Edição 1 641 - 22/3/2000

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Só para os maiores

A aliança entre GM e Fiat e a compra
da Land Rover pela Ford aceleram a concentração
na indústria automobilística

Nilson Vargas

 
AFP

Sede da GM nos Estados Unidos: empresa lidera
bloco que vende 14 milhões de carros por ano

 

Dois dos grandes negócios internacionais anunciados na semana passada — a aliança da General Motors americana com a Fiat italiana e a venda da Land Rover inglesa, pertencente à BMW, para a Ford — são parte de um mesmo movimento que está mudando radicalmente a face da indústria automobilística mundial. O setor está se concentrando. As marcas estão sendo agrupadas sob enormes guarda-chuvas que formam blocos gigantescos para poder sobreviver num ambiente cada vez mais competitivo, em que o consumo não tem crescido no ritmo esperado. "Foram apenas mais dois lances na corrente de fusões e aquisições que continuarão a acontecer porque ninguém mais pode sobreviver pequeno e sozinho", diz o especialista em indústria automobilística Glauco Arbix, professor da Universidade de São Paulo.

Há algum tempo as vendas globais estão perdendo fôlego. Entre as montadoras a competitividade tornou-se um mantra. As fusões são o melhor caminho para ganhar escala e cortar custos. Todo mundo conversa com todo mundo e vale até mesmo se aliar a parceiros com os quais não se tem muito em comum. A fusão entre Mercedes e Chrysler em 1998 foi a maior cartada. Elas viraram uma só empresa que fatura 130 bilhões de dólares e vende perto de 5 milhões de veículos por ano. A Ford comprou a Volvo Automóveis, sueca, e fincou bandeira na japonesa Mazda. A Renault obteve parte da Nissan, também do Japão. Longe dos holofotes, a GM fechou acordos tecnológicos com a Toyota e de compra de motores Honda, as duas japonesas. Até mesmo uma parceria entre as arquiinimigas General Motors, Ford e DaimlerChrysler está selada num projeto que visa unificar a cotação de preços de carros na venda pela internet.

Quase três anos e muitas parcerias depois, o mercado parece acomodar-se em torno de seis grandes montadoras. O time mais robusto é o da GM, com cacife de 14 milhões de automóveis vendidos por ano. Bem atrás vêm Ford, Toyota, Volkswagen, DaimlerChrysler e Renault. Esses seis aglomerados estão acima do que os especialistas consideram o mínimo para quem quer ficar vivo no mercado: vender 4 milhões de carros por ano. Abaixo deles, aparecem empresas como BMW, Honda, Hyundai/Kia e Peugeot/Citroën — que devem aliar-se ou desaparecer com o tempo.


Germano Luders

As parcerias têm dois objetivos. O primeiro é aumentar escala, ou seja, produzir mais carros com menos investimentos e atingir novos mercados. Portanto elas são um caminho para reduzir custos e elevar os lucros. É o caso do acordo entre GM e Fiat, uma operação de 2,4 bilhões de dólares formalizada pela troca de ações entre as duas companhias. Coube à GM a participação de uma quinta parte na Fiat Auto, a mais importante empresa do grupo italiano. Por sua vez, a Fiat ganhou uma fatia de 5% do capital da gigante americana. Na Europa e na América Latina, as duas vão unificar a produção de motores e câmbios e a área de compras. A costura entre as montadoras no Brasil começou a ser feita na quinta-feira à tarde, no QG da GM no ABC paulista, quando Frederick Hendersen, presidente da empresa no país, e Gianni Coda, presidente da Fiat, tiveram a primeira reunião depois do anúncio oficial do acordo. Todos sabem que a aproximação não será fácil. Mas a partir de 2005 as montadoras esperam alcançar uma economia de 2 bilhões de dólares por ano.


Reuters

Esportivos de luxo da Land Rover: reforço no variado time de modelos
que a Ford oferece


Juntas, GM e Fiat são donas de cerca de um terço do mercado nos Estados Unidos e um terço na Europa. Metade dos carros vendidos no Brasil é fabricada pelas duas marcas famosas. De cada dez automóveis vendidos no planeta, dois levam a logomarca de uma delas. Para a General Motors, abraçar a Fiat teve outro significado. A GM espera ter sepultado de vez a ambição das rivais Ford e DaimlerChrysler de crescer pela via italiana. Se uma delas tivesse engolido a Fiat, a liderança mundial da GM estaria em risco. Para ultrapassar Ford e DaimlerChrysler na disputa pela Fiat, a GM usou mais psicologia do que dólares. Em vez de propor a compra da empresa italiana, como as outras fizeram, optou pelo acordo parcial, uma espécie de noivado. "O formato da parceria, abrangendo apenas duas áreas, reduziu o risco de uma reação dos italianos, que têm verdadeira paixão pela Fiat", diz Markus Stricker, diretor da área automotiva da consultoria A.T. Kearney.

A correria para se fundir com o concorrente do mercado ao lado tem outra razão. Há alguns anos, animadas com o fim do comunismo e o avanço da economia de mercado nos cinco continentes, as montadoras tiveram todas a mesma idéia: fazer carros mundiais. Eram modelos nem grandes nem pequenos, nem caros nem muito baratos, nem muito luxuosos e tampouco mal-acabados. Deveriam agradar ao gosto médio do consumidor global. Bem, essa estratégia esgotou-se. A onda agora é produzir veículos com a cara do freguês em cada país. Essa é a aposta da Ford. Já que ela não pode ser tão gigantesca quanto a GM, prefere utilizar uma estratégia minimalista. "Queremos ter várias marcas que satisfaçam a diversidade de gostos e exigências dos consumidores e fazer com que seja um prazer dirigir nossos carros", diz Jacques Nasser, presidente da Ford mundial. Com a compra da Land Rover por 3 bilhões de dólares, a Ford atrela mais uma marca de luxo a seu time, que já conta com Jaguar e Volvo Automóveis. Em seu cardápio estão ainda carros como o Lincoln Navigator, uma caminhonete esportiva com ares aristocráticos, e as caminhonetes já consagradas da série F.


Reuters

Rover e BMW: casamento desfeito


A urgência de gastar menos e ser mais eficiente na produção e no atendimento às necessidades de públicos diferentes fica clara quando se analisa o mercado mundial. As fábricas estão trabalhando com uma ociosidade de 35% num planeta em que o ímpeto de comprar veículos novos é enorme, mas a grana anda curta. Na Europa o consumo está estagnado e estima-se que as vendas cairão, até 2003, de 16,8 milhões de carros para 16,5 milhões. No mercado que reúne Estados Unidos, Canadá e México, o Nafta, a expansão prevista é ínfima. Será de apenas 200.000 automóveis sobre os atuais 18,4 milhões. A maior esperança das montadoras é a América Latina. Embora atualmente o consumo ande em baixa, em decorrência das últimas dificuldades econômicas enfrentadas pelos países, a expectativa é de elevação significativa na venda de carros nos próximos anos: de 2,4 para 3,2 milhões em 2003. Isso justifica os investimentos feitos no Brasil. Mas até os mais preparados executivos e estudiosos do mercado automobilístico sabem que as previsões podem dar errado na América Latina. Restaria a possibilidade ainda mais remota de uma revolução na China. Somente os chineses teriam condições de consumir 200 milhões de carros nos próximos dez anos. Nesse caso, todas as montadoras, trabalhando ao máximo vapor, não dariam conta de atender à demanda. Isso, claro, é apenas um sonho amarelo.