Tesouro nos trilhos
Abertura do metrô de Atenas desencava
10 000 peças
históricas e construções milenares
Fotos: Greek Ministry of Culture
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Vasos e ossos encontrados numa
tumba de 2 500 anos: fragmentos funerários
gregos
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Durante quase vinte séculos, o Rio Iridanos foi para
os modernos atenienses apenas uma obscura citação
nos textos do filósofo Platão e do poeta Hesíodo.
Eles legaram à posteridade a informação
de que o curso d'água nascia nas colinas Lycabettus,
na região nordeste da capital grega, e desapareceu
durante a dominação romana, no século
II. As escavações de novas linhas de metrô
finalmente puseram fim ao mistério. Arqueólogos
acharam o leito do antigo rio canalizado há pelo
menos dezoito séculos numa obra em frente ao Parlamento
grego, junto a um hotel de luxo. A descoberta da localização
exata do Iridanos é apenas uma pequena parte do fantástico
passado da cidade que veio à tona em mais de cinco
anos de trabalho. Mais de 10.000
peças de inegável valor histórico já
foram resgatadas do fundo da terra numa operação
que envolveu cinqüenta arqueólogos e escarafunchou
70.000 metros quadrados, o equivalente
a mais de seis campos de futebol. A pesquisa se desenvolveu
a uma profundidade média de 18 metros e o resultado
pode ser visto numa grande exposição de 500
peças recém-inaugurada no Museu de Arte Antiga.
"São descobertas excepcionais que nos dão
um retrato do que foi a cidade desde o período neolítico
até os dias de hoje", diz a arqueóloga Liana
Parlama, chefe da equipe que trabalhou na área do
Parlamento, a Praça Syntagma.
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Peças retiradas do cemitério
Kerameikos: desvio para não abalar os túmulos
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Das 21 estações previstas nas novas linhas
do metrô, pelo menos cinco ficam em áreas de
grande importância arqueológica, pois estão
dentro do período das muralhas da cidade antiga.
A região de Syntagma é a mais importante delas.
Abaixo do piso de pedra e dos jardins, na parte mais funda
das escavações, foram encontrados indícios
de ocupação regular a partir do século
VI a.C. Ao lado do leito do rio, estava uma estrada dois
séculos mais nova, que ligava a cidade às
regiões produtoras de vinho, em Messogaea. Um pouco
mais ao norte, acharam-se oficinas equipadas para produzir
estátuas de bronze. O terreno também foi usado
como cemitério 500 anos antes de Cristo. Os achados
pertencem a várias épocas desde o período
arcaico da cultura grega até o helenístico,
passando pela Idade Clássica, tempo em que Atenas
floresceu como cidade-Estado, com seus filósofos,
poetas e artistas. Alguns metros acima desta cidade grega
antiga está o que resta de uma outra Atenas, ocupada
pelos romanos e que voltou a ser uma polis exuberante
quando governada por Adriano, no século II.
Antes de se tornar imperador, Adriano desenvolveu verdadeira
paixão pela Grécia clássica. Quando
viveu em Atenas, tratou de embelezar a cidade e deixou sua
marca em templos, portais, prédios suntuosos e aquedutos.
O período está se materializando agora em
um exuberante complexo de termas que usava a água
do Iridanos, sob a Praça Syntagma. Construções
similares foram descobertas nas redondezas, uma delas com
mais de quinze salas de banho e paredes de até 4
metros de altura, intactas e repletas de afrescos. "Os banhos
romanos são o que mais nos impressionaram", diz Liana
Parlama. Em frente à Biblioteca de Adriano, junto
à estação de Monastiraki, os arqueólogos
descobriram que a praça que existia ali foi construída
sobre um curso de água canalizado com tijolos. "É
uma das obras hidráulicas mais importantes de toda
a Antiguidade", comemora o pesquisador Niki Alavizou, responsável
pela escavação.
Cavoucar o subsolo de uma velha cidade européia
para meter lá dentro um sistema de trens não
é tarefa simples. Roma é o exemplo mais conhecido
desse tipo de dor de cabeça. Planejado desde o governo
de Benito Mussolini, o metrô da cidade anda a passos
de tartaruga e tem apenas 39 quilômetros de extensão,
onze a menos que o de São Paulo. A cada avanço
dos tatuzões, topa-se com uma preciosidade arqueológica
de valor inestimável. Torna-se necessário
refazer as contas, mudar a rota e seguir adiante, como aconteceu
quando a linha que ia da estação Termini até
a Piazza della Reppublica encontrou as belíssimas
termas do imperador Diocleciano, datadas do século
III. O mesmo ocorre em Atenas. Numa ocasião, a escavação
provocou uma avalanche de vasos de cerâmica, estátuas
e objetos de arte envolvidos em lama e água. Outras
acabaram em acidentes, como o ocorrido junto a um poço
de ventilação nos Jardins Nacionais, um grande
parque no centro da cidade. Um trecho de 13 metros da Muralha
Valeriana, construída há 1.600
anos, foi destruído. A estrutura, feita para resistir
aos exércitos mais poderosos da época, não
suportou uma barbeiragem do tatuzão, que furou além
da conta.
Há três anos, quando os túneis chegavam
ao cemitério Kerameikos, as obras provocaram uma
gritaria tremenda no mundo inteiro. Com sepulturas de mais
de 2.500 anos, essa é
a mais importante área de sepultamentos da cidade,
junto do lado externo da antiga muralha. Os engenheiros
haviam decidido que o metrô passaria 10 metros abaixo
do terreno do cemitério, mas tiveram de mudar de
plano diante dos protestos. Depois de quatro meses de bate-boca,
decidiu-se mudar a rota. Mesmo assim, topou-se com 1.200
tumbas pelo caminho. Os arqueólogos descobriram vários
túmulos de soldados da Guerra do Peloponeso, entre
Atenas e Esparta, e um marco de pedra no qual se acredita
estar gravado um texto escrito pelo poeta Eurípedes.
Acharam-se também 230 piras funerárias, prova
de que entre os costumes dos antigos gregos estava também
o de incinerar seus mortos. Não é sem razão
que o metrô ateniense consumiu até agora mais
de 2 bilhões de dólares.
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