Leo Caldas/Lumiar
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| Ana Célia: união de
onze anos e suspiros de tristeza no jantar |
União com qualidade –
Tem mais. Mulheres, admita-se de uma vez por todas, falam
mais mesmo: 25.000 palavras por
dia, contra 15.000 dos homens,
segundo pesquisa feita na Inglaterra. E, por ser como são,
propensas a pôr dúvidas e emoções
em palavras, vira e mexe usam sua capacidade de falar para
"discutir a relação" –
três palavrinhas que fazem os homens tremer
nas bases, em geral por não terem a menor idéia
do que vem a ser isso, ou do bem que isso possa produzir.
Eles, por sua vez, são portas na hora de ouvir –
em geral, basta um olhar mais atento das ligadíssimas
esposas para perceber que o marido, no segundo minuto daquela
conversa séria, está longe, longe. "As mulheres
têm grande necessidade de se comunicar. Elas parecem
estar mais dispostas internamente a enfrentar os problemas
e suas conseqüências. Já os homens se
dispõem menos a entrar em contato com os mesmos problemas",
confirma a psicóloga Terezinha Féres Carneiro.
Juntem-se as diferenças de fabricação,
digamos, com as que eles e elas vão acumulando à
medida que crescem, e está feita a bolha que faz
desandar a maioria dos casamentos –
agora, mais do que nunca.
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| 72%
dos
processos de separação litigiosa são
iniciativa da mulher |
Foi-se o tempo das certezas absolutas, em
se tratando da união de homens e mulheres. "Os ritos
do casamento são instituídos para assegurar
a repartição das mulheres entre os homens,
para disciplinar em torno delas a competição
feminina, para socializar a procriação. Designando
quem são os pais, acrescenta-se outra filiação
à materna, a única evidente. O casamento funda
relações de parentesco, funda toda a sociedade",
escreveu a antropóloga Margaret Mead em 1948. Assim
foi por muito tempo, e, nesse contexto, os homens dominavam
e as mulheres se acomodavam. Às poucas que se atreviam
a subverter essa regra restavam o estigma da "desquitada"
e os olhares pouco simpáticos da vizinhança.
Felizmente, evoluíram os vizinhos e evoluíram
também as mulheres, hoje responsáveis por
41% da força de trabalho no Brasil. Para a família,
o aumento da participação feminina no mercado
trouxe pelo menos duas mudanças: o homem perdeu o
status de único provedor; a mulher, a resignação.
À medida que ela se tornou financeiramente mais independente,
ficou também menos disposta a suportar uniões
infelizes. E agora parece buscar, sobretudo, qualidade na
vida a dois.
A pernambucana Ana Célia Gouveia,
42 anos, conta que durante os onze anos de casamento com
o técnico em informática Luiz Henrique Lins,
41, foi-se sentindo cada vez mais insatisfeita. O marido
não a deixava exercer a profissão (é
formada em psicologia) mas, ao mesmo tempo, não valorizava
seu trabalho como dona-de-casa. Os dois conversavam pouco
e faziam sexo menos ainda. "Quando jantávamos a sós,
só ouvia meus suspiros de tristeza", diz. Para Ana
Célia, aquilo era o inferno. Para Lins, uma situação
chata, porém normal. Quando os filhos cresceram,
ela pediu a separação. "Ele não acreditou.
Nem tinha percebido que o casamento acabara havia tempo.
Por ele, ficaríamos naquela situação
até o fim da vida", acredita.
Foto Dada Cardoso
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Autópsia da intimidade –
Ana Célia levou dez anos para tomar a decisão,
mas as estatísticas indicam que grande parte dos
casamentos sucumbe bem antes disso. Os números do
IBGE revelam que o pico das separações se
dá no segundo ano de união. Para a doutora
em psicologia Maria Luiza Munhóz, da Associação
Paulista de Terapia Familiar, um cálculo simples
explica o fenômeno: o primeiro ano é o tempo
médio que um casal leva para se adaptar às
regras do casamento e o segundo é o tempo que, em
geral, os cônjuges precisam para amadurecer a idéia
de se separar, na eventualidade de ficar evidente que a
primeira etapa fracassou.
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| O maior número de separações
acontece no segundo ano de casamento |
Mas como identificar o ponto do não-retorno? É
difícil, sobretudo porque as duas partes envolvidas,
imersas cada uma em seu jeito de ver as coisas e culpar
a outra, dificilmente conseguem examinar a situação
com frieza. Aos mais atentos, a socióloga americana
Diane Vaughan divide o processo em sete fases distintas
(veja quadro): a do segredo,
a das queixas, a da transição, a da incerteza,
a do confronto, a da reconsideração e, por
último, a da separação. De tanto os
casais se separarem, e se separarem mal, terapeutas e advogados,
a audiência mais constante das brigas e bate-bocas,
compilaram uma espécie de manual (veja
quadro) para uma separação menos sofrida,
ainda que somente do ponto de vista prático. A primeira
regra, básica e essencial, é: conversem o
menos possível. No ponto em que a separação
é inevitável, "discutir a relação",
ou mesmo discutir os termos da separação,
é briga, xingamento e bateção de porta
na certa. Assim sendo, sejam práticos. Contratem
dois advogados, um para cada um. "Além de eliminar
suspeitas de favorecimento de uma das partes, diminui a
necessidade de os cônjuges se encontrarem", ensina
a advogada Renata Di Pierro, com mais de 300 processos de
separação no currículo, que assina
um dos capítulos do livro Casamento, Separação
e Viuvez – Seus Direitos, Seus
Deveres.
Claudio Rossi
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| Antonio e a advogada Renata: processo
de separação incluiu até ameaça
de morte |
Também ajuda a figura do mediador. Diferentemente
do terapeuta de família que tenta salvar casamentos,
mediadores de conflitos familiares (em geral, psicólogos)
empenham-se em conseguir que as pessoas se separem bem.
Ou, pelo menos, o mais civilizadamente possível.
Na opinião do desembargador Antonio Cezar Peluso,
do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo,
a grande vantagem da mediação é evitar
que as brigas deságüem numa separação
litigiosa – "de longe, a mais
traumática para todos os envolvidos". A separação
litigiosa só pode ser aceita se um dos parceiros
provar que o outro cometeu infrações graves,
como adultério, agressão física, atividade
criminosa e práticas do gênero. Ou seja, a
parte que dá início à ação
tem de comprovar que o ex é dado a atitudes infames.
Este, por sua vez, tem a vida devassada e seu pior retrato
exposto em audiências dolorosas. Ao receber o pedido
de separação da mulher, Antonio (o nome é
fictício), 31 anos, soube que ela o traíra
o tempo todo. Furioso, fez de tudo para dificultar o divórcio.
"Foram dois anos de puro horror. Armamos escândalos
públicos, destruímos os carros um do outro,
trocamos ameaças de morte e, quatro vezes, fomos
parar na polícia. Emagreci 10 quilos e entrei em
depressão", diz o empresário. Seu sofrimento
só não foi maior que o da filha do casal,
hoje com 5 anos, que passou a dar sinais evidentes de insegurança.
"Ela chorava o tempo todo e começou a se isolar dos
amiguinhos na escola", lembra Antonio, que por fim abriu
mão das exigências e aceitou um acordo com
a ex. "Foi difícil engolir a vontade de me vingar,
mas achei que já tínhamos ido longe demais."
Fotos Mauricio Nahas
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Casamento é...
Para a mulher, uma relação de
amor
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Casamento é...
Para o homem, constituir família
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Gratificação pessoal –
Soa familiar? E é mesmo. Brigar é a sina de
homens e mulheres, bichos diferentes, quando perdem a vontade
de encontrar a fórmula da vida em comum. Ele e ela,
separados, podem até ser civilizados, mas amigos,
só rarissimamente. Depois de entrevistar 98 casais
separados, a psicóloga Constance Ahrons, dos Estados
Unidos, traçou o panorama de como os ex se relacionam.
Segundo o estudo, 24% dos casais tornam-se inimigos mortais;
26% mantêm as conversas obrigatórias, mas vivem
às turras; 38% se tratam cordialmente; só
12% continuam amigos de verdade. Nada no aumento das separações
e nos problemas que elas acarretam, porém, indica
que eles e elas não querem mais viver juntos. Querem,
sim, e continuam se casando sem parar: concretos com abstratas,
falantes com calados, prepotentes com castradoras, um sempre
busca o outro e, quando acha que encontrou, propõe
montar casa e morar junto. "O casamento deixou de ser uma
função social para se tornar uma fonte de
gratificação pessoal", diz Terezinha Féres
Carneiro. "Ou seja, casamento hoje em dia é tão
importante que ninguém quer ter um ruim." E assim,
de busca em busca, homens e mulheres continuam se encontrando.
Porque, convenhamos: diferenças à parte, namorar
é preciso.
Com
reportagem de Dina Duarte, do
Recife,
Bel Moherdaui e Rachel Campello, de São
Paulo