. É por isso que uma caixa de mármore do século V traz cenas da Paixão em que Ele leva a cruz sem nenhum esforço ou, martirizado no Calvário, exibe um ar despreocupado. Na Idade Média, em que o catolicismo dava as cartas tanto no plano espiritual como no temporal, as representações de Jesus ganharam um sinal contrário: a Igreja precisava se mostrar mais humilde para se aproximar dos sofrimentos de seus seguidores. Tornou-se freqüente pintar ou esculpir Cristo como alguém que deveria inspirar, acima de tudo, piedade. Os exemplos são inúmeros. O italiano Correggio pintou Jesus com olhar de súplica, dirigido diretamente ao espectador. O espanhol Velázquez mostrou-o amarrado, observado com tristeza por uma figura que simboliza a alma cristã. O holandês Jan Mostaert retratou-o com os olhos banhados em lágrimas.

 
Museo del Prado Madrid
The National Gallery, London

A METÁFORA
Nos primórdios do cristianismo surgiram as imagens simbólicas de Jesus. Esta tela do espanhol Zurbarán, do século XVII, reproduz o Agnus Dei, ou "Cordeiro de Deus",
em detalhes naturalistas

O HUMANO E O DIVINO
Intitulada Noli Me Tangere (Não Me Toques) e pintada em torno de 1515, a tela
de Ticiano mostra Jesus após a ressurreição. Madalena tenta tocá-lo, mas ele se afasta: o tempo da presença física de Jesus na Terra chegara ao fim, e seus fiéis deveriam amá-lo apenas espiritualmente

 

Milagre – Outra constante nas imagens de Jesus é a tentativa de exprimir visualmente sua dupla natureza, ao mesmo tempo humana e divina. Muitos dos retratos que o trazem na infância se encaixam nessa categoria. Como um de autoria do italiano Andrea Mantegna, que apresenta o menino Jesus em pose de imperador romano, olhando petulante para um futuro que lhe pertenceria. Já o espanhol Murillo fez o mesmo garoto dormir desprotegido sobre uma caveira e uma cruz – um resumo do destino que lhe esperava. Numa das mais líricas imagens da Renascença, o pintor Ticiano mostra Jesus, que acaba de ressuscitar, esquivando-se do toque de Madalena. É uma maneira de expressar que, embora ele tenha um corpo, deve ser adorado por sua divindade. Uma das mais belas obras expostas na National Gallery, contudo, data do bem mais cético século XX. É Cristo de San Juan de la Crúz, do surrealista espanhol Salvador Dalí, que a fez em 1951 com o propósito de retratar Jesus "com a beleza digna do Deus que Ele é". É, de certa forma, um milagre: para pintar esse magnífico retrato de Jesus visto de cima, Dalí pôs de lado seus excessos e mostrou-se, simplesmente, como o ótimo pintor que ele era.