Edição 1 641 - 22/3/2000

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Todos querem ser Cabral

Veja também
Onde está Cabral?

Comemorações dos 500 anos incentivam muita gente a procurar laços de parentesco com o descobridor do Brasil

Fabio Schivartche

 


Pedro Álvares Cabral e o brasão da família:
auto-exílio em Santarém

O quinto centenário do descobrimento do Brasil despertou um fenômeno inusitado, a vontade de ser Cabral. O Instituto Genealógico Brasileiro, IGB, está abarrotado de pedidos de comprovação de parentesco com Pedro Álvares Cabral. Nos últimos cinco meses, cerca de 100 solicitações chegaram ao instituto, vindas de todos os cantos do país. É muito além do movimento normal. Nos setenta anos de história do IGB, uma instituição paulistana especializada em esmiuçar a origem familiar, foram emitidos 200 diplomas de descendência da família do navegador português que descobriu o Brasil três, em média, por ano. Pedro Álvares Cabral ficaria surpreso com tanta gente querendo ser seu parente. Dono de um caráter irascível, logo depois de descobrir o Brasil o navegador caiu em desgraça. Brigou com o rei dom Manuel, desentendeu-se com Vasco da Gama, deixou a corte e partiu para o auto-exílio em Santarém, ao norte de Lisboa. Morreu, quase no ostracismo, em 1520, aos 52 anos. Só três séculos e meio depois de sua morte Cabral ganhou o devido reconhecimento no rol dos grandes navegadores portugueses. É esse herói que toda essa gente quer na família.

Para ser parente legítimo de Cabral, o descobridor, não basta apenas o sobrenome. De Cabrais, o mundo está cheio. O candidato a parente do navegador precisa mostrar documentos que provem a descendência de Cabral de Belmonte, a pequena aldeia quase na fronteira de Portugal com a Espanha. Foi ali que tudo começou, em 1271, com a fundação da Capela de Belmonte por Gil Álvares Cabral, conforme relata o jornalista gaúcho Walter Galvani no livro Nau Capitânia, a mais minuciosa biografia já feita sobre o navegador português. O nosso Cabral viveu em Belmonte até os 10 anos, quando então, junto com o irmão mais velho, João Fernandes, foi mandado para viver em Lisboa. Há um mês, o advogado paulista Thiago Szolnoky de Barbosa Ferreira Cabral e os quatro irmãos foram diplomados descendentes "da família Cabral (de Belmonte), a mesma do descobridor do Brasil", como se lê no certificado do IGB. Aos 32 anos, o advogado é uma euforia só. Orgulhoso, exibe o anel de ouro, com o desenho de duas cabras o brasão da família de Cabral.

Os laços de Thiago com Pedro Álvares são longínquos e um tanto quanto tortos. Depois de analisados os documentos de dezesseis gerações, descobriu-se que o advogado paulista é descendente de Diogo, irmão bastardo do navegador. Pouco se sabe sobre Diogo. Os cronistas portugueses divergem inclusive sobre quem seria sua mãe. O que se sabe é que ele foi o primeiro dos onze filhos de Fernão Cabral, o pai do descobridor do Brasil. Confessor de dom Manuel, Diogo nem sequer foi chamado à reunião da família para a divisão dos bens depois da morte do patriarca em 1493. A imagem das duas cabras decora a parede da sala de estar da empresária Adriana Margarida Prestes Maia Fernandes, de 54 anos. Filha de Francisco Prestes Maia, prefeito de São Paulo por duas vezes (1938-1945 e 1961-1965), Adriana descobriu-se recentemente uma genuína Cabral. O parentesco é com Álvaro Gil, outro dos irmãos de Pedro.

Entre os novos Cabrais, alguns são mais Cabral do que outros. Os que descendem diretamente de Pedro Álvares contam vantagem sobre os outros, parentes dos irmãos do navegador. Desde menina, a professora aposentada Maria Lúcia de Souza Rodrigues, hoje com 56 anos, ouvia os avós contar que os antepassados descendiam do descobridor do Brasil. Com as comemorações dos 500 anos, Maria Lúcia resolveu investigar a história. Descobriu que a avó materna tinha laços remotos com Constança de Castro, a mais velha das filhas de Pedro e Isabel, morta em 1529. Quase cinco séculos e dezoito gerações separam Maria Lúcia de Constança. A passagem do tempo, neste caso, só aumenta o encanto com o parente ilustre. "No fundo, essas pessoas que buscam parentesco com o nosso descobridor querem participar de uma fantasia", diz Carlos Eduardo Barata, historiador e genealogista do Rio de Janeiro. "Comprovados os laços de parentesco, é como se elas fizessem parte da história das conquistas marítimas."

A corrida pela descoberta de laços familiares com o navegador é um fenômeno tipicamente brasileiro. Não ocorre em terras portuguesas o que acontece por aqui. "No Brasil, a figura de Cabral tem uma carga simbólica muito mais forte do que em Portugal", diz o diretor do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, Bernardo da Silveira de Vasconcelos e Sousa, de 43 anos também ele, um parente de Cabral via Fernando, o primogênito do navegador. Não é para menos. Cabral demorou muito a entrar na lista dos grandes navegadores lusitanos. Lá, ele tem de rivalizar como o fez, aliás, em vida com Vasco da Gama. Descobridor do caminho marítimo para a Índia, Gama é tido como o maior dos navegadores portugueses.

 
Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  Cabral nos 500 anos do descobrimento
Da internet
  www.iantt.pt

 

 

Fotos: Claudio Rossi/Ricardo Benichio
1-A professora Maria Lúcia: parentesco com a filha mais velha de Cabral, Constança   2-Adriana Fernandes, empresária: descendente de um dos dez irmãos do navegador   3- Thiago (de terno e gravata), com os quatro irmãos: orgulho e anel com o brasão da família