Edição 1 641 - 22/3/2000

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Os novos ricos

Os espanhóis dão maioria absoluta ao governo que colocou o país na vanguarda do desenvolvimento na Europa

 

Aznar: "O sucesso na
economia é obra de todos"

Até pouco tempo atrás, a Espanha era conhecida por ser o país das touradas. As corridas de touro continuam em cartaz, mas hoje seu maior sucesso é a prosperidade. A Espanha foi o país que mais cresceu na Europa no ano passado. É também o mais ligado na nova economia, um dos que mais investem no exterior, só perde para a França em número de turistas e é dos poucos com índices de desemprego em queda. Esse cenário iluminado foi o principal cabo eleitoral do primeiro-ministro José María Aznar, que nas eleições gerais do domingo 12 garantiu não apenas um novo mandato mas também a maioria absoluta nas Cortes, o parlamento em Madri. Uma espécie de herdeiro modernizado e democrático do generalíssimo Francisco Franco, o ditador que comandou o país durante mais de três décadas, o Partido Popular conquistou 183 das 350 cadeiras e vai poder governar sem precisar de alianças. É o tipo de coisa que só ocorre quando a população se convence de que, realmente, está ficando mais rica.

 
AFP
Vandeville Eric
O antigo e o moderno: o país das touradas é também dos edifícios
modernos, celulares e da internet

Só Portugal, Irlanda e Finlândia acompanham o ritmo espanhol de crescimento na Europa. Nos últimos cinco anos, que coincidem com a primeira fase do governo do Partido Popular, a produção aumentou quase 15%, mais que o dobro do que foi registrado pela economia brasileira no mesmo período. As taxas de desemprego, um pesadelo durante os catorze anos do governo socialista que antecedeu a era Aznar, caíram de 23% para 15%. O índice ainda é alto, porém deixou de ser escandaloso. Os investimentos externos vêm crescendo ano a ano, mas é a voracidade de suas empresas no exterior que dá a dimensão da vitalidade da economia local. Há menos de uma década, a presença espanhola na América Latina era quase inexpressiva. Neste ano, a Espanha deve ultrapassar os Estados Unidos como o principal investidor estrangeiro na região. O carro-chefe da ofensiva é a Telefónica de España, a gigante das telecomunicações que abocanhou a Telesp por quase 6 bilhões de reais em 1998. Além do Brasil, a empresa lançou tentáculos na Argentina, no Chile e no Peru. Vale mais que um quarto de todas as ações negociadas nas bolsas espanholas. Na Europa, a Bolsa de Valores de Madri só perde em movimento para as de Londres, Paris, Frankfurt e Estocolmo.

Outro país — "A Espanha é outro país", diz o primeiro-ministro. A mudança é notável até visualmente. As novas construções de linhas modernosas pipocam na paisagem das cidades. Nas ruas, uma das marcas da opulência é a proliferação de celulares, que não chegavam a 1 milhão há cinco anos e hoje são 16 milhões. A Espanha é também o país da Europa mais conectado na nova economia. A Terra Networks, uma subsidiária da Telefónica, é o principal portal da internet do continente. O Banco Bilbao Vizcaya se vangloria de ser a instituição financeira que mais rápida e eficientemente soube adaptar-se ao mundo dos negócios virtuais.

Aznar levou os louros, mas o milagre econômico espanhol é obra de muitos santos. A prosperidade, que começou com o fim da ditadura, em 1977, recebeu um grande empurrão, quase dez anos depois, com a forte injeção de subsídios que acompanhou a entrada da Espanha na União Européia, UE. Foram os socialistas que abriram o país, colocaram-no na UE e modernizaram a economia. Mas ficaram tempo demais no poder e se atolaram em corrupção e politicagem. O atual primeiro-ministro teve a sabedoria de dar continuidade às boas ações dos adversários. "A modernização da Espanha é um sucesso coletivo", reconhece. Tratou apenas de aumentar a intensidade das reformas. Levou adiante um ambicioso plano de privatizações, reduziu as taxas de juro e liberalizou as leis trabalhistas. Além da inflação, que caiu mas resiste em patamar superior ao recomendado pelo banco central europeu, o que pode atrapalhar a caminhada de Aznar é a corrupção. O alvo principal das críticas da oposição é Juan Villalonga, um amigo de escola que o presidente colocou na presidência da Telefónica e que se tornou um dos homens mais ricos do país.