Edição 1 641 - 22/3/2000

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Bolsa

A velha voltou

Notícia de inflação controlada reaquece
ações de empresas tradicionais nos EUA

César Nogueira



AP
Festa na Bolsa de Nova York na quinta-feira passada: alta recorde nos negócios

O mundo econômico acompanhou a Bolsa de Nova York, na semana passada, como quem assiste a uma disputa entre campeões de basquete da NBA. De um lado, estava a velha economia, representada pelo índice Dow Jones, que registra o preço das ações de empresas tradicionais, poderosas, assentadas sobre grandes estruturas de produção e venda como General Motors, Alcoa e Procter & Gamble. De outro, a Nasdaq, a jovem bolsa em que estão as empresas de tecnologia e internet, representantes do que vem sendo chamado de nova economia. A surpresa da semana foi a reação da velha. O índice Dow Jones vinha de uma campanha ruim, amargando uma queda de quase 14% no ano. Recuperou boa parte dessa perda, 8,3%, entre quarta e quinta-feira. A Nasdaq, por sua vez, recuou 9,2% nos três primeiros dias, mas, apesar do susto, terminou se recuperando. Neste ano já acumula um crescimento de mais de 17%. Na disputa entre as duas bolsas, o vigor da recuperação de Dow Jones teve o sabor de uma virada de jogo.

De fato houve uma virada. Mas foi no humor do mercado. Os indicadores de preços, divulgados na semana passada pelo Departamento de Comércio americano, mostram a inflação sob controle, apesar de a economia dos EUA continuar crescendo ininterruptamente há nove anos. Alan Greenspan, presidente do banco central americano, o Fed, tem sido um persistente crítico do que batizou de "exuberância irracional" das bolsas, que poderia fazer despertar a bruxa da inflação. O remédio tradicional aplicado pelo Fed é a elevação das taxas de juro, que afeta diretamente as empresas da velha economia. Como nesta semana o Fed decide se a economia está necessitando de correção – e já se sabe que a inflação, por enquanto, não preocupa –, quem acompanha o pensamento de Greenspan está tranqüilo e aposta que a elevação dos juros, se vier, será pequena, por volta de 0,25%. A notícia repercutiu positivamente sobre o índice Dow Jones.

O comportamento desencontrado das duas bolsas nos últimos meses tem revelado um fenômeno curioso sobre o qual os analistas ainda estão debruçados. Os investidores em ações de empresas da velha economia são bastante sensíveis aos instrumentos usuais de controle do governo americano. Quando os juros sobem, a economia esfria e os investidores passam a desconfiar de que as empresas nas quais investem possam ter prejuízo. Para evitar perdas, saem da bolsa, o que derruba a cotação das ações. Quem investe em ações de companhias da nova economia não tem o mesmo reflexo. Essa gente anda tão alucinada com os lucros obtidos na Nasdaq – algumas ações chegaram a se valorizar mais de 800% no último trimestre do ano passado – que tem dado de ombros para os pitos de Greenspan. Há americanos empenhando a casa e se endividando para apostar na Nasdaq. "Existe uma febre de internet que passa por cima de quase tudo", diz Mauro Schneider, economista do banco Barings em São Paulo. Se quiser esfriar essa febre, Greenspan terá de bater mais forte. Em seu arsenal está a possibilidade de proibir que empresas e investidores individuais tomem dinheiro emprestado para aplicar em ações. Tentado pelos analistas a usar esse mecanismo, Greenspan, até a semana passada, resistia.