Os novos ricos
Os espanhóis
dão maioria absoluta ao governo que colocou o país
na vanguarda do desenvolvimento na Europa

Aznar: "O sucesso
na
economia é obra de todos" |
Até pouco tempo
atrás, a Espanha era conhecida por ser o país
das touradas. As corridas de touro continuam em cartaz,
mas hoje seu maior sucesso é a prosperidade. A Espanha
foi o país que mais cresceu na Europa no ano passado.
É também o mais ligado na nova economia, um
dos que mais investem no exterior, só perde para
a França em número de turistas e é
dos poucos com índices de desemprego em queda. Esse
cenário iluminado foi o principal cabo eleitoral
do primeiro-ministro José María Aznar, que
nas eleições gerais do domingo 12 garantiu
não apenas um novo mandato mas também a maioria
absoluta nas Cortes, o parlamento em Madri. Uma espécie
de herdeiro modernizado e democrático do generalíssimo
Francisco Franco, o ditador que comandou o país durante
mais de três décadas, o Partido Popular conquistou
183 das 350 cadeiras e vai poder governar sem precisar de
alianças. É o tipo de coisa que só
ocorre quando a população se convence de que,
realmente, está ficando mais rica.
AFP
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Vandeville
Eric  |
O antigo
e o moderno: o país das touradas é também
dos edifícios
modernos, celulares e da internet |
Só Portugal,
Irlanda e Finlândia acompanham o ritmo espanhol de
crescimento na Europa. Nos últimos cinco anos, que
coincidem com a primeira fase do governo do Partido Popular,
a produção aumentou quase 15%, mais que o
dobro do que foi registrado pela economia brasileira no
mesmo período. As taxas de desemprego, um pesadelo
durante os catorze anos do governo socialista que antecedeu
a era Aznar, caíram de 23% para 15%. O índice
ainda é alto, porém deixou de ser escandaloso.
Os investimentos externos vêm crescendo ano a ano,
mas é a voracidade de suas empresas no exterior que
dá a dimensão da vitalidade da economia local.
Há menos de uma década, a presença
espanhola na América Latina era quase inexpressiva.
Neste ano, a Espanha deve ultrapassar os Estados Unidos
como o principal investidor estrangeiro na região.
O carro-chefe da ofensiva é a Telefónica de
España, a gigante das telecomunicações
que abocanhou a Telesp por quase 6 bilhões de reais
em 1998. Além do Brasil, a empresa lançou
tentáculos na Argentina, no Chile e no Peru. Vale
mais que um quarto de todas as ações negociadas
nas bolsas espanholas. Na Europa, a Bolsa de Valores de
Madri só perde em movimento para as de Londres, Paris,
Frankfurt e Estocolmo.
Outro país
"A Espanha é outro país", diz o
primeiro-ministro. A mudança é notável
até visualmente. As novas construções
de linhas modernosas pipocam na paisagem das cidades. Nas
ruas, uma das marcas da opulência é a proliferação
de celulares, que não chegavam a 1 milhão
há cinco anos e hoje são 16 milhões.
A Espanha é também o país da Europa
mais conectado na nova economia. A Terra Networks, uma subsidiária
da Telefónica, é o principal portal da internet
do continente. O Banco Bilbao Vizcaya se vangloria de ser
a instituição financeira que mais rápida
e eficientemente soube adaptar-se ao mundo dos negócios
virtuais.
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Aznar levou os louros,
mas o milagre econômico espanhol é obra de
muitos santos. A prosperidade, que começou com o
fim da ditadura, em 1977, recebeu um grande empurrão,
quase dez anos depois, com a forte injeção
de subsídios que acompanhou a entrada da Espanha
na União Européia, UE. Foram os socialistas
que abriram o país, colocaram-no na UE e modernizaram
a economia. Mas ficaram tempo demais no poder e se atolaram
em corrupção e politicagem. O atual primeiro-ministro
teve a sabedoria de dar continuidade às boas ações
dos adversários. "A modernização da
Espanha é um sucesso coletivo", reconhece. Tratou
apenas de aumentar a intensidade das reformas. Levou adiante
um ambicioso plano de privatizações, reduziu
as taxas de juro e liberalizou as leis trabalhistas. Além
da inflação, que caiu mas resiste em patamar
superior ao recomendado pelo banco central europeu, o que
pode atrapalhar a caminhada de Aznar é a corrupção.
O alvo principal das críticas da oposição
é Juan Villalonga, um amigo de escola que o presidente
colocou na presidência da Telefónica e que
se tornou um dos homens mais ricos do país.