Edição 1 641 - 22/3/2000

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Leo Caldas/Lumiar
Ana Célia: união de onze anos e suspiros de tristeza no jantar


União com qualidade
Tem mais. Mulheres, admita-se de uma vez por todas, falam mais mesmo: 25.000 palavras por dia, contra 15.000 dos homens, segundo pesquisa feita na Inglaterra. E, por ser como são, propensas a pôr dúvidas e emoções em palavras, vira e mexe usam sua capacidade de falar para "discutir a relação" três palavrinhas que fazem os homens tremer nas bases, em geral por não terem a menor idéia do que vem a ser isso, ou do bem que isso possa produzir. Eles, por sua vez, são portas na hora de ouvir em geral, basta um olhar mais atento das ligadíssimas esposas para perceber que o marido, no segundo minuto daquela conversa séria, está longe, longe. "As mulheres têm grande necessidade de se comunicar. Elas parecem estar mais dispostas internamente a enfrentar os problemas e suas conseqüências. Já os homens se dispõem menos a entrar em contato com os mesmos problemas", confirma a psicóloga Terezinha Féres Carneiro. Juntem-se as diferenças de fabricação, digamos, com as que eles e elas vão acumulando à medida que crescem, e está feita a bolha que faz desandar a maioria dos casamentos agora, mais do que nunca.

72% dos processos de separação litigiosa são iniciativa da mulher

Foi-se o tempo das certezas absolutas, em se tratando da união de homens e mulheres. "Os ritos do casamento são instituídos para assegurar a repartição das mulheres entre os homens, para disciplinar em torno delas a competição feminina, para socializar a procriação. Designando quem são os pais, acrescenta-se outra filiação à materna, a única evidente. O casamento funda relações de parentesco, funda toda a sociedade", escreveu a antropóloga Margaret Mead em 1948. Assim foi por muito tempo, e, nesse contexto, os homens dominavam e as mulheres se acomodavam. Às poucas que se atreviam a subverter essa regra restavam o estigma da "desquitada" e os olhares pouco simpáticos da vizinhança. Felizmente, evoluíram os vizinhos e evoluíram também as mulheres, hoje responsáveis por 41% da força de trabalho no Brasil. Para a família, o aumento da participação feminina no mercado trouxe pelo menos duas mudanças: o homem perdeu o status de único provedor; a mulher, a resignação. À medida que ela se tornou financeiramente mais independente, ficou também menos disposta a suportar uniões infelizes. E agora parece buscar, sobretudo, qualidade na vida a dois.

A pernambucana Ana Célia Gouveia, 42 anos, conta que durante os onze anos de casamento com o técnico em informática Luiz Henrique Lins, 41, foi-se sentindo cada vez mais insatisfeita. O marido não a deixava exercer a profissão (é formada em psicologia) mas, ao mesmo tempo, não valorizava seu trabalho como dona-de-casa. Os dois conversavam pouco e faziam sexo menos ainda. "Quando jantávamos a sós, só ouvia meus suspiros de tristeza", diz. Para Ana Célia, aquilo era o inferno. Para Lins, uma situação chata, porém normal. Quando os filhos cresceram, ela pediu a separação. "Ele não acreditou. Nem tinha percebido que o casamento acabara havia tempo. Por ele, ficaríamos naquela situação até o fim da vida", acredita.


Foto Dada Cardoso


Autópsia da intimidade
Ana Célia levou dez anos para tomar a decisão, mas as estatísticas indicam que grande parte dos casamentos sucumbe bem antes disso. Os números do IBGE revelam que o pico das separações se dá no segundo ano de união. Para a doutora em psicologia Maria Luiza Munhóz, da Associação Paulista de Terapia Familiar, um cálculo simples explica o fenômeno: o primeiro ano é o tempo médio que um casal leva para se adaptar às regras do casamento e o segundo é o tempo que, em geral, os cônjuges precisam para amadurecer a idéia de se separar, na eventualidade de ficar evidente que a primeira etapa fracassou.


O maior número de separações acontece no segundo ano de casamento

Mas como identificar o ponto do não-retorno? É difícil, sobretudo porque as duas partes envolvidas, imersas cada uma em seu jeito de ver as coisas e culpar a outra, dificilmente conseguem examinar a situação com frieza. Aos mais atentos, a socióloga americana Diane Vaughan divide o processo em sete fases distintas (veja quadro): a do segredo, a das queixas, a da transição, a da incerteza, a do confronto, a da reconsideração e, por último, a da separação. De tanto os casais se separarem, e se separarem mal, terapeutas e advogados, a audiência mais constante das brigas e bate-bocas, compilaram uma espécie de manual (veja quadro) para uma separação menos sofrida, ainda que somente do ponto de vista prático. A primeira regra, básica e essencial, é: conversem o menos possível. No ponto em que a separação é inevitável, "discutir a relação", ou mesmo discutir os termos da separação, é briga, xingamento e bateção de porta na certa. Assim sendo, sejam práticos. Contratem dois advogados, um para cada um. "Além de eliminar suspeitas de favorecimento de uma das partes, diminui a necessidade de os cônjuges se encontrarem", ensina a advogada Renata Di Pierro, com mais de 300 processos de separação no currículo, que assina um dos capítulos do livro Casamento, Separação e Viuvez Seus Direitos, Seus Deveres.


Claudio Rossi
Antonio e a advogada Renata: processo de separação incluiu até ameaça de morte


Também ajuda a figura do mediador. Diferentemente do terapeuta de família que tenta salvar casamentos, mediadores de conflitos familiares (em geral, psicólogos) empenham-se em conseguir que as pessoas se separem bem. Ou, pelo menos, o mais civilizadamente possível. Na opinião do desembargador Antonio Cezar Peluso, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, a grande vantagem da mediação é evitar que as brigas deságüem numa separação litigiosa "de longe, a mais traumática para todos os envolvidos". A separação litigiosa só pode ser aceita se um dos parceiros provar que o outro cometeu infrações graves, como adultério, agressão física, atividade criminosa e práticas do gênero. Ou seja, a parte que dá início à ação tem de comprovar que o ex é dado a atitudes infames. Este, por sua vez, tem a vida devassada e seu pior retrato exposto em audiências dolorosas. Ao receber o pedido de separação da mulher, Antonio (o nome é fictício), 31 anos, soube que ela o traíra o tempo todo. Furioso, fez de tudo para dificultar o divórcio. "Foram dois anos de puro horror. Armamos escândalos públicos, destruímos os carros um do outro, trocamos ameaças de morte e, quatro vezes, fomos parar na polícia. Emagreci 10 quilos e entrei em depressão", diz o empresário. Seu sofrimento só não foi maior que o da filha do casal, hoje com 5 anos, que passou a dar sinais evidentes de insegurança. "Ela chorava o tempo todo e começou a se isolar dos amiguinhos na escola", lembra Antonio, que por fim abriu mão das exigências e aceitou um acordo com a ex. "Foi difícil engolir a vontade de me vingar, mas achei que já tínhamos ido longe demais."

 
Fotos Mauricio Nahas

Casamento é...
Para a mulher, uma relação de amor

 

Casamento é...
Para o homem, constituir família


Gratificação pessoal
Soa familiar? E é mesmo. Brigar é a sina de homens e mulheres, bichos diferentes, quando perdem a vontade de encontrar a fórmula da vida em comum. Ele e ela, separados, podem até ser civilizados, mas amigos, só rarissimamente. Depois de entrevistar 98 casais separados, a psicóloga Constance Ahrons, dos Estados Unidos, traçou o panorama de como os ex se relacionam. Segundo o estudo, 24% dos casais tornam-se inimigos mortais; 26% mantêm as conversas obrigatórias, mas vivem às turras; 38% se tratam cordialmente; só 12% continuam amigos de verdade. Nada no aumento das separações e nos problemas que elas acarretam, porém, indica que eles e elas não querem mais viver juntos. Querem, sim, e continuam se casando sem parar: concretos com abstratas, falantes com calados, prepotentes com castradoras, um sempre busca o outro e, quando acha que encontrou, propõe montar casa e morar junto. "O casamento deixou de ser uma função social para se tornar uma fonte de gratificação pessoal", diz Terezinha Féres Carneiro. "Ou seja, casamento hoje em dia é tão importante que ninguém quer ter um ruim." E assim, de busca em busca, homens e mulheres continuam se encontrando. Porque, convenhamos: diferenças à parte, namorar é preciso.

Com reportagem de Dina Duarte, do Recife,
Bel Moherdaui e Rachel Campello, de São Paulo

 

Fotos Alfredo Franco