Edição 1 641 - 22/3/2000

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Fotos Alfredo Franco

Confrontados com velhas diferenças e novas
queixas, casais
se entendem cada vez menos
e separam-se cada vez mais.
A iniciativa,
na maior parte das vezes, é da mulher

Thaís Oyama e Lizia Bydlowski


Homem é homem, mulher é mulher. Feitos para se casar e para se separar. Desde que o mundo é mundo que a humanidade pratica o casa-separa. Desde que o divórcio foi legalizado no Brasil, em 1977, e desde que o casamento ganhou cara nova e mais exigente, nas últimas décadas, brasileiros e brasileiras convivem cada vez menos com quem acham que não vale a pena. Atualmente, uma em cada quatro uniões se desfaz no país, onde o casamento para a vida toda é artigo cada vez mais raro. Levantamento que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, acaba de consolidar indica que a freqüência de uniões rompidas cresce a cada ano: em 1996, ano avaliado na última pesquisa, a quantidade de separações judiciais e divórcios foi 12% maior que em 1991.


Dos casais separados, 12% permanecem bons amigos; 24% tornam-se inimigos

Razões para o salto não faltam. Ao contrário, os pedidos de separação cresceram, principalmente porque aumentou o número de motivos pelos quais as pessoas decidem romper. Ao analisar uma série de estudos realizados nos Estados Unidos entre os anos 50 e os 90, a dupla de pesquisadoras americanas Florence Kaslow e Lita Schwartz concluiu que, antes da década de 70, as alegações para o divórcio eram coisas bem concretas: infidelidade, dificuldades financeiras, problemas com a família do cônjuge, violência doméstica, negligência do lar enfim, argumentos "de homem". A partir da década de 80, as queixas passaram a incluir quesitos menos palpáveis, daqueles típicos "de mulher". Atualmente, "falta de entrosamento" e "falta de comunicação com o parceiro" são respostas obrigatórias nas pesquisas. Como era de prever, as duas reclamações, que concorrem de perto com a imbatível infidelidade, partem, principalmente, das mulheres. Nos Estados Unidos, quase 60% das iniciativas de rompimento são delas; no Brasil, segundo o IBGE, em mais de 70% dos processos de separação não consensuais, justamente os mais dolorosos, a responsabilidade é feminina.

Seres diferentes Estariam as mulheres, como sempre, complicando as coisas? Para a terapeuta de casais Terezinha Féres Carneiro, professora titular do departamento de psicologia da Pontifícia Universidade Católica, a PUC, do Rio de Janeiro, a dificuldade das mulheres de se comunicar com seu parceiro e de se fazer entender por ele ocorre porque, quando o assunto é casamento (como em muitos outros, aliás), homens e mulheres não falam a mesma língua. A observação da psicóloga Terezinha ampara-se em números bem precisos. Num trabalho orientado por ela e executado pela psicóloga Andréa Seixas Magalhães, perguntou-se a vinte casais da classe média carioca "o que é casamento". A resposta de 95% das entrevistadas foi: uma relação de amor. A de 100% dos homens foi: constituição de família.

São visões diferentes, e frustrações idem. "As mulheres encaram a separação como uma conseqüência do fim do amor. Já para grande parte dos homens, o fato de a relação não ser um mar de rosas não justifica um rompimento. Bem ou mal, eles têm uma família", avalia Terezinha. A questão que ela levanta, e que acaba sendo a mola mestra da imensa maioria das separações, é velha como a humanidade e, no entanto, atualíssima: a constatação de que o sexo oposto é exatamente isso oposto. Homens e mulheres pensam diferente, reagem diferente, têm diferentes expectativas, e, sem uma boa dose de compreensão e boa vontade mútuas, não há união que resista ao embate de la difference, por mais que a ela se dêem vivas.

Quais são, afinal, essas diferenças? O clássico Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus, manual de auto-ajuda escrito por um homem, John Gray, e dirigido principalmente às mulheres (que supostamente têm nos genes o gosto por livros de auto-ajuda), faz uma listinha básica. Primeiro, homens são concretos, oferecem soluções e não ligam para sentimentos; mulheres são abstratas, oferecem conselhos e orientações que eles não querem ouvir. Homens, quando têm problemas, afastam-se e ficam matutando sozinhos; mulheres querem sempre conversar sobre o que incomoda, a elas e a eles também. Homens precisam sentir-se necessários; mulheres necessitam ser, no termo usado no livro, "acalentadas". Homens e mulheres usam as mesmas palavras, mas com significados diferentes: eles levam tudo ao pé da letra; elas são dadas a superlativos e generalizações empregados apenas para reforçar seu ponto de vista. No quesito intimidade, homens de vez em quando precisam afastar-se; mulheres exigem contato constante, às vezes menos, às vezes mais, mas sempre exigem. Homens precisam de amor "confiante, que aceite e aprecie"; mulheres, de amor "que seja carinhoso, que entenda e respeite". Por fim, reza o manual, mulheres têm dificuldade em pedir ajuda; homens, em dá-la.

Por mais rasa e simplista que seja, a lista bate em teclas conhecidíssimas. "A mulher é intuitiva, criativa, enquanto o homem é objetivo. Trata-se de uma diferença genética, darwiniana", resume o psicanalista carioca Luiz Alberto Py. A constatação é hoje amplamente aceita, inclusive por feministas renitentes, forçadas pelos fatos a abdicar da premissa politicamente correta, mas falsa, de que meninos e meninas nascem iguaizinhos e viram o que viram por causa da forma como são educados. A educação conta, é claro, e muito. Mas as causas fundamentais da diferença estão, no caso, mais em cima. Homens, constatam os cientistas, usam mais o lado esquerdo do cérebro o prático, racional. Mulheres, embora também freqüentem esse hemisfério, usam e abusam do outro, o direito o da emoção, da intuição. Homem é mais veloz e mais forte, mulher é mais flexível. "Eles contam com um anabolizante natural, a testosterona, que lhes dá maior massa muscular, e também têm mais glóbulos vermelhos e maior capacidade de transportar oxigênio pelo sangue, o que significa maior resistência", explica o fisiologista Turibio Leite de Barros Neto. "Já elas se saem melhor em modalidades como dança e ginástica olímpica, que exigem movimentos flexíveis." E, surpresa, ter mais gordura, neste caso, conta ponto. "Em atividades de duração muito longa, como travessias a nado, elas têm vantagem", diz Barros.