Edição 1 641 - 22/3/2000

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Bom emprego, mas falta mulher

No Vale do Silício, a meca da alta tecnologia,
é uma dureza encontrar namorada

Gisela Sekeff

 
Ilustração Negreiros

Eles têm carros do ano, casas espetaculares e muito dinheiro no banco. São homens na faixa dos 30 e poucos anos e estão empregados nas maiores empresas de tecnologia do mundo. Moram no Vale do Silício, uma estreita faixa de terra entre San Francisco e San Jose, onde a média salarial é de 54.000 dólares por ano (quase o dobro da média americana) e 85% da população tem diploma de curso superior. Lá, é possível encontrar um milionário por quilômetro quadrado sem dificuldade. Pode parecer tudo perfeito, mas na vida desses homens falta algo essencial: companhia. Isso mesmo. A terra dos mais bem remunerados e dos maiores crânios dos Estados Unidos é um deserto.... de mulheres. Só em Santa Clara, uma das cidades da região, há 68.000 homens solteiros a mais do que as representantes do sexo feminino na mesma condição. Na Universidade Stanford, pólo de cérebros para a indústria de tecnologia, os homens formam 70% do corpo estudantil. Algumas salas de aula têm 200 homens e menos de dez mulheres. Hoje, não há nos Estados Unidos e no Canadá outra cidade em que ocorra tanto déficit de mulheres como em San Jose, município onde a IBM tem um centro de pesquisas. A escassez é inacreditável, em especial quando comparada com os números do restante do país. Existem hoje nos Estados Unidos 7 milhões de mulheres solteiras a mais que homens.

 

As razões para a solidão desses gênios da informática são difíceis de ser vencidas. O motivo que os atrai ao Vale do Silício é o mesmo que parece repelir as mulheres. Eles vão atrás do dinheiro, do status e da fama. Em compensação, são obrigados a conviver com a fadiga, o stress e, principalmente, a falta de tempo. Na vida desses empregados do futuro nada pode ser mais importante que o trabalho. É claro que há mulheres no Vale do Silício, mas ocupam apenas 4% dos cargos mais importantes. Ao contrário do que ocorre em outros setores da economia americana, onde elas já são maioria, poucas mulheres estão dispostas a abrir mão da vida pessoal para se dedicar totalmente ao trabalho. "É uma profissão que exige um esquema de trabalho radical e lida com raciocínios matemáticos o tempo todo. A maioria das mulheres prefere outros campos de pensamento", explica Sílvio Meira, professor de Engenharia de Software da Universidade Federal de Pernambuco.

No Vale do Silício, tempo é igual a dinheiro mesmo. Lá são gerados 20% dos 610 bilhões de dólares anuais de renda do mercado global de informática, criam-se 62 novos postos de trabalho por semana e a receita com exportações já supera a da indústria automobilística em Detroit. Quase 40% do setor de alta tecnologia está baseado lá. Somadas, as empresas de tecnologia ali instaladas valem 452 bilhões de dólares. A filosofia dessa ilha de prosperidade é rígida. Se um funcionário gasta dez minutos para ir ao banco, são dez minutos a menos de serviço. Quem trabalha na Netscape, por exemplo, não precisa sair de lá para comprar ingressos para peças de teatro, nem para ir ao dentista e ao médico. Até aquele tempinho desperdiçado para lavar o carro é precioso e algumas empresas instalaram máquinas de lava-jato no próprio estacionamento. Assim, passam-se em média quinze horas do dia dentro das companhias, em frente ao computador. O restante é gasto para tomar banho e dormir. Resultado: pouco tempo para lazer e menos chances de conseguir uma namorada.

Mas como os homens do Vale do Silício conseguem fazer fortuna, vencer concorrências estrangeiras, criar produtos e equipamentos eficientes e não são capazes de arranjar uma simples namorada? Eles tentam. Ultimamente, os cérebros do Silício vêm recorrendo a alternativas próprias de homens desesperados. O que era considerado até pouco tempo artifício feminino de conquista passou a ser utilizado sem pudor pelos rapazes. Os tecnomilionários bolaram uma cartilha própria que seguem à risca na esperança de sair do jejum. No papo com as mulheres, nunca admitem que a principal intenção é casar. Isso afugenta as pretendentes. Na hora da paquera, o truque é ser vago sobre assuntos de trabalho. Atentos a esse novo modelo de comportamento, as agências de matrimônio e os profissionais especializados em encontros amorosos proliferam no Vale. Há quem pague até 10 000 dólares para ser instruído sobre o que comprar, como se vestir, que presente dar e até o que falar em determinadas horas. Os telenamoros e os bate-papos eletrônicos também estão em alta. No ano passado, o americano Richard Gosse, um cupido profissional, mudou a Conferência Anual dos Solteiros do Alasca para Palo Alto. Na conferência, Gosse prometeu devolver os 35 dólares do ingresso para as mulheres que não se encantassem com pelo menos um representante masculino. Não adiantou. No mesmo dia em que haveria o encontro, inaugurou-se uma feira de informática em Las Vegas. Mesmo precisando de namoradas, os homens do Vale do Silício viajaram para a cidade dos cassinos. Essa é uma das regras que eles sempre seguem: quando o dever chama, nunca diga não. Uma regra absolutamente compreensível num vale que é do silício, mas, certamente, não é das mulheres.

 
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