Edição 1 641 - 22/3/2000

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Tesouro nos trilhos

Abertura do metrô de Atenas desencava 10 000 peças
históricas e construções milenares

 
Fotos: Greek Ministry of Culture

Vasos e ossos encontrados numa tumba de 2 500 anos: fragmentos funerários gregos


Durante quase vinte séculos, o Rio Iridanos foi para os modernos atenienses apenas uma obscura citação nos textos do filósofo Platão e do poeta Hesíodo. Eles legaram à posteridade a informação de que o curso d'água nascia nas colinas Lycabettus, na região nordeste da capital grega, e desapareceu durante a dominação romana, no século II. As escavações de novas linhas de metrô finalmente puseram fim ao mistério. Arqueólogos acharam o leito do antigo rio canalizado há pelo menos dezoito séculos numa obra em frente ao Parlamento grego, junto a um hotel de luxo. A descoberta da localização exata do Iridanos é apenas uma pequena parte do fantástico passado da cidade que veio à tona em mais de cinco anos de trabalho. Mais de 10.000 peças de inegável valor histórico já foram resgatadas do fundo da terra numa operação que envolveu cinqüenta arqueólogos e escarafunchou 70.000 metros quadrados, o equivalente a mais de seis campos de futebol. A pesquisa se desenvolveu a uma profundidade média de 18 metros e o resultado pode ser visto numa grande exposição de 500 peças recém-inaugurada no Museu de Arte Antiga. "São descobertas excepcionais que nos dão um retrato do que foi a cidade desde o período neolítico até os dias de hoje", diz a arqueóloga Liana Parlama, chefe da equipe que trabalhou na área do Parlamento, a Praça Syntagma.

 

Peças retiradas do cemitério Kerameikos: desvio para não abalar os túmulos


Das 21 estações previstas nas novas linhas do metrô, pelo menos cinco ficam em áreas de grande importância arqueológica, pois estão dentro do período das muralhas da cidade antiga. A região de Syntagma é a mais importante delas. Abaixo do piso de pedra e dos jardins, na parte mais funda das escavações, foram encontrados indícios de ocupação regular a partir do século VI a.C. Ao lado do leito do rio, estava uma estrada dois séculos mais nova, que ligava a cidade às regiões produtoras de vinho, em Messogaea. Um pouco mais ao norte, acharam-se oficinas equipadas para produzir estátuas de bronze. O terreno também foi usado como cemitério 500 anos antes de Cristo. Os achados pertencem a várias épocas – desde o período arcaico da cultura grega até o helenístico, passando pela Idade Clássica, tempo em que Atenas floresceu como cidade-Estado, com seus filósofos, poetas e artistas. Alguns metros acima desta cidade grega antiga está o que resta de uma outra Atenas, ocupada pelos romanos e que voltou a ser uma polis exuberante quando governada por Adriano, no século II.

Antes de se tornar imperador, Adriano desenvolveu verdadeira paixão pela Grécia clássica. Quando viveu em Atenas, tratou de embelezar a cidade e deixou sua marca em templos, portais, prédios suntuosos e aquedutos. O período está se materializando agora em um exuberante complexo de termas que usava a água do Iridanos, sob a Praça Syntagma. Construções similares foram descobertas nas redondezas, uma delas com mais de quinze salas de banho e paredes de até 4 metros de altura, intactas e repletas de afrescos. "Os banhos romanos são o que mais nos impressionaram", diz Liana Parlama. Em frente à Biblioteca de Adriano, junto à estação de Monastiraki, os arqueólogos descobriram que a praça que existia ali foi construída sobre um curso de água canalizado com tijolos. "É uma das obras hidráulicas mais importantes de toda a Antiguidade", comemora o pesquisador Niki Alavizou, responsável pela escavação.

Cavoucar o subsolo de uma velha cidade européia para meter lá dentro um sistema de trens não é tarefa simples. Roma é o exemplo mais conhecido desse tipo de dor de cabeça. Planejado desde o governo de Benito Mussolini, o metrô da cidade anda a passos de tartaruga e tem apenas 39 quilômetros de extensão, onze a menos que o de São Paulo. A cada avanço dos tatuzões, topa-se com uma preciosidade arqueológica de valor inestimável. Torna-se necessário refazer as contas, mudar a rota e seguir adiante, como aconteceu quando a linha que ia da estação Termini até a Piazza della Reppublica encontrou as belíssimas termas do imperador Diocleciano, datadas do século III. O mesmo ocorre em Atenas. Numa ocasião, a escavação provocou uma avalanche de vasos de cerâmica, estátuas e objetos de arte envolvidos em lama e água. Outras acabaram em acidentes, como o ocorrido junto a um poço de ventilação nos Jardins Nacionais, um grande parque no centro da cidade. Um trecho de 13 metros da Muralha Valeriana, construída há 1.600 anos, foi destruído. A estrutura, feita para resistir aos exércitos mais poderosos da época, não suportou uma barbeiragem do tatuzão, que furou além da conta.

Há três anos, quando os túneis chegavam ao cemitério Kerameikos, as obras provocaram uma gritaria tremenda no mundo inteiro. Com sepulturas de mais de 2.500 anos, essa é a mais importante área de sepultamentos da cidade, junto do lado externo da antiga muralha. Os engenheiros haviam decidido que o metrô passaria 10 metros abaixo do terreno do cemitério, mas tiveram de mudar de plano diante dos protestos. Depois de quatro meses de bate-boca, decidiu-se mudar a rota. Mesmo assim, topou-se com 1.200 tumbas pelo caminho. Os arqueólogos descobriram vários túmulos de soldados da Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta, e um marco de pedra no qual se acredita estar gravado um texto escrito pelo poeta Eurípedes. Acharam-se também 230 piras funerárias, prova de que entre os costumes dos antigos gregos estava também o de incinerar seus mortos. Não é sem razão que o metrô ateniense consumiu até agora mais de 2 bilhões de dólares.

 
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