Cidadãs do mundo
As línguas mais globalizadas, segundo
o
levantamento de um ensaísta brasileiro
Consuelo Dieguez
Diz
a lenda que Deus condenou os homens a falar diversas línguas
em Babel para puni-los pelo desejo de atingir o paraíso
construindo uma enorme torre. Mas, a julgar pelo livro Palavras
sem Fronteira (866 páginas; 60 reais; Editora
Record), que acaba de ser lançado pelo ensaísta
e ex-diplomata brasileiro Sergio Corrêa da Costa,
alguns termos pelo menos conseguiram escapar da ira divina.
São as chamadas "palavras universais", aquelas usadas
em vários idiomas além do que lhes deu origem.
Elas mostram que, muito antes de o conceito de globalização
entrar em voga nos campos da política e da economia,
ele já existia, de certa forma, no plano lingüístico.
Quem não entende o que é pizza, hambúrguer,
iogurte ou caviar? Que garçom, em qualquer parte
do mundo, não compreende o cliente que pede pelo
francesíssimo menu? Que malandro carioca não
tem noção do que seja uma germânica
blitz? São palavras que dispensam tradução.
Corrêa
da Costa começou a trabalhar no livro depois de aposentar-se
como embaixador nas Nações Unidas. Durante
dois anos, consultou regularmente 130 publicações
de quinze países, coligindo nada menos do que 3.000
palavras que mantêm a grafia e o significado de origem
ao ser reproduzidas em publicações de outras
nacionalidades. Se a surpresa quanto ao número de
palavras foi grande, o espanto foi ainda maior quando ele
se deu conta de que as palavras francesas continuam a superar
as inglesas (veja quadro). Imaginava-se que a hegemonia
americana já se tivesse estendido ao universo das
línguas. Nada disso. Embora Corrêa da Costa
acredite que os fast foods e scanners surgidos na vida moderna
levarão a língua inglesa à liderança,
o levantamento não deixa dúvida. "Neste fin-de-siècle
high tech, ainda é o clássico francês
que causa frisson", diz Corrêa da Costa, brincando
com os estrangeirismos. Para o embaixador, a explicação
para a liberdade com que as palavras francesas atravessam
as barreiras lingüísticas é que boa parte
delas expressa um estado de espírito ou abstrações.
Nenhuma definição para "femme fatale" é
melhor do que "femme fatale". Ainda no campo das surpresas,
o vetusto latim persiste em terceiro lugar no pódio
dos idiomas mais presentes no mundo. Mas é bom notar
que, se a maioria das palavras globalizadas seguiu o rastro
dos conquistadores, houve aquelas que andaram na contramão.
É o caso de "piranha", globalizada a partir do tupi.
Uma prova de que o reinado das palavras não segue
rigorosamente a lógica do poder político e
econômico.