Bom emprego, mas falta mulher
No Vale do Silício, a meca da alta
tecnologia,
é uma dureza encontrar namorada
Gisela Sekeff
Ilustração Negreiros
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Eles têm carros do ano, casas espetaculares e muito
dinheiro no banco. São homens na faixa dos 30 e poucos
anos e estão empregados nas maiores empresas de tecnologia
do mundo. Moram no Vale do Silício, uma estreita
faixa de terra entre San Francisco e San Jose, onde a média
salarial é de 54.000 dólares
por ano (quase o dobro da média americana) e 85%
da população tem diploma de curso superior.
Lá, é possível encontrar um milionário
por quilômetro quadrado sem dificuldade. Pode parecer
tudo perfeito, mas na vida desses homens falta algo essencial:
companhia. Isso mesmo. A terra dos mais bem remunerados
e dos maiores crânios dos Estados Unidos é
um deserto.... de mulheres. Só em Santa Clara, uma
das cidades da região, há 68.000
homens solteiros a mais do que as representantes do sexo
feminino na mesma condição. Na Universidade
Stanford, pólo de cérebros para a indústria
de tecnologia, os homens formam 70% do corpo estudantil.
Algumas salas de aula têm 200 homens e menos de dez
mulheres. Hoje, não há nos Estados Unidos
e no Canadá outra cidade em que ocorra tanto déficit
de mulheres como em San Jose, município onde a IBM
tem um centro de pesquisas. A escassez é inacreditável,
em especial quando comparada com os números do restante
do país. Existem hoje nos Estados Unidos 7 milhões
de mulheres solteiras a mais que homens.
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As razões para a solidão desses gênios
da informática são difíceis de ser
vencidas. O motivo que os atrai ao Vale do Silício
é o mesmo que parece repelir as mulheres. Eles vão
atrás do dinheiro, do status e da fama. Em compensação,
são obrigados a conviver com a fadiga, o stress e,
principalmente, a falta de tempo. Na vida desses empregados
do futuro nada pode ser mais importante que o trabalho.
É claro que há mulheres no Vale do Silício,
mas ocupam apenas 4% dos cargos mais importantes. Ao contrário
do que ocorre em outros setores da economia americana, onde
elas já são maioria, poucas mulheres estão
dispostas a abrir mão da vida pessoal para se dedicar
totalmente ao trabalho. "É uma profissão que
exige um esquema de trabalho radical e lida com raciocínios
matemáticos o tempo todo. A maioria das mulheres
prefere outros campos de pensamento", explica Sílvio
Meira, professor de Engenharia de Software da Universidade
Federal de Pernambuco.
No Vale do Silício, tempo é igual a dinheiro
mesmo. Lá são gerados 20% dos 610 bilhões
de dólares anuais de renda do mercado global de informática,
criam-se 62 novos postos de trabalho por semana e a receita
com exportações já supera a da indústria
automobilística em Detroit. Quase 40% do setor de
alta tecnologia está baseado lá. Somadas,
as empresas de tecnologia ali instaladas valem 452 bilhões
de dólares. A filosofia dessa ilha de prosperidade
é rígida. Se um funcionário gasta dez
minutos para ir ao banco, são dez minutos a menos
de serviço. Quem trabalha na Netscape, por exemplo,
não precisa sair de lá para comprar ingressos
para peças de teatro, nem para ir ao dentista e ao
médico. Até aquele tempinho desperdiçado
para lavar o carro é precioso e algumas empresas
instalaram máquinas de lava-jato no próprio
estacionamento. Assim, passam-se em média quinze
horas do dia dentro das companhias, em frente ao computador.
O restante é gasto para tomar banho e dormir. Resultado:
pouco tempo para lazer e menos chances de conseguir uma
namorada.
Mas como os homens do Vale do Silício conseguem
fazer fortuna, vencer concorrências estrangeiras,
criar produtos e equipamentos eficientes e não são
capazes de arranjar uma simples namorada? Eles tentam. Ultimamente,
os cérebros do Silício vêm recorrendo
a alternativas próprias de homens desesperados. O
que era considerado até pouco tempo artifício
feminino de conquista passou a ser utilizado sem pudor pelos
rapazes. Os tecnomilionários bolaram uma cartilha
própria que seguem à risca na esperança
de sair do jejum. No papo com as mulheres, nunca admitem
que a principal intenção é casar. Isso
afugenta as pretendentes. Na hora da paquera, o truque é
ser vago sobre assuntos de trabalho. Atentos a esse novo
modelo de comportamento, as agências de matrimônio
e os profissionais especializados em encontros amorosos
proliferam no Vale. Há quem pague até 10 000
dólares para ser instruído sobre o que comprar,
como se vestir, que presente dar e até o que falar
em determinadas horas. Os telenamoros e os bate-papos eletrônicos
também estão em alta. No ano passado, o americano
Richard Gosse, um cupido profissional, mudou a Conferência
Anual dos Solteiros do Alasca para Palo Alto. Na conferência,
Gosse prometeu devolver os 35 dólares do ingresso
para as mulheres que não se encantassem com pelo
menos um representante masculino. Não adiantou. No
mesmo dia em que haveria o encontro, inaugurou-se uma feira
de informática em Las Vegas. Mesmo precisando de
namoradas, os homens do Vale do Silício viajaram
para a cidade dos cassinos. Essa é uma das regras
que eles sempre seguem: quando o dever chama, nunca diga
não. Uma regra absolutamente compreensível
num vale que é do silício, mas, certamente,
não é das mulheres.
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