Edição 1 641 - 22/3/2000

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Internet

O xerife da rede

Dono da maior empresa de proteção virtual
do mundo mostra os reais perigos da internet

Lucila Soares

 

 
Richard Morgenstein
Sclavos: à frente do maior negócio já fechado na história da internet

Stratton Sclavos tinha 33 anos quando recebeu convite para presidir uma empresinha chamada VeriSign. Era 1995 e o jovem executivo, cujos avós migraram da Grécia para os Estados Unidos em 1906, tinha uma carreira brilhante em diversas empresas de tecnologia do Vale do Silício, na Califórnia. Sclavos relutou. Não queria abrir mão da posição confortável como vice-presidente da Taligent, uma poderosa associação entre Apple, IBM e Hewlett-Packard. Desconfiava de que essa história de internet podia ser apenas um delírio. Duas semanas atrás, ele teve um arrepio na espinha ao se lembrar da própria hesitação. No último dia 7 a VeriSign, líder do planeta em certificação digital uma das principais ferramentas de segurança na internet , fechou o maior negócio já realizado no mundo virtual: por nada menos de 21 bilhões de dólares, comprou a Network Solutions, líder no mercado de registro de domínios na internet, ou seja, a principal porta de entrada para obter uma identidade na rede. Agora, a VeriSign domina mais uma etapa importante da cadeia dos negócios virtuais. "Queremos estar presentes em todos os serviços de apoio ao comércio eletrônico", resume Sclavos.

O negócio dele está em franca expansão. E o motivo é bastante simples: no mundo virtual os interlocutores são invisíveis. Sem um mecanismo de identificação aceito pelos dois lados é fácil se fazer passar por outra pessoa. Essa operação de segurança se chama no jargão de internet de certificação ou seja, é a garantia de estar lidando com o interlocutor correto do outro lado da linha. O banco tem certeza de que está sendo acessado pelo correntista daquela conta, o consumidor fica seguro de que está fornecendo seu endereço à loja na qual fez a compra. Além disso, no relacionamento entre empresas, essa identificação viabiliza transações virtuais seguras entre fornecedores de matéria-prima e indústria, por exemplo. O potencial de crescimento desse tipo de prestação de serviço pode ser medido numericamente. No ano passado, a VeriSign faturou 84 milhões de dólares, 118% mais que em 1998. Já certificou mais de 200.000 sites. Mas, embora praticamente todas as grandes empresas utilizem os serviços de certificação digital, isso equivale a apenas 2% dos sites existentes na rede.

Não por acaso, Sclavos desembarca no Brasil no próximo dia 20. Ele vem inaugurar a CertiSign, sua representante no país. Com ela, passam a ser vinte as parceiras da empresa no mundo. A quem se acostumou à imagem típica do jovem empresário da internet, um aviso: não espere de Sclavos aquela figura juvenil e sorridente que surpreende por não estar carregando uma prancha de surfe. Ele trabalha de terno, começa a ficar careca e dirige com mão de ferro os 300 funcionários da VeriSign nos Estados Unidos. Mas não espere tampouco um executivo sisudo. Aos 38 anos, Sclavos é considerado um verdadeiro showman. Quando era criança, sonhava ser veterinário. Mas fez uma carreira que conjuga duas grandes paixões marketing e tecnologia. No Brasil, onde está vindo pela primeira vez, ele tem um campo fértil a explorar com a explosão dos serviços gratuitos de internet, o crescimento das transações bancárias virtuais e a quantidade de grandes empresas instaladas no país.

Sclavos é um entusiasta das possibilidades da internet. Prevê que, nos próximos cinco anos, entre 800 milhões e 1 bilhão de telefones celulares estarão habilitados a entrar e navegar na rede. "Com esse crescimento, passa a ser importante tornar a segurança mais acessível, mais fácil de usar", diz. Isso significa simplificar procedimentos, mas principalmente exige que a identidade eletrônica possa ser portátil, e não ligada a um computador pessoal, como acontece hoje. Num futuro próximo será possível usar a mesma identidade em qualquer computador, no telefone celular ou em outro meio de acesso à internet. O executivo vibra com as perspectivas: "Quando eu era criança, computadores só existiam em ficção científica. Hoje olho para meus filhos, de 11 e 8 anos, e fico imaginando o que existirá no mundo quando eles forem adultos". Ele tem a noção de que é impossível chegar próximo de uma resposta agora. E acalenta, por isso, certa angústia. "Novas idéias surgem todos os dias. Temos muito mais oportunidades hoje do que jamais imaginamos, e é difícil saber se estamos agarrando a melhor, fazendo a escolha certa."

Mas existe outro motivo pelo qual os negócios ligados à segurança na rede não param de crescer: a internet ainda é uma terra literalmente sem lei. O consumidor que acessa a rede tem todos os seus dados, passos e preferências registrados. E, como já acontece no marketing direto há mais de vinte anos, os cadastros com essas informações são vendidos a outras empresas. O debate sobre os limites éticos dessa prática começa a pegar fogo nos Estados Unidos, mas ainda é incipiente no resto do mundo, onde o foco das preocupações continua sendo as ações voltadas à segurança. Para Sclavos, é fundamental que existam leis que regulem os direitos do consumidor e estabeleçam punições para crimes e abusos nessa área: "Mas também temos de criar ética nas empresas, para que elas se preocupem em esclarecer o consumidor sobre seus direitos".

 

Não existe segurança 100%

Na última terça-feira, uma semana antes de embarcar para o Brasil, Stratton Sclavos deu uma entrevista a VEJA por telefone, de seu escritório na Califórnia. Durante uma hora, falou sobre hackers, violação de informações confidenciais e direitos do consumidor na área dos negócios via internet. Ele aposta que quem não oferecer segurança vai perder mercado. A seguir, os melhores trechos da conversa.

Veja Quase todos os dias ouvimos casos sobre a falta de segurança na rede. Dinheiro que some dos bancos, débitos no cartão de crédito por compras que não foram feitas e outros fatos aterrorizantes. O que deve ser levado a sério nisso tudo?
Stratton Sclavos A internet é uma rede pública, o que significa que ela está aberta a ataques e que é, sim, potencialmente muito perigosa quando não há proteção. Isso deve ser levado a sério. Não é sem motivo que nos últimos cinco anos a maior parte dos sites das grandes empresas e bancos adotou procedimentos eficazes de segurança.

Veja Mas os hackers continuam agindo em massa. Eles são realmente capazes de invadir sites e de violar informações confidenciais?
Sclavos
Os hackers de que ouvimos falar, esses que ganham as manchetes dos jornais, causam prejuízos porque impedem o acesso aos sites e portanto inviabilizam negócios. Mas não roubam. Os invasores realmente perigosos agem na sombra. São esses que volta e meia conseguem entrar em contas correntes, desviar dinheiro e provocar grandes prejuízos. Eles é que desafiam a segurança.

Veja A tecnologia da segurança avançou muito. Mas a ação criminosa na internet também se refinou. Essa corrida terá fim algum dia?
Sclavos
Acho que nunca haverá uma segurança 100% eficiente. Nem no mundo físico nem na rede. Mas a tecnologia vai avançar cada vez mais rapidamente. Um dos maiores progressos aconteceu na área de segurança bancária. É a identidade eletrônica, que substitui a senha dos correntistas. Ela envolve uma combinação numérica complexa, que não é totalmente conhecida pelo cliente nem pelo banco – e por isso é virtualmente inviolável.

Veja Na área de segurança, a fronteira entre legalidade e crime é clara. Quando o assunto é privacidade esses limites são mais tênues. Afinal, a venda de cadastros é um negócio lucrativo há muito tempo no mundo real e não provoca tanta discussão. Como o senhor acha que isso deve ser regulado?
Sclavos
Só com a aprovação expressa do consumidor o site original pode compartilhar suas informações com terceiros. Acho saudável que a internet tenha atraído a atenção para a venda de informação, que é feita pelo marketing direto há mais de vinte anos. A questão é que no mundo real as informações são compartilhadas por duas ou três empresas e, na internet, por centenas ou milhares de companhias, e as pessoas ficam indefesas.

Veja As empresas que operam na internet estão preocupadas como deveriam com a segurança?
Sclavos
Muitas ainda estão mais preocupadas com a beleza do seu site. Essas, na verdade, é que terão mais motivo para se preocupar no futuro. Porque o tempo está correndo e a garantia de segurança e privacidade vai ser cada vez mais um fator decisivo na escolha do consumidor. Ou seja, vai determinar se um site será um sucesso ou um fracasso.

 

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