Edição 1 641 - 22/3/2000

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As gaúchas são demais

Gisele, Alessandra, Jeísa e Shirley...
Como o Rio Grande do Sul se tornou
uma máquina de produzir top models

Rodrigo Vieira da Cunha


Priscila Prade
Alessandra Ambrósio: gauchinha na campanha
da Guess


Gisele Bündchen, 19 anos, seios perfeitos e modelo do ano escolhida pela revista Vogue. Shirley Mallmann, 22 anos, olhos azuis de tirar o fôlego e modelo do costureiro Jean-Paul Gaultier. Alessandra Ambrósio, 18 anos, cabelos castanhos que brilharam na campanha internacional da loja Guess. Jeísa Chiminazzo, 14 anos, rosto de menina da campanha da grife Philosophy. Além da beleza indiscutível, todas essas feras das passarelas internacionais têm outra característica em comum: nasceram no Rio Grande do Sul, o Estado que se tornou o maior celeiro de beldades do país. O Brasil tem cerca de 4.000 modelos em atividade. Aproximadamente 20% desse total nasceu no Rio Grande do Sul. Considerada apenas a lista das seis maiores agências do país, a chamada elite do mercado da moda, 29% das profissionais são gaúchas
mais do que qualquer outro Estado. "As modelos gaúchas realmente estão num momento espetacular", diz Rose Daguano, gerente-geral da Associação Brasileira de Agências de Manequins e Modelos.


Antonio Milena
Jeísa Chiminazzo, 14 anos: a mais jovem entre as revelações do Sul


Seria injusto afirmar que as mais belas mulheres do Brasil são do Rio Grande do Sul. É uma questão de gosto e isso, como já é sabido, não se discute. Mas existem algumas razões para que as modelos gaúchas sejam maioria no mercado. A primeira é que o padrão internacional de beleza mais aceito hoje se encaixa como uma luva nas características físicas das mulheres dos pampas. Nos editoriais de moda e nas passarelas domina o estilo europeu, de mulheres com quase 1,80 metro de altura, pele clara e olhos azuis ou verdes. E isso não falta no Rio Grande do Sul, Estado onde a população é formada por descendentes de imigrantes alemães, italianos e poloneses. Outro fator que explica a proliferação de modelos do Rio Grande do Sul é a determinação. Geralmente vindas de famílias humildes e sem muitas perspectivas de crescimento na vida, elas se inspiram nos exemplos de sucesso e tomam a carreira de modelo como um norte para o sucesso profissional. E levam o assunto a sério. Muitas vezes com sacrifício. Deixam para trás a família e se mudam para cidades e até países estranhos e quase sempre vivem em repúblicas, com o dinheiro contado. E, diferentemente do que acontece com certas modelos, elas não fazem frescura, biquinhos. Acordam cedo e evitam festas estafantes. "As gaúchas vêm para vencer", diz Eli Hadid Wahbe, dono da agência Mega. "Elas têm muita raça e mostram um profissionalismo acima da média."


Fontes: Ford, Mega, Next, Marilyn, L'Equipe e Success


As chances de uma gaúcha decolar nas passarelas são tão boas e lucrativas que as agências e os escritórios caça-talentos montaram um esquema de ataque às moçoilas no Estado. A filial gaúcha da Elite mobiliza regularmente um pequeno exército de 25 pessoas para vasculhar o interior do Rio Grande do Sul em busca do rosto novo. Zeca de Abreu, diretor da agência paulista Marilyn, costuma voar até Porto Alegre quatro vezes por ano (o dobro das visitas que faz a outras regiões) para conferir de perto algumas promessas. Eli Hadid Wahbe, da Mega, viaja duas vezes por ano, somente para o Sul. Além do interesse especial dos brasileiros pelas gaúchas, agentes internacionais já descobriram o filão. Há dois anos, enviados de agências de Paris, Milão, Nova York, Londres e Tóquio costumavam parar em São Paulo nas visitas periódicas de garimpagem. Agora, eles esticam a viagem até o Rio Grande do Sul. Em dezembro, os japoneses fizeram três seleções só com modelos gaúchas e os chilenos estão hoje com três modelos da Elite de Porto Alegre.


Liane Neves
O olheiro Dílson Stein: orgulho de ter descoberto 100 talentos, entre eles, Gisele Bündchen


O esquema das agências conta com uma série de anônimos trabalhando na busca por uma menina mais bonita. Há uma extensa rede formada por pessoas que atuam como olheiros, escolas que dão cursos de modelos e incontáveis concursos de beleza. Há uma verdadeira linha de produção com sede no Rio Grande do Sul. Essa estrutura chega a despejar no mercado cerca de oitenta novas modelos gaúchas a cada ano, segundo dados da Associação Brasileira de Agências de Manequins e Modelos. O fotógrafo Eduardo Carneiro, há seis anos clicando moda, faz em média três books por dia para aspirantes a modelo. Depois de acabar o trabalho, ele pode indicar ou não a moça para uma das agências gaúchas. Quem tem sorte já chega ao estúdio com a recomendação. Nesse caso, é só ter o book na mão para começar a trabalhar.


Liane Neves
O fotógrafo Eduardo Carneiro: três books por dia

Os olheiros são parte importante nesse esquema. O mais famoso deles é Dílson Stein. Ex-modelo, ele dá palestras para que as jovens aprendam alguns ensinamentos básicos sobre a profissão. Na platéia, observa os rostos mais bonitos e as convida para uma segunda etapa: uma viagem a São Paulo com direito a conhecer as grandes agências do ramo. O processo de seleção é altamente rigoroso, pior do que o vestibular. De acordo com seus números, Stein deu palestras a 15.000 "alunas". Dessas, 100 meninas foram encaminhadas às grandes agências uma em 150. Uma de suas descobertas chama-se Alessandra Ambrósio, 18 anos, estrela mundial da nova campanha da Guess. Seu maior orgulho é ter detectado numa dessas palestras a presença de Gisele Bündchen. Convidada a viajar para São Paulo, Gisele acabou apresentada à fama e à fortuna. Para Stein, o estouro da top model rendeu dividendos. Mais valorizado no mercado, passou a dar cursos em Salvador e São Paulo e sua agenda vive lotada.

O prestígio das mulheres gaúchas não vem de hoje. Em 1963, a miss Universo, Ieda Maria Vargas, saiu do Brasil. Na década de 80, uma loirinha chamada Xuxa Meneghel conquistou o país. Na década passada, Shirley Mallmann tornou-se a primeira brasileira a entrar no seleto grupo das supermodels internacionais. Todas lá da terrinha, tchê. Mas foi no embalo do sucesso da top das tops Gisele Bündchen que as bonitinhas dos pampas se animaram para valer. Elas querem alcançar o estrelato e, quem sabe um dia, poder faturar 7.500 dólares por uma simples voltinha na passarela.

 
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