Vovó sai de férias
Com a diversificação dos
roteiros, aumenta
o número de turistas da terceira idade
Juliana De Mari
Ricardo Benichio
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Idosos a caminho do acampamento:
passeio animado
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Sábado, 6 da manhã. A algazarra domina a
estação central de trem de Campinas, a 100
quilômetros de São Paulo. Cinqüenta turistas
de cabelos grisalhos preparam-se para embarcar rumo a um
passeio pelo interior paulista. A bordo de uma maria-fumaça,
a euforia é tanta que aqueles senhores e senhoras
até parecem colegiais em viagem de férias.
No caminho, pausa para visitar um museu de locomotivas antigas
e quatro seculares fazendas de café. Duas horas depois,
o grupo desembarca na cidade de Itu. Lá, eles passam
o resto do dia no Camping Casarão. Aprendem a montar
e desmontar uma barraca e fazem caminhadas pelo meio da
mata. Acampamento para idosos? Até pouco tempo atrás,
seria mesmo de estranhar. O passeio oferecido pela agência
Master-Baroni, no entanto, reflete uma nova tendência
de turismo no Brasil. Com dinheiro e tempo disponíveis,
cheios de vigor, os sessentões já respondem
por 20% do total de viagens domésticas. No ano passado,
quase 9 milhões de idosos percorreram o país
de norte a sul um aumento de 5% em relação
a 1998.
A
diversificação das ofertas de viagens para
a terceira idade é mais que oportuna. O Brasil, antes
conhecido como país jovem, hoje está envelhecendo.
São cerca de 15 milhões de pessoas com mais
de 60 anos. Em 2025, prevê-se, serão o dobro.
"Com a saúde mais bem cuidada, a expectativa de vida
dos brasileiros deu um salto, e nossos idosos se tornaram
mais independentes e desejosos de aproveitar a vida", diz
a geriatra carioca Carla Fromüller. Uma pesquisa da
Associação Brasileira dos Clubes da Melhor
Idade cujos membros são na maioria sessentões
, realizada no final do ano passado, concluiu que
85% dos 220.000 associados viajam
três vezes por ano, uma das quais para o exterior.
A renda dos turistas de cabelos brancos gira em torno de
1.300 reais mensais. Gastam,
em média, 750 reais por viagem, sem contar as despesas
com cartão de crédito. De cada dez, nove são
mulheres. Na maioria, viúvas. Se o passeio render
um curso de línguas, informática ou pintura,
melhor ainda.
O mesmo fenômeno é observado em outros países
onde o aumento da expectativa de vida criou uma enorme demanda
de lazer para a terceira idade. Nos Estados Unidos, o turista
de cabelos brancos representa 80% do mercado doméstico.
"A idéia é incentivar os descontos em agências,
hotéis e companhias aéreas para em breve chegar
mais perto dos índices americanos", diz a coordenadora
do programa da terceira idade da Embratur, Ingrid Luck.
Os novos roteiros oferecidos pelas agências de turismo
pouco têm a ver com as tradicionais excursões
para estâncias de águas termais, praias do
Nordeste ou compras em Nova York programas cujo ápice
era, invariavelmente, a hora do bingo. O que se apresenta
agora é muito mais animado. Acampar é apenas
uma das opções para idosos. Há ainda
roteiros ecológicos com direito a trilhas, banhos
de cachoeira e descida de corredeiras em botes infláveis.
Existem também programas de intercâmbio no
exterior. Foi-se o tempo em que aprender uma língua
estrangeira hospedado em casa de família era experiência
típica de adolescentes. Em maio de 1999, às
vésperas de completar 65 anos, o empresário
gaúcho Leo Medina Martins embarcou para uma temporada
na pequena Bournemouth, cidade no litoral da Inglaterra.
Ficou hospedado em uma casa de família. A "mãe"
inglesa era uma jovem senhora quarentona. A "irmã"
de 18 anos poderia ser sua neta. "Confesso que no momento
da inscrição estava um pouco receoso", conta
Martins, que viajou pela Central de Intercâmbio de
São Paulo. "Imaginava que seria o velho da turma."
Qual não foi sua surpresa ao notar que os colegas
de classe tinham, em média, dez anos mais que ele.
"Além de melhorar o inglês, voltei a me sentir
um garotão", comemora.
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