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Internet
O xerife da rede
Dono da maior empresa de proteção
virtual
do mundo mostra os reais perigos da internet
Lucila Soares
Richard Morgenstein
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| Sclavos:
à frente do maior negócio já fechado
na história da internet |
Stratton Sclavos tinha 33 anos quando recebeu convite para
presidir uma empresinha chamada VeriSign. Era 1995 e o jovem
executivo, cujos avós migraram da Grécia para
os Estados Unidos em 1906, tinha uma carreira brilhante
em diversas empresas de tecnologia do Vale do Silício,
na Califórnia. Sclavos relutou. Não queria
abrir mão da posição confortável
como vice-presidente da Taligent, uma poderosa associação
entre Apple, IBM e Hewlett-Packard. Desconfiava de que essa
história de internet podia ser apenas um delírio.
Duas semanas atrás, ele teve um arrepio na espinha
ao se lembrar da própria hesitação.
No último dia 7 a VeriSign, líder do planeta
em certificação digital –
uma das principais ferramentas de segurança
na internet – , fechou o maior
negócio já realizado no mundo virtual: por
nada menos de 21 bilhões de dólares, comprou
a Network Solutions, líder no mercado de registro
de domínios na internet, ou seja, a principal porta
de entrada para obter uma identidade na rede. Agora, a VeriSign
domina mais uma etapa importante da cadeia dos negócios
virtuais. "Queremos estar presentes em todos os serviços
de apoio ao comércio eletrônico", resume Sclavos.
O negócio dele está em franca expansão.
E o motivo é bastante simples: no mundo virtual os
interlocutores são invisíveis. Sem um mecanismo
de identificação aceito pelos dois lados é
fácil se fazer passar por outra pessoa. Essa operação
de segurança se chama no jargão de internet
de certificação –
ou seja, é a garantia de estar lidando com o interlocutor
correto do outro lado da linha. O banco tem certeza de que
está sendo acessado pelo correntista daquela conta,
o consumidor fica seguro de que está fornecendo seu
endereço à loja na qual fez a compra. Além
disso, no relacionamento entre empresas, essa identificação
viabiliza transações virtuais seguras entre
fornecedores de matéria-prima e indústria,
por exemplo. O potencial de crescimento desse tipo de prestação
de serviço pode ser medido numericamente. No ano
passado, a VeriSign faturou 84 milhões de dólares,
118% mais que em 1998. Já certificou mais de 200.000
sites. Mas, embora praticamente todas as grandes empresas
utilizem os serviços de certificação
digital, isso equivale a apenas 2% dos sites existentes
na rede.
Não por acaso, Sclavos desembarca no Brasil no
próximo dia 20. Ele vem inaugurar a CertiSign, sua
representante no país. Com ela, passam a ser vinte
as parceiras da empresa no mundo. A quem se acostumou à
imagem típica do jovem empresário da internet,
um aviso: não espere de Sclavos aquela figura juvenil
e sorridente que surpreende por não estar carregando
uma prancha de surfe. Ele trabalha de terno, começa
a ficar careca e dirige com mão de ferro os 300 funcionários
da VeriSign nos Estados Unidos. Mas não espere tampouco
um executivo sisudo. Aos 38 anos, Sclavos é considerado
um verdadeiro showman. Quando era criança, sonhava
ser veterinário. Mas fez uma carreira que conjuga
duas grandes paixões –
marketing e tecnologia. No Brasil, onde está vindo
pela primeira vez, ele tem um campo fértil a explorar
com a explosão dos serviços gratuitos de internet,
o crescimento das transações bancárias
virtuais e a quantidade de grandes empresas instaladas no
país.
Sclavos é um entusiasta das possibilidades da internet.
Prevê que, nos próximos cinco anos, entre 800
milhões e 1 bilhão de telefones celulares
estarão habilitados a entrar e navegar na rede. "Com
esse crescimento, passa a ser importante tornar a segurança
mais acessível, mais fácil de usar", diz.
Isso significa simplificar procedimentos, mas principalmente
exige que a identidade eletrônica possa ser portátil,
e não ligada a um computador pessoal, como acontece
hoje. Num futuro próximo será possível
usar a mesma identidade em qualquer computador, no telefone
celular ou em outro meio de acesso à internet. O
executivo vibra com as perspectivas: "Quando eu era criança,
computadores só existiam em ficção
científica. Hoje olho para meus filhos, de 11 e 8
anos, e fico imaginando o que existirá no mundo quando
eles forem adultos". Ele tem a noção de que
é impossível chegar próximo de uma
resposta agora. E acalenta, por isso, certa angústia.
"Novas idéias surgem todos os dias. Temos muito mais
oportunidades hoje do que jamais imaginamos, e é
difícil saber se estamos agarrando a melhor, fazendo
a escolha certa."
Mas existe outro motivo pelo qual os negócios ligados
à segurança na rede não param de crescer:
a internet ainda é uma terra literalmente sem lei.
O consumidor que acessa a rede tem todos os seus dados,
passos e preferências registrados. E, como já
acontece no marketing direto há mais de vinte anos,
os cadastros com essas informações são
vendidos a outras empresas. O debate sobre os limites éticos
dessa prática começa a pegar fogo nos Estados
Unidos, mas ainda é incipiente no resto do mundo,
onde o foco das preocupações continua sendo
as ações voltadas à segurança.
Para Sclavos, é fundamental que existam leis que
regulem os direitos do consumidor e estabeleçam punições
para crimes e abusos nessa área: "Mas também
temos de criar ética nas empresas, para que elas
se preocupem em esclarecer o consumidor sobre seus direitos".
Não existe segurança
100%
Na última terça-feira, uma semana
antes de embarcar para o Brasil, Stratton Sclavos
deu uma entrevista a VEJA por telefone, de seu escritório
na Califórnia. Durante uma hora, falou sobre
hackers, violação de informações
confidenciais e direitos do consumidor na área
dos negócios via internet. Ele aposta que quem
não oferecer segurança vai perder mercado.
A seguir, os melhores trechos da conversa.
Veja – Quase
todos os dias ouvimos casos sobre a falta de segurança
na rede. Dinheiro que some dos bancos, débitos
no cartão de crédito por compras que
não foram feitas e outros fatos aterrorizantes.
O que deve ser levado a sério nisso tudo?
Stratton
Sclavos – A internet
é uma rede pública, o que significa
que ela está aberta a ataques e que é,
sim, potencialmente muito perigosa quando não
há proteção. Isso deve ser levado
a sério. Não é sem motivo que
nos últimos cinco anos a maior parte dos sites
das grandes empresas e bancos adotou procedimentos
eficazes de segurança.
Veja – Mas os hackers
continuam agindo em massa. Eles são realmente
capazes de invadir sites e de violar informações
confidenciais?
Sclavos –
Os hackers de que ouvimos falar, esses que
ganham as manchetes dos jornais, causam prejuízos
porque impedem o acesso aos sites –
e portanto inviabilizam negócios. Mas
não roubam. Os invasores realmente perigosos
agem na sombra. São esses que volta e meia
conseguem entrar em contas correntes, desviar dinheiro
e provocar grandes prejuízos. Eles é
que desafiam a segurança.
Veja – A tecnologia
da segurança avançou muito. Mas a ação
criminosa na internet também se refinou. Essa
corrida terá fim algum dia?
Sclavos – Acho que
nunca haverá uma segurança 100% eficiente.
Nem no mundo físico nem na rede. Mas a tecnologia
vai avançar cada vez mais rapidamente. Um dos
maiores progressos aconteceu na área de segurança
bancária. É a identidade eletrônica,
que substitui a senha dos correntistas. Ela envolve
uma combinação numérica complexa,
que não é totalmente conhecida pelo
cliente nem pelo banco e por isso é virtualmente
inviolável.
Veja – Na área
de segurança, a fronteira entre legalidade
e crime é clara. Quando o assunto é
privacidade esses limites são mais tênues.
Afinal, a venda de cadastros é um negócio
lucrativo há muito tempo no mundo real e não
provoca tanta discussão. Como o senhor acha
que isso deve ser regulado?
Sclavos – Só
com a aprovação expressa do consumidor
o site original pode compartilhar suas informações
com terceiros. Acho saudável que a internet
tenha atraído a atenção para
a venda de informação, que é
feita pelo marketing direto há mais de vinte
anos. A questão é que no mundo real
as informações são compartilhadas
por duas ou três empresas e, na internet, por
centenas ou milhares de companhias, e as pessoas ficam
indefesas.
Veja – As empresas
que operam na internet estão preocupadas como
deveriam com a segurança?
Sclavos – Muitas
ainda estão mais preocupadas com a beleza do
seu site. Essas, na verdade, é que terão
mais motivo para se preocupar no futuro. Porque o
tempo está correndo e a garantia de segurança
e privacidade vai ser cada vez mais um fator decisivo
na escolha do consumidor. Ou seja, vai determinar
se um site será um sucesso ou um fracasso.
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