Fotos Alfredo Franco
Confrontados
com velhas diferenças e novas
queixas, casais se
entendem cada vez menos
e separam-se cada vez mais. A
iniciativa,
na maior parte das vezes, é da mulher
Thaís Oyama e
Lizia Bydlowski
Homem é homem, mulher é mulher. Feitos para
se casar – e para se separar.
Desde que o mundo é mundo que a humanidade pratica
o casa-separa. Desde que o divórcio foi legalizado
no Brasil, em 1977, e desde que o casamento ganhou cara
nova e mais exigente, nas últimas décadas,
brasileiros e brasileiras convivem cada vez menos com quem
acham que não vale a pena. Atualmente, uma em cada
quatro uniões se desfaz no país, onde o casamento
para a vida toda é artigo cada vez mais raro. Levantamento
que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística,
IBGE, acaba de consolidar indica que a freqüência
de uniões rompidas cresce a cada ano: em 1996, ano
avaliado na última pesquisa, a quantidade de separações
judiciais e divórcios foi 12% maior que em 1991.
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| Dos casais separados,
12% permanecem
bons amigos; 24% tornam-se inimigos |
Razões para o salto não faltam. Ao contrário,
os pedidos de separação cresceram, principalmente
porque aumentou o número de motivos pelos quais as
pessoas decidem romper. Ao analisar uma série de
estudos realizados nos Estados Unidos entre os anos 50 e
os 90, a dupla de pesquisadoras americanas Florence Kaslow
e Lita Schwartz concluiu que, antes da década de
70, as alegações para o divórcio eram
coisas bem concretas: infidelidade, dificuldades financeiras,
problemas com a família do cônjuge, violência
doméstica, negligência do lar –
enfim, argumentos "de homem". A partir da década
de 80, as queixas passaram a incluir quesitos menos palpáveis,
daqueles típicos "de mulher". Atualmente, "falta
de entrosamento" e "falta de comunicação com
o parceiro" são respostas obrigatórias nas
pesquisas. Como era de prever, as duas reclamações,
que concorrem de perto com a imbatível infidelidade,
partem, principalmente, das mulheres. Nos Estados Unidos,
quase 60% das iniciativas de rompimento são delas;
no Brasil, segundo o IBGE, em mais de 70% dos processos
de separação não consensuais, justamente
os mais dolorosos, a responsabilidade é feminina.
Seres diferentes –
Estariam as mulheres, como sempre, complicando as coisas?
Para a terapeuta de casais Terezinha Féres Carneiro,
professora titular do departamento de psicologia da Pontifícia
Universidade Católica, a PUC, do Rio de Janeiro,
a dificuldade das mulheres de se comunicar com seu parceiro
e de se fazer entender por ele ocorre porque, quando o assunto
é casamento (como em muitos outros, aliás),
homens e mulheres não falam a mesma língua.
A observação da psicóloga Terezinha
ampara-se em números bem precisos. Num trabalho orientado
por ela e executado pela psicóloga Andréa
Seixas Magalhães, perguntou-se a vinte casais da
classe média carioca "o que é casamento".
A resposta de 95% das entrevistadas foi: uma relação
de amor. A de 100% dos homens foi: constituição
de família.
São visões diferentes, e frustrações
idem. "As mulheres encaram a separação como
uma conseqüência do fim do amor. Já para
grande parte dos homens, o fato de a relação
não ser um mar de rosas não justifica um rompimento.
Bem ou mal, eles têm uma família", avalia Terezinha.
A questão que ela levanta, e que acaba sendo a mola
mestra da imensa maioria das separações, é
velha como a humanidade e, no entanto, atualíssima:
a constatação de que o sexo oposto é
exatamente isso – oposto.
Homens e mulheres pensam diferente, reagem diferente, têm
diferentes expectativas, e, sem uma boa dose de compreensão
e boa vontade mútuas, não há união
que resista ao embate de la difference, por mais
que a ela se dêem vivas.
Quais são, afinal, essas diferenças? O clássico
Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus,
manual de auto-ajuda escrito por um homem, John Gray, e
dirigido principalmente às mulheres (que supostamente
têm nos genes o gosto por livros de auto-ajuda), faz
uma listinha básica. Primeiro, homens são
concretos, oferecem soluções e não
ligam para sentimentos; mulheres são abstratas, oferecem
conselhos e orientações que eles não
querem ouvir. Homens, quando têm problemas, afastam-se
e ficam matutando sozinhos; mulheres querem sempre conversar
sobre o que incomoda, a elas e a eles também. Homens
precisam sentir-se necessários; mulheres necessitam
ser, no termo usado no livro, "acalentadas". Homens e mulheres
usam as mesmas palavras, mas com significados diferentes:
eles levam tudo ao pé da letra; elas são dadas
a superlativos e generalizações empregados
apenas para reforçar seu ponto de vista. No quesito
intimidade, homens de vez em quando precisam afastar-se;
mulheres exigem contato constante, às vezes menos,
às vezes mais, mas sempre exigem. Homens precisam
de amor "confiante, que aceite e aprecie"; mulheres, de
amor "que seja carinhoso, que entenda e respeite". Por fim,
reza o manual, mulheres têm dificuldade em pedir ajuda;
homens, em dá-la.
Por mais rasa e simplista que seja, a lista bate em teclas
conhecidíssimas. "A mulher é intuitiva, criativa,
enquanto o homem é objetivo. Trata-se de uma diferença
genética, darwiniana", resume o psicanalista carioca
Luiz Alberto Py. A constatação é hoje
amplamente aceita, inclusive por feministas renitentes,
forçadas pelos fatos a abdicar da premissa politicamente
correta, mas falsa, de que meninos e meninas nascem iguaizinhos
e viram o que viram por causa da forma como são educados.
A educação conta, é claro, e muito.
Mas as causas fundamentais da diferença estão,
no caso, mais em cima. Homens, constatam os cientistas,
usam mais o lado esquerdo do cérebro –
o prático, racional. Mulheres, embora também
freqüentem esse hemisfério, usam e abusam do
outro, o direito – o da emoção,
da intuição. Homem é mais veloz e mais
forte, mulher é mais flexível. "Eles contam
com um anabolizante natural, a testosterona, que lhes dá
maior massa muscular, e também têm mais glóbulos
vermelhos e maior capacidade de transportar oxigênio
pelo sangue, o que significa maior resistência", explica
o fisiologista Turibio Leite de Barros Neto. "Já
elas se saem melhor em modalidades como dança e ginástica
olímpica, que exigem movimentos flexíveis."
E, surpresa, ter mais gordura, neste caso, conta ponto.
"Em atividades de duração muito longa, como
travessias a nado, elas têm vantagem", diz Barros.