Edição 1 641 - 22/3/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Leão Lobo virou o terror dos artistas
Papagaio salva o programa de Ana Maria Braga
Deus, o Diabo e Bob causa polêmica nos EUA
O ranking das palavras universais
Stephen King lança livro na internet
Shows para imigrante brasileiro matar a saudade
As imagens de Cristo em várias épocas
Colunas
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Veja recomenda
Lista de mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Cidadãs do mundo

As línguas mais globalizadas, segundo o
levantamento de um ensaísta brasileiro

Consuelo Dieguez

Diz a lenda que Deus condenou os homens a falar diversas línguas em Babel para puni-los pelo desejo de atingir o paraíso construindo uma enorme torre. Mas, a julgar pelo livro Palavras sem Fronteira (866 páginas; 60 reais; Editora Record), que acaba de ser lançado pelo ensaísta e ex-diplomata brasileiro Sergio Corrêa da Costa, alguns termos pelo menos conseguiram escapar da ira divina. São as chamadas "palavras universais", aquelas usadas em vários idiomas além do que lhes deu origem. Elas mostram que, muito antes de o conceito de globalização entrar em voga nos campos da política e da economia, ele já existia, de certa forma, no plano lingüístico. Quem não entende o que é pizza, hambúrguer, iogurte ou caviar? Que garçom, em qualquer parte do mundo, não compreende o cliente que pede pelo francesíssimo menu? Que malandro carioca não tem noção do que seja uma germânica blitz? São palavras que dispensam tradução.

Corrêa da Costa começou a trabalhar no livro depois de aposentar-se como embaixador nas Nações Unidas. Durante dois anos, consultou regularmente 130 publicações de quinze países, coligindo nada menos do que 3.000 palavras que mantêm a grafia e o significado de origem ao ser reproduzidas em publicações de outras nacionalidades. Se a surpresa quanto ao número de palavras foi grande, o espanto foi ainda maior quando ele se deu conta de que as palavras francesas continuam a superar as inglesas (veja quadro). Imaginava-se que a hegemonia americana já se tivesse estendido ao universo das línguas. Nada disso. Embora Corrêa da Costa acredite que os fast foods e scanners surgidos na vida moderna levarão a língua inglesa à liderança, o levantamento não deixa dúvida. "Neste fin-de-siècle high tech, ainda é o clássico francês que causa frisson", diz Corrêa da Costa, brincando com os estrangeirismos. Para o embaixador, a explicação para a liberdade com que as palavras francesas atravessam as barreiras lingüísticas é que boa parte delas expressa um estado de espírito ou abstrações. Nenhuma definição para "femme fatale" é melhor do que "femme fatale". Ainda no campo das surpresas, o vetusto latim persiste em terceiro lugar no pódio dos idiomas mais presentes no mundo. Mas é bom notar que, se a maioria das palavras globalizadas seguiu o rastro dos conquistadores, houve aquelas que andaram na contramão. É o caso de "piranha", globalizada a partir do tupi. Uma prova de que o reinado das palavras não segue rigorosamente a lógica do poder político e econômico.